Honda Africa Twin: como anda a nova filha do Dakar

Com 90,2 cv e torque de 9,3 m.kgf, o desempenho da CRF atende às necessidades, mas não pode ser comparado aos das oponentes de 1.200 cm3

 

O desempenho da Africa Twin satisfaz, embora não possa ser comparado ao das motos da classe 1.200, com potência na faixa de 110-120 cv. A velocidade máxima de 202 km/h, declarada extraoficialmente pelo fabricante, a coloca mais uma vez entre modelos no segmento de 800 a 950 cm³.

Apesar da configuração de rodas e pneus que prevê o uso fora de estrada, pode-se encarar as curvas no asfalto sem a menor preocupação com a nova Honda. Os pneus Dunlop surpreenderam em várias situações: com medida 90/90-21 na dianteira e 150/70-18 na traseira, podem sair do asfalto para a terra (e vice-versa) mantendo a eficácia sem nem ao menos alterar a pressão. Nessa troca de terreno ajuda bastante o acesso à regulagem da suspensão traseira, por meio de um seletor já comum nesse tipo de moto, que deixamos na posição mais firme durante todo o teste.

Apesar de muito confortável e estável no asfalto, foi nos 100 km de estrada de terra que a Africa Twin do século 21 surpreendeu. O roteiro levantado por nosso principal piloto de rali, Jean Azevedo, procurou misturar todo tipo de terreno, incluindo uma claudicante ponte pênsil, pedras, erosões, areão, rio sem ponte, vários saltos, mata-burros — enfim, tudo que se encontra normalmente em um rali.

 

Motor com baixo nível de ruídos e vibrações e posição confortável, seja para piloto ou garupa, credenciam essa Honda como boa parceira de viagens

 

Aconselhados pelo experiente piloto, no trecho de terra as motos foram ajustadas com o controle de tração no nível 1 e o ABS da roda traseira desligado. Segundo Azevedo, é a configuração ideal para um uso “civilizado” no fora de estrada, mas a experimentamos também sem controle de tração para ver o quão mais divertido e assustador poderia ser.

 

Excelente foi a atuação do conjunto suspensão/pneus: mesmo nos trechos de lama e areão, a moto se manteve estável e sob controle o tempo todo

 

Não é exagero afirmar que a Africa Twin está quase pronta para enfrentar enduros e ralis — bastaria receber suspensões especiais e pneus fora de estrada e ter retiradas as peças desnecessárias. O controle de tração funciona todo por eletrônica, usando os mesmos sensores do ABS. Ele compara três parâmetros: velocidade das rodas dianteira e traseira e da transmissão. Com isso, quando a roda traseira começa a derrapar, ele atua no ponto de ignição e no sistema de injeção e reduz a potência do motor até a roda parar de patinar.

No asfalto – e no piso molhado – pode-se usar no nível 3 o tempo todo, mas na terra é preciso manter o nível 1, senão o motor corta várias vezes e mal se consegue subir uma trilha. Excelente foi a atuação do conjunto suspensão/pneus: mesmo nos trechos de lama e areão, a moto se manteve estável e sob controle o tempo todo. No fim desativamos o controle de tração, e tivemos nova surpresa por manter um bom controle nas condições mais exigentes. Mesmo nos saltos e nas erosões, as suspensões absorveram com tranquilidade. A sensação é de estar pilotando uma moto bem menor e mais leve.

 

 

O freio dianteiro com ABS mostrou eficiência: mesmo alicatando com força, conseguimos manter a trajetória e aderência. Mas não compensa manter o freio ABS traseiro ligado na terra, porque muitas vezes é necessário derrapar com esse pneu para inserir a moto na curva. A posição de pilotagem também agradou muito no fora de estrada intenso — pode-se pilotar em pé nas pedaleiras o tempo todo sem cansar. O guidão de seção circular variável tem altura e largura na medida para esse uso, sem comprometer no dia a dia, mas no trânsito das cidades os protetores de mãos podem atrapalhar. O amplo esterçamento do guidão permite manobras em baixa velocidade com segurança.

 

Acerto de suspensão e ajustes do controle de tração revelaram-se ideais para terrenos difíceis, mas o uso de pneus com câmara é um inconveniente

 

A Africa Twin só não foi 100% satisfatória por causa dos pneus com câmara. Em um grupo de quatro motos, tivemos dois pneus dianteiros furados por causa das pedras. Embora não exista pneu aro 21 sem câmara no mercado, há produtos que vedam o aro (e os niples dos raios) para permitir usar o pneu sem a câmara, uma solução alternativa questionável.

Também faltou um pouco de força para uso em rodovias: para uma 1.000, esperava-se um pouco mais de velocidade e potência. O que ficou bem claro é que, embora possa ser usada com conforto na cidade e na estrada, trata-se de uma uso-misto mais voltada para o fora de estrada.

Depois de muita expectativa, a Honda Africa Twin chegou com status de rainha do deserto. Ela cumpre muito bem o que promete, em termos de versatilidade, e pode ser uma boa única moto para rodar tanto no dia a dia quanto nas trilhas nos fins de semana — talvez melhor que as grandes 1.200 na cidade, embora não tão boa quanto elas em viagens pelo asfalto. Apenas o preço ficou um pouco fora da realidade: já que concorre com motos do segmento 800/950, o valor também deveria estar nesse segmento.

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Ficha técnica

Motor
Cilindros 2 paralelos
Comando de válvulas no cabeçote
Válvulas por cilindro 4
Arrefecimento líquido
Diâmetro e curso 92 x 75,1 mm
Cilindrada 999 cm³
Taxa de compressão 10:1
Alimentação injeção
Potência máxima 90,2 cv a 7.500 rpm
Torque máximo 9,3 m.kgf a 6.000 rpm
Transmissão
Marchas 6
Transmissão final corrente
Freios
Dianteiro a disco
Traseiro a disco
Antitravamento (ABS) sim
Quadro
Material aço
Suspensão
Dianteira garfo telescópico
Traseira monomola
Pneus
Pneu dianteiro 90/90-21
Pneu traseiro 150/70-18
Dimensões
Comprimento 2,334 m
Largura 932 mm
Altura 1,478 m
Entre-eixos 1,574 m
Altura do assento 850 a 870 mm
Capacidades e peso
Tanque de combustível 18,8 l
Peso a seco 212 kg
Desempenho e consumo
Não disponíveis
Dados do fabricante