Mercedes-Benz Classe C: portal de acesso às estrelas

 
A Classe C Estate atendia a um segmento importante na Europa, mas não chegou a
ser vendida nos EUA; os motores com compressor também podiam equipá-la

 

Em janeiro de 1996 estreava a perua Classe C, a primeira opção da Mercedes nesse segmento, já que o 190 não havia recebido tal variação. A Estate oferecia as mesmas opções do sedã, exceto a C36 AMG, mas não chegou a ser vendida nos EUA. Uma leve atualização de estilo para o sedã era apresentada em maio seguinte com novos para-choques, molduras laterais que os acompanhavam e lanternas traseiras com seção fumê. A caixa automática passava a ter cinco marchas.

Na Motor Trend o C280 Sport foi comparado ao BMW 328i e ao Volvo 850 R. Mostrou-se superior em conforto de rodagem, ergonomia e nível de ruído, mas perdeu para o conterrâneo em motor, desempenho, estabilidade e itens de segurança, enquanto o sueco teve a maior capacidade de bagagem. “O Sport tem comportamento nitidamente melhor que um C280 básico, mas mantém o alto nível de refinamento e as sensações que se tornaram a essência dos M-B modernos. Sua qualidade de rodagem exemplar, associada a uma natureza que inspira confiança, recebeu muitos elogios da equipe, em particular quando se vê esse carro como seu módulo de transporte diário”.

Na Europa, a espanhola Autopista comparou o C280 a Audi A4, BMW 328i, Citroën Xantia e Peugeot 406, todos com motores de seis cilindros. O Mercedes ganhou pontos pela suspensão: “O carro oferece excelente conforto de marcha, associado a uma estabilidade de primeira ordem. Sua atitude em curva é progressiva, o que transmite elevada dose de confiança. A extraordinária direção é precisa e bastante rápida”. Com altas notas também em acabamento, espaço interno e freios, o Classe C foi criticado pelo consumo e os equipamentos de série. O BMW e o Citroën terminaram a comparação empatados em primeiro lugar.

 

 

 
O motor V6 substituía o seis-em-linha e ocupava menos espaço longitudinal no cofre;
era adotado no C280 e oferecido também no C240 em lugar do C230 Kompressor

 

Novas alterações no trem de força vinham em junho de 1997: a Mercedes lançava motores V6 para substituir os já antigos seis-em-linha, com a vantagem do menor comprimento que favorecia desenhos mais aerodinâmicos na frente. Dessa vez os cabeçotes tinham três válvulas por cilindro (duas de admissão, uma de escapamento) e comando de válvulas único por bancada, mas cada cilindro usava duas velas, o que contribuía para menores emissões poluentes. O C280 ganhava um novo 2,8-litros com 197 cv, aumento de apenas 4 cv, e o C240 com outro V6 de 2,4 litros e 170 cv substituía o C230 Kompressor.

 

Depois de anos sem sucessor para o 190E 2.3-16, a Mercedes revelava um sedã esportivo à altura do BMW M3: o C36 AMG, que oferecia 280 cv

 

Outra mudança era que o C220 dava lugar a um C230 de aspiração natural com 2,3 litros, os mesmos 150 cv e torque aumentado para 22,4 m.kgf. Na linha a diesel a novidade era o C220 CDI, o primeiro automóvel desse tipo a associar quatro válvulas por cilindro e injeção eletrônica direta de duto único para um funcionamento mais silencioso, eficiente e menos poluente, além de obter 125 cv (30 cv a mais que no antigo C220 D) e 30,6 m.kgf. Em segurança, a Mercedes introduzia bolsas infláveis laterais dianteiras e assistência adicional em frenagens de emergência (BAS).

Sem grandes alterações de estilo, o Classe C voltava a receber intervenções técnicas em 1998. O lugar do C36 AMG era ocupado pelo C43 AMG, primeiro Mercedes desse porte com motor V8 — a unidade de 4,3 litros do E430, que havia sido modificada para fornecer 306 cv e 41,8 m.kgf, habilitando-o o acelerar de 0 a 100 em 6,5 segundos e atingir 250 km/h, quando atuava o limitador eletrônico. O câmbio automático de cinco marchas permanecia obrigatório. Outra primazia da versão era oferecer a carroceria de perua com o tratamento da AMG.

 

 
O V8 do Classe E vinha modificado para 306 cv no C43 AMG, primeiro Classe C de oito
cilindros; mesmo com caixa automática, levava só 5,7 segundos de 0 a 100 km/h

 

Na linha mais moderada, o C200 CDI estreava com um turbodiesel de 2,2 litros e 102 cv para o lugar do C220 D — um dos primeiros casos em que os algarismos de identificação já não correspondiam à cilindrada, o que a Mercedes faria muitas vezes dali em diante. No ano seguinte todo Classe C ganhava controle eletrônico de estabilidade, uma primazia em seu segmento, e o câmbio automático passava a admitir mudanças manuais sequenciais. O C200 Kompressor tinha a potência reduzida para 163 cv em 2000, mesmo ano em que o C180 adotava um motor de 2,0 litros; no C240 a cilindrada crescia para 2,6 litros sem aumento de potência.

 

 

Na revista Car and Driver, nos EUA, a mudança de motor da versão AMG foi aprovada, mas com uma restrição. “De 0 a 96 km/h, de 0 a 160 e no quarto de milha [0 a 402 metros], o C43 supera o BMW M3 automático, mas fica para trás do M3 manual. Por US$ 54.559 você deveria obter a perfeição — e ele ficaria perfeito com uma alavanca de câmbio. O som do motor é simplesmente emocionante e o carro adere firme e se comporta como um sonho”, opinou um dos avaliadores.

A solução para superar o M3, porém, estava ao alcance de bolsos recheados: a divisão Manufaktur da AMG, dedicada a projetos especiais sob encomenda, apresentava em 1999 o C55 AMG como sedã e perua. O V8 de 4,3 litros dava lugar ao de 5,4 litros usado em outros modelos da série esportiva, como o E55 AMG, com 354 cv e robustos 54 m.kgf — modificação que baixava o 0-100 para 5,5 segundos, mas exigia alterar até mesmo o assoalho para abrigar a transmissão mais reforçada. Apenas 59 carros saíram com tal especificação, ante 5.400 da versão C36 e 3.850 da C43. Diz a lenda que o único importado para as Américas veio para um diretor da Mercedes brasileira.

 

 
Pela primeira vez a versão AMG podia vir também como perua; clientes ainda mais
exigentes podiam encomendar o C55 AMG, com 354 cv e um torque soberbo

 

Corpinho de violão

A segunda geração do Classe C, de código W203, fazia sua estreia no Salão de Genebra em março de 2000. Com pequeno aumento nas dimensões, assumia formas mais arredondadas e agradáveis, com ótimo coeficiente aerodinâmico (Cx) de 0,26 ou 0,27, conforme a versão. Os destaques eram a frente com faróis em forma de violão, que de certo modo lembravam os conjuntos duplos e ovalados do Classe E de 1995, e a traseira com lanternas triangulares que ainda alcançavam o topo da tampa do porta-malas.

O interior, também com linhas suaves e atualizadas, oferecia comodidades como comando de voz Linguatronic para controlar os sistemas de áudio e de telefone, ar-condicionado automático de duas zonas de ajuste, toca-CDs para seis discos no painel, volante multifunção, limitador de velocidade e navegador por GPS. Os itens de segurança compreendiam bolsas infláveis frontais, laterais dianteiras e de cortina, controle eletrônico de estabilidade e tração e freios ABS de série com assistência adicional em emergência.

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Com eletricidade

Assim como aconteceu com o antecessor 190, o primeiro Classe C teve uma versão experimental elétrica. O projeto apresentado em 1995 usava baterias de sódio-cloreto de níquel, com tempo de recarga de 11 horas e peso de 340 kg, e motor elétrico de 30 kW (41 cv). Com tão baixa potência para todo o peso do sedã, o desempenho só poderia ser muito modesto: teste da revista italiana Quattroruote indicou velocidade máxima de 112 km/h e aceleração de 0 a 100 em 47 segundos.

 

Para ler

Mercedes-Benz: Cars of the 1990s – por James Taylor, editora Crowood Press. A primeira geração do Classe C é um dos temas do livro de 192 páginas, no qual o autor inglês aborda também o compacto Classe A e modelos mais luxuosos. Lançado em 2009.

Mercedes – por Rainer W. Schlegelmilch e Hartmut Lehbrink. Não espere aprender sobre o Classe C nessa obra de 660 páginas, lançada em 1998. Em contrapartida, modelos históricos da Mercedes estão mostrados em belíssimas fotos com textos em inglês, alemão e francês. São dois volumes em uma só embalagem.

The Ultimate History of Mercedes-Benz – por Trevor Legate, editora Parragon. “A história definitiva” parece pretensioso demais para apenas 192 páginas, mas o livro de 2005 busca esclarecer fatos históricos da marca alemã.

Mercedes-Benz: 110 Years of Excellence – por Dennis Adler, editora Motorbooks. Se 96 páginas são pouco, o livro de 1995 promete variedade, com modelos como a série S/SS/SSK/SSKL dos anos 20 e 30, o 300 SL de “asas de gaivota” dos 50 e sedãs e cupês os mais diversos.

Mercedes-Benz – por Dennis Adler, Motorbooks. Em 256 páginas, o autor apresenta mais de 50 modelos desde o Benz Patent-Motorwagen, considerado o primeiro automóvel, até os recentes. Publicado em 2008.

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