Henry Ford, um homem que mudou o mundo

 

 
O Modelo A substituiu o T e vendeu quatro milhões de unidades; sua fabricação
era verticalizada ao extremo, pois Ford tentou produzir até a borracha dos pneus 

 

Melhor que qualquer outro

Apesar de seu esforço pela melhoria de vida dos trabalhadores, Henry era contra os sindicatos — achava que eram muito influenciados por alguns líderes, cujas ideias não raro mais prejudicavam que ajudavam os trabalhadores. Também acreditava que os líderes sindicais desejavam crises perpétuas como maneira de manter seu poder sobre os trabalhadores. Foi formado então pelo Departamento Social um sistema de intimidação aos sindicalistas que tentavam agremiar os funcionários de Ford, o que levou a batalhas entre seguranças e sindicalistas. Edsel achava que algum acordo deveria ser feito, mas Henry recusava. A Ford foi a última empresa a reconhecer o sindicato dos trabalhadores da indústria automobilística, o UAW, apenas devido à posição de Clara, mulher de Henry.

Em 4 de fevereiro de 1922, Ford comprou a Lincoln. Pela aquisição, declarou: “Já construímos mais carros que qualquer outro, e agora vamos construir um carro melhor que qualquer outro”. Pela metade da década, as vendas do Modelo T começaram a declinar — outros fabricantes ofereciam planos de financiamento para seus carros, que incluíam características mecânicas mais modernas e estilos não disponíveis no T. Apesar dos estímulos de Edsel, Henry recusava-se a incorporar tais evoluções e a criar um plano de crédito.

 

O desempenho do Ford V8 rendeu a Henry um agradecimento do bandido Clyde Barrow por ter criado o veículo que o permitiu por diversas vezes fugir da polícia…

 

A companhia de aviões Stout Metal Airplane Company era adquirida em 1925 por Ford, que desenvolveu o avião Ford 4AT Trimotor — chamado de Ganso de Lata, pela construção metálica ondulada com uma liga chamada Alclad, que combinava a resistência à corrosão do alumínio com a força do duralumínio. O Trimotor foi o primeiro bem-sucedido avião de passageiros dos EUA. Foram construídos 199 deles até 1933, quando a Ford Airplane Division encerrou suas atividades devido às poucas vendas durante a Grande Depressão.

Na época Henry também se envolveu em uma polêmica ao incentivar um jornal, o The Dearborn Independent, que publicava artigos antissemitas. Apesar disso, ele nunca discriminou funcionários e fornecedores judeus e condenava a violência contra eles. Foi também um dos primeiros empresários norte-americanos a empregar negros. Nos anos 20, Ford construiu instalações na África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, Filipinas, França, Índia e México.

 

 
Henry na aquisição da Lincoln, em 1922, e 10 anos depois junto ao primeiro
motor V8 de grande produção, que notabilizou o Ford V8 pelo desempenho

 

Por volta de 1926, o enfraquecimento das vendas do Modelo T enfim convenceu Henry a fazer um novo carro, que ele projetou em 90 dias com um grande número de técnicos, deixando o desenho da carroceria para seu filho, Edsel. O resultado foi o Modelo A, produzido de 1927 a 1931 em mais de quatro milhões de unidades, com 50.000 pedidos de compra no dia de apresentação. Foi a maior campanha publicitária feita até então, com cinco dias de anúncio de página inteira em 2.000 jornais do país. Entre o fim de produção do Modelo T e a introdução do A, a fábrica ficou sete meses parada.

Quando se iniciou a produção do Modelo A, a fábrica de River Rouge era o maior complexo industrial do mundo, com 93 prédios e uma área construída de 1,5 milhão de metros quadrados. Tinha forte integração vertical, fazendo até o próprio aço. Ford objetivava produzir um veículo a partir do zero, sem dependência — mesmo a borracha dos pneus ele desejava produzir. Para isso, montou uma enorme plantação de seringueiras para a produção de borracha na Amazônia brasileira, com uma vila chamada de Fordlândia, o que acabou terminando em prejuízo.

 

 

Ford tinha bastante interesse na história norte-americana e tentou transformar Sudbury, Massachusetts, em uma vila histórica. O plano não deu certo, mas em 28 de outubro de 1929 foi aberto o Museu Henry Ford (na época Instituto Edison) em Greenfield Village, onde funciona até hoje. No mesmo ano, aceitou o convite de Joseph Stalin para construir uma fábrica — a NNAZ, hoje GAZ — na cidade de Gorky (atual Nizhny Novgorod), enviando engenheiros norte-americanos para instalá-la.

Henry enfim superou em 1930 sua oposição a companhias de financiamento, fazendo da Universal Credit Corporation de Ford a principal financiadora de veículos do mundo. Em 1930 começava a construção da fábrica na Alemanha e, no ano seguinte, comemorava-se o Ford de número 20 milhões. Depois do Modelo A, a empresa adotou um sistema de mudança anual de modelo, estratégia criada pela General Motors nos anos 20.

A concorrência ao Modelo A começou a apertar com a chegada do Chevrolet de seis cilindros. Henry decidiu então lançar como resposta o primeiro carro com motor V8 confiável e com preço competitivo. Seu desempenho era tão surpreendente para a época que Henry chegou a receber uma carta de agradecimento do famoso bandido Clyde Barrow, da dupla de assaltantes Bonnie e Clyde, agradecendo-o por ter criado o veículo que o permitiu por diversas vezes fugir da polícia… Henry chegou a construir dois protótipos de motor de cinco cilindros, mas o projeto foi abandonado.

 

 
Henry Ford: a mecanização do trabalho para a produção em massa, conhecida
como fordismo, foi uma de suas contribuições para o mundo moderno

 

Uma série de derrames no fim dos anos 30 deixou Ford debilitado. Ele passou a ser mais figurativo na empresa, com decisões tomadas por outros. Mesmo assim, levou adiante um projeto que iniciara três décadas antes, testando materiais agrícolas na produção de automóveis. Testou a soja em tintas, borrachas e óleo para amortecedores. Convertia-a em plástico, usado em porta-luvas, manoplas de câmbio, botões de buzina, pedais, painéis de instrumentos e tampa de porta-malas.

Construiu um carro com carroceria toda de plásticos derivados da agricultura, com 14 peças fixadas a um chassi tubular, que pesava dois terços de um similar de aço. Ao exibir o protótipo, em 1941, comprovou a resistência da carroceria dando machadadas. Entre as fibras usadas estava até a do cânhamo da maconha — do qual se extraia o óleo para o motor do carro experimental funcionar. Henry sempre foi um prolífico inventor e ao todo teve 161 patentes registradas.

Ele opôs-se à entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, continuando a ter negócios com os alemães até a declaração do conflito. Acabou tendo de construir na fábrica de Willow Run os bombardeiros B-24, de outubro de 1942 em diante, e no total produziu 9.000 deles. Após a morte de Edsel de câncer, em 1943, Henry reassumiu o controle nominal da empresa, mas na verdade ela era dirigida por Charles Sorensen e Harry Bennett. Foi quando a empresa começou a declinar. A administração do presidente Franklin Roosevelt considerou uma estatização da Ford, pelo menos para garantir a produção bélica.

Henry Ford II assumiu a presidência no lugar do avô Henry, doente, em setembro de 1945 e conseguiu restabelecer a empresa. O pioneiro Henry faleceu em Dearborn no dia 7 de abril de 1947, aos 83 anos. O sétimo homem mais rico de todos os tempos, em valores atualizados, deixou a maior parte de sua fortuna para a Fundação Ford, mas providenciou o controle permanente da empresa por sua família.

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