Ford Mustang: potência para as massas há meio século

1979 Ford Mustang Cobra

 

1979 Ford Mustang
1979 Ford Mustang
 
Nova plataforma e visual atualizado no Mustang 1979, oferecido como hatch e cupê
como antes; o motor turbo de 2,3 litros prometia potência de V8 com economia

 

Geração duradoura

A Ford comemorava 15 anos de sucesso do carro-pônei em 1979 com um novo Mustang, com visual mais moderno e linhas retilíneas, mas mais harmoniosas e agradáveis que as do modelo II. Com quatro faróis retangulares, a frente inclinada deslocava o emblema do cavalo da grade para o capô. As grandes janelas ofereciam boa visibilidade e a coluna traseira estava menor. Para-choques e retrovisores vinham mais integrados ao estilo. A Ford informava coeficiente aerodinâmico (Cx) de 0,44 para o fastback  e 0,46 para o cupê de três volumes — nada expoente, mas melhor que no anterior.

O novo carro era construído sobre a plataforma Fox, a mesma do Ford Fairmont lançado em 1978. Isso possibilitou que crescesse em comparação ao Mustang II, passando de 2,44 para 2,55 metros entre eixos e a um comprimento de 4,54 m; mesmo assim havia redução peso da ordem de 90 kg. Os motores continuavam o 2,3-litros de 88 cv, o V6 2,8 de 109 cv e o 302 V8 de 140 cv. Em seguida a Ford trazia de volta o velho seis-cilindros em linha de 3,3 litros, agora com 94 cv, em substituição ao V6.

Surpresa mesmo era a estreia do primeiro Mustang com turbocompressor de fábrica, aplicado ao 2,3-litros, que assim alcançava 131 cv. A Ford anunciava “desempenho de V8 sem sacrificar o consumo” e aceleração de 0 a 96 km/h mais rápida que a do 302. Os câmbios manual de quatro marchas e automático de três eram mantidos na linha e havia escolha entre rodas de 14 pol (antes eram 13) e o conjunto Michelin TRX de 390 mm (15,3 pol) com pneus de perfil baixo, solução trazida do Ford Granada europeu, acompanhado de suspensão mais esportiva.

 

1982 Ford Mustang GT 5.0

 

1980 Ford Mustang
1981 Ford Mustang
1981 Ford Mustang
 
O GT com motor 302 era o carro mais rápido dos EUA em 1982; os anúncios
falavam em carro esporte, mas enfatizavam economia e custo acessível

 

A Ford investiu pesado na divulgação do novo Mustang e produziu seis mil réplicas da versão pace-car  (carro-madrinha de competições) com bancos Recaro, entradas de ar no capô, rodas e pintura especiais. Também eram oferecidas as versões Ghia para o cupê e Cobra para o fastback.  O Mustang vendeu nada menos que 369 mil unidades naquele ano, começo de um êxito duradouro — essa carroceria permaneceria inalterada por 14 anos, com modificações apenas na parte frontal.

 

Surpresa era a estreia do primeiro Mustang
com turbo, para o qual a Ford anunciava
“desempenho de V8 sem sacrificar o consumo”

 

O novo carro foi pouco modificado nos anos seguintes. Na linha 1980 o motor 302 saía de cena outra vez, dando lugar ao mais econômico V8 de 4,2 litros e 119 cv. Um ano depois, o 2,3 turbo era quem desaparecia do catálogo, vítima da baixa confiabilidade, enquanto o teto targa aparecia com painéis de vidro escurecido sobre cada banco dianteiro, para sensação quase de conversível quando retirados. Encostos reclináveis e controles elétricos de vidros eram oferecidos pela primeira vez.

O Mustang GT — que substituía o Cobra — de 1982 marcava o retorno do V8 302, agora com 157 cv e a melhor aceleração dos carros norte-americanos da época. Era a promessa de resgatar os tempos gloriosos do esportivo. A marca criava também o SSP, Special Service Package (pacote de serviço especial), que consistia em um GT preparado para a Patrulha Rodoviária da Califórnia. Era uma excelente ferramenta para perseguir os mais atrevidos e aqueles que não gostam de parar quando solicitados. Foram produzidos 400 para a polícia californiana naquele ano.

 

1983 Ford Mustang

 

1982 Ford Mustang
1983 Ford Mustang GT
 
Com carroceria adaptada, o conversível estava de volta em 1983 depois de
nove anos de ausência; o GT de 1983 mostra a frente com novo aspecto

 

A tempo de comemorar os 20 anos do pônei, a Ford relançava em meados de 1983 a versão conversível, ausente desde 1974. Agora a capota tinha acionamento elétrico e vidro traseiro em vez de plástico. A carroceria não era fabricada aberta, porém: a Ford recorreu a uma conversão pela Cars & Concept de Brighton, Michigan.

Atrás da nova grade dianteira, aplicada a toda a linha daquele ano, vinham outros motores. O seis-cilindros de 3,3 litros dava lugar a um V6 de 3,8 litros com 105 cv (18 cv a mais), ao passo que o turbo de 2,3 litros voltava aprimorado. Com injeção eletrônica em vez do carburador e revisões internas como pistões forjados e válvulas especiais, esse quatro-cilindros produzia 145 cv e prometia maior durabilidade que o anterior. Por sua vez, o 302 era oferecido pela primeira vez desde 1970 com carburador de corpo quádruplo, que o levava a 175 cv. Mais potente e barato que o turbo, fez deste uma opção de poucos compradores naquele ano.

Uma sigla nostálgica — GT 350 — reaparecia em 1984 na edição comemorativa de 20 anos do Mustang. Era um pacote para o GT com o motor 2,3 turbo ou o 302, sempre em branco com interior vermelho, mas o nome Shelby não era usado porque o texano então trabalhava para a Chrysler. O 302 agora existia em duas versões, uma delas com injeção monoponto e 165 cv, a outra com carburador quádruplo e 175 cv. O V6 3,8 adotava o mesmo tipo de injeção e passava a 120 cv.

 

1984 Ford Mustang SVO

 

1984 Ford Mustang SVO
1984 Ford Mustang SVO
 
Sem grade e com duplo aerofólio, o SVO lembrava o Sierra XR4i europeu; tinha
motor 2,3 turbo com 175 cv, interior esportivo e freios a disco também atrás 

 

A versão LX com o V8 302 foi comparada pela Car and Driver  ao Camaro IROC-Z de 5,7 litros. Embora o Chevrolet fosse mais rápido, o Ford agradou pela praticidade: “Sua maior vantagem é a eficiência: não só pesa 135 kg a menos, como oferece conforto para quatro adultos (melhor deixar o banco traseiro do Camaro para seu chihuahua). Seu ponto mais forte é o refinamento: o motor é muito mais silencioso, embora tão impressionante quanto o do Chevrolet, e sua estrutura é rígida. Seu câmbio funciona sem esforço e seu rodar é mais confortável. É um carro mais fácil de dirigir suavemente quando se tem pressa”.

 

 

SVO, um especial com turbo

Pouco depois era introduzida a versão SVO (sigla para Special Vehicle Operations, operações de veículos especiais), na qual o 2,3-litros com turbo recebia resfriador de ar para obter 175 cv. De acordo com a Ford, o carro acelerava de 0 a 96 km/h em 7,5 segundos e alcançava 215 km/h. No pacote estavam câmbio de cinco marchas com trambulador da famosa Hurst para engates rápidos, diferencial autobloqueante, amortecedores Koni ajustáveis e freios a disco nas quatro rodas.

Por fora, esse Mustang especial abolia a grade dianteira e usava apenas dois faróis — recuados para proteção em pequenos impactos, conforme a legislação — em vez dos habituais quatro. O capô trazia uma tomada de ar, as rodas eram as primeiras de 16 pol no modelo (pneus 225/50) e a traseira ostentava um duplo aerofólio, seguindo o modelo do Sierra XR4i europeu lançado no ano anterior. No interior vinham de série bancos revestidos de couro com apoio lombar ajustável, controles elétricos e teto solar. Seu preço era salgado, o dobro da versão de entrada.

 

1985 Ford Mustang
1984 Ford Mustang Turbo GT350 Anniversary Edition
 
Nos outros Mustangs havia apenas um vão como grade; a edição GT 350 de 1984
(direita) comemorava os 20 anos do carro, mas não podia usar o nome Shelby

 

A proposta foi bem recebida pela imprensa. A Road & Track  declarou que ele “acelera mais que o Datsun 280 ZX, faz mais curvas que o Ferrari 308 e o Porsche 944… e é acessível”. A Motor Trend  considerou-o “o Mustang de rua com melhor comportamento que a fábrica já fez”. E o SVO foi comparado a sete esportivos — Audi Coupe GT, Chevrolet Camaro, Chrysler Laser, Mitsubishi Starion, Merkur XR4Ti, Nissan 300 ZX e Toyota Supra — pela Car and Driver,  que o colocou em quinto lugar, empatado ao Nissan.

“O SVO é o Porsche 930 Turbo da Ford, um velho projeto mantido vivo com grande doses de tecnologia administradas por dedicados engenheiros. A Ford certamente acertou em seu visual e o desempenho é potente: é o carro mais ‘quente’ do grupo por larga margem ao acelerar de 0 a 96 em 6,8 segundos. Ele também comporta-se bem e gosta de ser dirigido rápido. Mas quando você acelera tudo… nada. Um segundo passa, e nada ainda. Então, whoosh!  Todos os cavalos acordam de uma vez e o SVO quebra seu pescoço para trás”, definiu a revista.

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