Dodge Dart e Charger: não há substituto para a cilindrada

Dodge Dart e Charger: não há substituto para a cilindrada

Nova frente, a mesma do norte-americano desde 1974, e lanternas traseiras na horizontal marcavam o Dart 1979, que trazia caixa de quatro marchas no assoalho

 

O princípio do fim

A maior remodelação dos Dodges nacionais vinha na linha 1979. O Dart exibia nova frente, como no modelo norte-americano de 1974, com a grade pouco mais alta na região dos faróis, um “bico” no centro, para-choque mais robusto e, na traseira, lanternas em linha horizontal. Com bancos individuais reclináveis, opcionais, a alavanca da caixa manual de quatro marchas passava a vir no assoalho.

 

 

Toda a linha trazia novidades mecânicas como novo radiador, bateria e alternador de maior capacidade e suspensão recalibrada com amortecedores mais macios, além de melhor isolamento acústico. A Chrysler enfim atendia aos pedidos de maior autonomia com um tanque de combustível bem maior (de 62 passava a 107 litros). Era necessário em um período em que o governo mantinha os postos fechados das 20h às 6h e nos fins de semana, mas impôs nova colocação do estepe (antes debaixo da bagagem, agora sobre o eixo traseiro) com prejuízo à capacidade do porta-malas.

O cupê Magnum e o sedã de quatro portas Le Baron ampliavam a oferta como topos de linha, mais caros que o Charger R/T — tiveram seu lugar no mercado, devido à demanda criada pela proibição das importações de automóveis em 1976. A carroceria era a mesma do Dart, mas com novas seções dianteira e traseira feitas em plástico com fibra de vidro, recurso que permitia modificações de estilo a custo baixo. Ambos exibiam quatro faróis, para-lamas traseiros com sutis “rabos de peixe”, calotas cromadas de desenho clássico e interior luxuoso. Os bancos do Le Baron, bem acolchoados, pareciam poltronas e o rádio/toca-fitas tinha antena elétrica.

 

A faixa interrompendo o vinil do teto sugeria um teto targa no cupê Magnum, que usava frente de plástico e fibra de vidro com quatro faróis, como no sedã Le Baron

 

 

O Magnum lembrava um targa com a solução da capota, em que uma moldura na cor da carroceria ligava as colunas centrais de cada lado, e vinha com pneus radiais de série. Ele podia ter caixa manual de quatro marchas ou automática de três, com alavanca no assoalho, enquanto o Le Baron oferecia a manual e a automática de três marchas, sempre na coluna de direção. Além da transmissão, o único opcional para esses modelos era o ar-condicionado — todos os demais itens vinham de série.

A revista Auto Esporte elogiou a comodidade do Le Baron: “Acabamento perfeito, surpreendente maciez ao rodar, elevado nível de silêncio e conforto internos. Estes são os pontos que mais se destacam no Le Baron. O novo sedã da Chrysler começa a convencer quando se verifica o cuidado que foi dispensado ao seu interior, com bancos muito confortáveis, estofamento em veludo acrílico com desenho de bom gosto, painéis laterais combinados e capricho em todos os detalhes. A suspensão se tornou mais macia. O sedã roda suave e silencioso como um Galaxie LTD, e supera, nesses itens, um Alfa TI”.

 

O Magnum e o Le Baron ampliavam a oferta como topos de linha, mais caros que o Charger R/T — e tiveram seu lugar com a demanda criada pela proibição das importações

 

No teste da Quatro Rodas o Dart sedã foi elogiado pelo “acabamento muito bom, a aparência sóbria e imponente, o funcionamento suave e silencioso. A estabilidade é satisfatória, embora a suspensão recalibrada tenha tornado o Dart mais macio. E, entre os carros de alto luxo, é o de menor preço”. Com transmissão automática, o carro registrou máxima de 159,3 km/h e acelerou de 0 a 100 km/h em 18,6 segundos com consumo médio geral de 6,9 km/l.

O Charger R/T, no entanto, abandonava o antigo apelo esportivo e tornava-se mais um carro de luxo, com frente e traseira similares às do Magnum e pintura em dois tons. Passava a ser oferecido com rodas de alumínio, as primeiras de fábrica no Brasil, mas os pneus radiais voltavam a ser opcionais — um retrocesso inaceitável. Não havia mais os prolongamentos das colunas traseiras, embora ganhasse persianas nos vidros laterais posteriores.

 

Dodge Dart e Charger: não há substituto para a cilindrada

A traseira do Dart seguia a desse modelo dos Estados Unidos; tanque maior, amortecedores mais macios e melhor isolamento acústico vinham em toda a linha

 

O esportivo perdia autenticidade: o volante vinha do Dart, o couro dos bancos dava lugar a vinil e até o conta-giros dava lugar a um relógio. As suspensões mais macias também não combinavam com sua tradição. Notavam-se também faltas de regulagem contínua dos encostos dianteiros, lavador elétrico e temporizador do limpador do para-brisa, além de o ar-condicionado não estar integrado ao painel.

 

 

“Em alta velocidade a frente balança e nas curvas, além de inclinar bastante, o carro tende a sair de traseira no limite. O acabamento está à altura da categoria, luxuoso e bem-feito, mas o R/T perdeu os bancos de couro. Apesar dos ótimos assentos, é difícil encontrar a posição ideal de dirigir. No estilo, as alterações foram de gosto duvidoso. As persianas nos vidros, que mais se parecem com uma grade, dão a sensação de prisão e prejudicam muito a visibilidade”, observava a Quatro Rodas.

Vítima da crise do petróleo e do desinteresse pelos carros grandes, a Chrysler era comprada em 1979 pela Volkswagen, que passava a produzir seus caminhões nas instalações da empresa norte-americana. A produção dos automóveis era mantida, mas não por muito tempo. A razão social da fábrica desaparecia no ano seguinte.

 

Com frente e traseira como as do Magnum, o Charger estava menos esportivo na aparência e no comportamento; as rodas de alumínio eram as primeiras na indústria

 

A linha Dodge 1980 tinha poucas atualizações. O Charger estava mais sóbrio, perdendo a pintura em dois tons e a persiana lateral. Já o Magnum recebia como opcional um teto solar de controle elétrico (comandado por botão no painel), primazia em um carro nacional. As versões mais luxuosas ganhavam, afinal, limpador de para-brisa com lavador elétrico.

Com os consumidores temerosos pelo preço da gasolina — agravado pela segunda crise do petróleo, em 1979 — e os rumores em torno do fim da linha Dodge, as vendas não se sustentavam. O Charger R/T despedia-se já em 1980 e, no ano seguinte, a linha Dart e o Polara. Os modelos com motor V8 alcançaram cerca de 92.500 unidades produzidas. Apenas seus motores continuaram nos caminhões Volkswagen. Na década de 1990, renovado e com injeção eletrônica, o tradicional 318 voltaria a nossas ruas no Jeep Grand Cherokee e, mais tarde, na picape Dodge Dakota montada no Paraná.

Cinquenta anos depois do lançamento do primeiro Dart e quase 40 desde que saíram de produção, os grandes Dodges brasileiros continuam motivo de paixão e dedicação entre os aficionados. O Charger R/T, em especial, marcou época por seu estilo e desempenho.

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Ficha técnica

Dart sedã (1970)Charger R/T (1973)
Motor
Posição e cilindroslongitudinal, 8 em Vlongitudinal, 8 em V
Comando e válvulas por cilindrono bloco, 2no bloco, 2
Cilindrada5.212 cm³5.212 cm³
Potência máxima198 cv a 4.400 rpm*215 cv a 4.400 rpm*
Torque máximo41,5 m.kgf a 2.400 rpm*42,9 m.kgf a 2.400 rpm*
Alimentaçãocarburador de corpo duplocarburador de corpo duplo
Transmissão
Tipo de caixa e marchasmanual, 3manual, 4
Traçãotraseiratraseira
Freios
Dianteirosa discoa disco
Traseirosa tambora tambor
Antitravamento (ABS)nãonão
Suspensão
Dianteiraindependente, braços sobrepostosindependente, braços sobrepostos
Traseiraeixo rígidoeixo rígido
Rodas
Pneus7,35-14E70 S 14
Dimensões
Comprimento4,96 m5,08 m
Entre-eixos2,82 m2,82 m
Peso1.500 kg1.515 kg
Desempenho
Velocidade máxima170 km/h190 km/h
Aceleração de 0 a 100  km/h12 s11 s
*Valores brutos; dados de desempenho aproximados