Chevrolet Monza, o médio que alcançou o máximo

O “carro J” brasileiro, líder de vendas por três anos, marcou inovações para a GM e para o mercado nacional

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

A marca alemã Opel pertenceu à General Motors entre 1929 e 2017. Como hoje ela está sob o guarda-chuva do grupo francês PSA, de Peugeot e Citroën, muitos brasileiros podem nem saber o quanto seus projetos influenciaram os automóveis nacionais da Chevrolet, do pioneiro Opala ao último Vectra. Um deles tem lugar especial no coração de muitos: o Monza, sucesso absoluto da marca lançado em 1982.

Foi em novembro de 1970 que a Adam Opel AG, de Rüsselsheim, Alemanha, lançou na Europa um carro intermediário entre o Kadett (que na geração seguinte seria nosso Chevette) e o Rekord (à época similar ao primeiro Opala). Chamado de Ascona, nome de uma charmosa cidade turística no sul da Suíça, o modelo de linhas sóbrias oferecia versões sedã de duas e quatro portas, além da perua Voyage (depois Caravan), e teve motores de 1,2, 1,6 e 1,9 litro. A curva final da janela lateral traseira, talvez inspirada na da BMW, seria mantida por três gerações.

 

O Ascona passou por duas gerações até chegar à C, que deu origem ao Monza; note a curva final das janelas ao estilo BMW, presente desde o primeiro modelo

 

A segunda geração vinha em 1975 com mais 19 centímetros de comprimento, motores de 1,6 e 2,0 litros e a primeira versão a diesel do modelo. O esportivo 400, com produção limitada para homologação de corridas, usava motor de 2,4 litros e 16 válvulas com 144 cv. Ambas as séries seguiam soluções tradicionais em carros médios como a tração traseira.

 

 

O terceiro Ascona, o C, era lançado em setembro de 1981 como versão europeia do chamado “carro J” da GM. O segundo Opel com motor transversal e tração dianteira (depois do Kadett de 1979) chegava como sedã de duas ou quatro portas e hatchback de cinco — não havia mais a perua, embora a britânica Vauxhall tenha feito a sua do modelo local Cavalier. Os motores variavam entre 1,3 e 1,6 litro e de 60 a 90 cv, além de um Isuzu 1,6 a diesel de apenas 54 cv.

Carro médio mais vendido na Alemanha no ano seguinte, o Ascona logo ganhava motor 1,8 com injeção e 115 cv. Opções conversíveis foram feitas por três empresas alemãs: a Voll, a Hammond & Thiede e a Keinath. Produzido na Alemanha, Inglaterra e Bélgica, esse Opel concorria com Citroën BX, Ford Sierra, Renault 21 e Volkswagen Passat, entre outros. Uma versão de 2,0 litros com injeção e 130 cv, apta à velocidade máxima de 193 km/h, era adicionada em 1987. Em agosto do ano seguinte a Opel apresentava o Vectra, extinguindo o nome Ascona.

 

O motor de 2,0 litros e 130 cv foi a opção mais potente do Ascona; o cinco-portas não teve similar brasileiro; o Keinath KC3 foi um dos conversíveis modificados

 

Carro mundial

Além do alemão Ascona e do inglês Cavalier (leia quadro abaixo), o projeto do “carro J” teve outros frutos mundo afora. Nos Estados Unidos, as divisões Buick, Cadillac, Chevrolet, Oldsmobile e Pontiac fizeram suas versões (mais sobre elas nas próximas páginas), com estilo e mecânica diversos dos europeus. A australiana Holden criou o Camira, enquanto a Chevrolet sul-africana aplicava seu logotipo ao Ascona, mantendo o nome. No Brasil, o “J” chegou como Chevrolet Monza.

 

O Monza era nitidamente moderno, com defasagem de poucos meses em relação ao alemão — bem menor, por exemplo, que os seis anos do Omega ou os cinco do Kadett

 

Pelo conceito de carro mundial, um projeto básico era produzido em muitos países com as devidas adaptações às condições locais de uso, legislação e do gosto do consumidor, com o maior intercâmbio possível de fornecimento de peças entre os locais de fabricação. Vista como um caminho promissor nos anos 80, a ideia perdeu viabilidade com o tempo, pois se constatou que algumas regiões exigiam modificações extensas.

A General Motors do Brasil começou a trabalhar no projeto J no fim da década de 1970, usando o Kadett D como base por suas semelhanças técnicas — o carro foi diversas vezes flagrado por publicações da época, inclusive testando motor a álcool. Como o Ascona C só chegaria em 1981 às ruas europeias, não poderia circular sem disfarces por aqui. Durante essa fase, pesquisas mostraram que os brasileiros poderiam rejeitar o nome, pois em Portugal cona é uma gíria para o órgão genital feminino. Assim, recorreu-se a uma denominação italiana já usada pela GM em outros modelos na Europa e nos Estados Unidos (leia quadro abaixo).

 

A primeira versão do Monza tinha carroceria de três portas, exclusiva no mundo, mas boa parte dos componentes era compartilhada com outros países

 

O Monza era apresentado em março de 1982 como hatchback de três portas. Essa opção de carroceria não existia na Europa, onde havia apenas a de cinco, mas foi necessária para atender à incoerente preferência brasileira na época por modelos de duas portas — só nos anos 90 os de quatro portas ganhariam espaço de maneira acentuada. O desenho traseiro seguia o do Ascona, salvo pela adoção de uma curva final às janelas.

 

 

Estavam disponíveis as versões básica e SL/E, ambas com motor de 1,6 litro, que produzia potência de 73 cv com gasolina ou 72 com álcool e torque de 12,3 m.kgf. Era um carro nitidamente moderno, com defasagem de poucos meses em relação ao alemão — bem menor, por exemplo, que os seis anos compreendidos entre o lançamento do Omega na Europa e no Brasil, ou mesmo os cinco anos entre o Kadett de lá e o nosso.

Próxima parte

 

Os outros Monzas que a GM fez

O nome que a Chevrolet escolheu para a versão brasileira do “carro J” não era inédito dentro da companhia: houve dois Monzas antes do nosso, um na Chevrolet norte-americana e outro na Opel alemã.

O Monza dos Estados Unidos (acima) foi produzido de 1974 a 1980 e usava motores variados: quatro-cilindros de 2,3 e 2,5 litros, V6 de 3,2 e 3,8 litros e V8 de 4,4, 5,0 e 5,75 litros, sempre com tração traseira. Era um carro bem maior que o nosso, com 4,5 metros de comprimento e peso de até 1,3 tonelada, mas com apenas 2+2 lugares. A frente alongada mostrava inspiração no Ferrari 365 GTB/4 “Daytona”. Além do hatch, foram feitos um cupê de três volumes e uma perua de três portas.

 

Entre os europeus, o Opel Monza (acima) lançado em 1978 até lembrava nas formas o hatchback que seria nacional, mas era derivado do grande sedã Senator, o topo de linha da marca. O objetivo era suceder a versão cupê do antigo Rekord, que em geração anterior havia dado origem ao Opala brasileiro. A exemplo do norte-americano, ele tinha tração traseira e dimensões bem maiores que o carro brasileiro: 4,69 metros de comprimento, 2,67 m entre eixos, peso ao redor de 1.400 kg. No Reino Unido era fabricado como Vauxhall Royale Coupe.

Com motor de seis cilindros em linha, 3,0 litros e 180 cv, similar ao que teríamos no Omega em 1992, o grande três-portas de tração traseira chegava a 215 km/h — o mais veloz Opel até então. Outras versões eram de 2,5 litros/136 cv, 2,8 litros/140 cv, 3,0 litros/150 cv e, mais tarde, 2,0 e 2,2 litros/115 cv. Uma caixa automática de três marchas estava disponível. A suspensão traseira era independente por braços semiarrastados, como no Omega.

 

No Reino Unido

Assim como a Opel, a inglesa Vauxhall fez parte da GM — de 1925 a 2017 — e teve sua versão do “carro J”: o Cavalier, nome mantido do antecessor que se equivalia ao Ascona B (o Ascona A não teve similar britânico, pois na época a Vauxhall oferecia o modelo próprio Viva). Ao contrário da geração de 1975, que dispensava grade dianteira, a de 1981 era praticamente igual ao “primo” alemão no desenho e nos motores. Além do volante à direita, padrão inglês, outra diferença para o Ascona é que o Cavalier teve opção de perua de cinco portas com os painéis traseiros da carroceria importados da Holden australiana.

Próxima parte