Honda NC 700 X: novo conceito

Boas soluções, como meio motor de Fit e porta-capacete no lugar
do tanque, fazem uma opção para quem não pensaria em moto

 

O recente lançamento de uma motocicleta, a Honda NC 700 X, induz à reflexão. Dotada de um motor bicilíndrico derivado de um motor automobilístico — é, na prática, metade do quatro-em-linha usado no Fit de 1,35 litro —, a moto se destaca por surpreendentes dotes de economia. A Honda, por ocasião de seu lançamento internacional no fim de 2011, anunciou consumo de 28 km/l pela norma WMTC (world motorcycling test cycle).

Tal marca para uma motocicleta desse porte surpreende, mas espantoso mesmo foi aferir em recente teste realizado pela Revista da Moto! (em breve nas bancas…) que o consumo médio da NC 700 X montada em Manaus, AM, é ainda melhor do que o revelado pela Honda no Salão de Milão em novembro passado: na medição realizada pela publicação a marca obtida foi de 30 km/l, e isso usando nossa gasolina batizada com 20% ou mais de álcool, que em regra aumenta o consumo em pelo menos 10%.

Sem enveredar por intrincados aspectos técnicos que viabilizaram a possibilidade de tamanha economia, excelente e por ora fora do alcance das motos rivais de mesma categoria, salta à vista a opção da Honda de oferecer algo de efetivamente novo para seus clientes. Aliás, a sigla escolhida para o modelo, NC, alude exatamente a isso — iniciais de New Concept, novo conceito em português.

 

Outra sacada dessa NC é que um mesmo conjunto de chassi e motor resulta em três motocicletas diferentes: a mencionada NC 700 X, a versão naked NC 700 S e um grande scooter batizado de Integra

 

A Honda não se valeu de tecnologia mirabolante para operar a peripécia de construir uma moto média capaz de consumo de moto pequena. Apenas direcionou sua novidade para o aludido “novo conceito”, contendo a potência a valores menores do que o usual na classe, 52,5 cv a 6.250 rpm (a concorrente Kawasaki Versys 650, apesar do motor menor, mas sempre bicilindro, tem 64 cv a 8.000 rpm) e favorecendo torque em baixas rotações, 6,4 m.kgf a 4.750 rpm na Honda contra 6,2 m.kgf a 6.800 rpm na Kawasaki. Como se vê, o motor “automobilístico” da NC gira menos, “fala” menos, mas tem pegada em baixa e, principalmente, bebe muito menos.

A ordem é compartilhar

Compartilhamento de componentes com um carro de grande produção é novidade que certamente fez a Honda conter custos. E outra sacada dessa NC é que um mesmo conjunto de chassi e motor resulta em três motocicletas diferentes: a mencionada NC 700 X, a versão naked NC 700 S e um grande scooter batizado de Integra. Por ora apenas a NC 700 X está em nosso mercado, por ora sem o interessante câmbio automatizado DCT de seis marchas, equipamento padrão no Integra e opcional nas duas NCs comercializadas na Europa e nos Estados Unidos.

Corte de custos está no dia a dia de qualquer empresa, grande ou pequena. Compartilhamento de plataformas é também algo frequente na indústria do automóvel. Os exemplos de modelos muito diferentes que dividem uma mesma “alma” são comuns nas quatro rodas (como os Renaults Sandero, Logan e Duster, os Fords Fiesta e EcoSport e os Volkswagens Golf e Tiguan). Todavia, não é usual que corte de custos e aproveitamento de componentes e plataformas beneficiem tanto o consumidor final como no caso desta família NC, e não falamos apenas da sovinice do motor com relação ao combustível.

Para a Honda, que como toda a empresa viu seu faturamento decrescer com a crise iniciada no fim de 2008, oferecer uma moto que permita economia de exercício e seja uma proposta inovadora em termos de praticidade de uso foi uma saída rumo a novos tempos. Dotar as NCs de características de scooter, como um compartimento para guardar o capacete no local onde convencionalmente está o tanque, ou oferecer versões com práticos câmbios automatizados significou jogar a rede em um cardume de usuários que, até antes da crise, não abdicaria do conforto de seus automóveis para os deslocamentos diários.

Mas agora, observando os aspectos de praticidade e parcimônia e os preços de aquisição abordáveis (item que não vale para o Brasil, onde a NC 700 X teve seu preço estabelecido em patamar alto em demasia), consumidores que jamais cogitariam a solução duas-rodas para o ir e vir podem ser coptados e criar uma nova onda de motociclistas — bem menos interessados em desempenho e estereotipados valores como liberdade e vento no rosto, mas sensíveis e atentos a apelos que privilegiem economia de tempo e dinheiro, o que uma moto inteligente como a NC 700 X e suas pares pode lhes oferecer.

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