Carro para bater: o triste destino de alguns antigos

Carro para bater: o triste destino de alguns antigos

 

Escolhidos pela robustez e fácil manutenção, alguns velhos
automóveis trabalham pesado até os últimos dias de sua vida útil

 

“Tristeza. Agora me passa na rua um Corcel II 1978, que era um de meus favoritos de Ajuricaba. Era um carro íntegro, verde por fora com todo o interior marrom. Lentes dianteiras âmbar e traseiras lisinhas. Para fechar o pacote, um jogo de rodas de liga lindo, que lhe caiu muito bem, e só vi esse tipo de roda nesse carro. Agora me passa o pobre Corcel destruído, podre, chacoalhando toda lataria, sujo, cheio de tranqueiras no interior marrom além do psicopata que o conduzia. É uma pena que não dá para ter tudo que gostamos ($$$) e nem lugar para guardar…”

O relato do amigo Felipe Kuck, antigomobilista de Santa Rosa, RS, descreve com exatidão o desespero de quem gosta tanto de carros que acaba se condoendo ao avistar um belo e íntegro exemplar, caindo naquela que parece ser a pior das desgraças para qualquer automóvel: parar nas mãos dos profissionais que procuram apenas um meio de transporte barato, econômico e eficiente na árdua tarefa de colocar o pão nosso de cada dia em suas mesas.

Em poucas palavras, tornar-se um “carro para bater”. Lembro-me com desgosto do dia em que eu e o editor Fabrício Samahá testemunhamos o triste desdém de uma figura conhecida do meio, criticando um amigo de Minas Gerais empolgado na restauração de um Monza Hatch 1983. “Deveria transportar tintas, como todos os iguais a ele”, disse o pernóstico, ignorando o fato de que qualquer automóvel merece respeito (mesmo aqueles que nos desagradam).

 

São usados como animais de carga — abusados,
mal cuidados e praticamente sem descanso
— até o exaurimento completo de suas forças

 

Uns carregam tintas, escadas, baldes: são os favoritos dos pintores de paredes. Outros transportam martelos, serras e serrotes: agradam a carpinteiros e marceneiros. Alguns são vistos com lixadeiras, ferramentas de corte e solda: quase sempre estão nas mãos dos serralheiros. Os pedreiros não ficam atrás: são frequentemente vistos com sacos de cimento, ferramentas diversas e pequenas betoneiras, de um lado para o outro.

São carros que trabalham como animais de carga — abusados, mal cuidados e praticamente sem momentos de descanso. Na falta de uma sociedade protetora dos automotores, labutam até o exaurimento completo de suas forças: param por falta de compressão, por um cabeçote empenado, por uma embreagem centrifugada ou por outro componente avariado da transmissão. Terminam abandonados, sem abrigo, em lenta decomposição ferruginosa.

De todos os automóveis nacionais, acredito que nenhum outro sofra tanto quanto os da linha Ford Corcel II, que inclui os derivados Belina, Del Rey e Pampa. Basta prestigiar qualquer encontro de antigos para perceber como é baixo o número de representantes dessa família frente a outros contemporâneos, como VW Passat e Brasília, Chevrolet Chevette e Opala, Fiat 147. Em alguns casos até mesmo o injustiçado “Dodginho” 1800/Polara é visto em quantidades maiores.

O motivo é simples: os valentes Fords estão quase todos pegando no batente. Basta prestar atenção: 11 em cada 10 Corcéis II vistos nas ruas possuem um bagageiro fixo sobre o teto, quase sempre carregado. As razões para essa preferência passam pela mecânica simples e robusta, o baixo custo operacional, poucos mecanismos complexos (peça que não existe não quebra) e componentes facilmente encontrados a pronta entrega em qualquer loja de autopeças, em todo o País.

Considerando que o Corcel II saiu de linha há quase 30 anos, é natural que essas peças sejam fornecidas pelo mercado paralelo — se já é difícil encontrar certos componentes originais para carros em produção, o que dizer de um que acabou antes do Plano Cruzado de Sarney? Um exemplo é o das juntas homocinéticas: muitas vezes só é possível encontrá-las recondicionadas, à base de troca. Não é o ideal, mas basta para quem quer apenas um meio de transporte para colocar pão na mesa.

 

 

Adequado à realidade

Durante alguns anos, minha esposa foi a feliz proprietária de um Corcel II 1983, herança de seu saudoso avô. Deixou saudade: carro econômico, macio, confortável e bem construído (mais que alguns Fords atuais). O modelo fez tanto sucesso que praticamente pagou as contas da fábrica do Taboão sozinho, desde o projeto Willys/Renault lançado em 1968 até o último Del Rey em 1991 ou a Pampa em 1996: um carro de dinâmica sofrível, mas perfeitamente adequado à realidade de sua época.

Mesmo movido a álcool, como quase todo automóvel da década de 1980, suas partidas eram instantâneas — a Ford foi a primeira a acertar nesse quesito na era de ouro do combustível vegetal. Como não havia correia dentada de acionamento do comando de válvulas para trocar, rodávamos despreocupados sem manutenção alguma: quando o encostamos na oficina de um amigo para uma reforma, descobrimos que as trizetas do câmbio não tinham mais roletes. Chegou lá com uma forcinha do Criador.

Outro carro raro nos encontros é a Quantum, aquela “Parati de Itu” que a Volkswagen fabricou de 1985 a 2001: ressalvado o túnel da transmissão, possui uma estrutura quase tão forte quanto a do Corcel e uma mecânica igualmente simples, dessas que qualquer mecânico desmonta e monta de olhos fechados com muito gosto. Espaçosas, confortáveis e relativamente econômicas, as peruas já vinham prontas para o trabalho: as barras de teto sempre foram equipamento de série, bastando montar as hastes transversais.

 

O Corcel fez tanto sucesso que praticamente
pagou as contas da fábrica sozinho,
do projeto Willys/Renault ao último Del Rey

 

Derivada do Santana, ela se distinguia do sedã por uma falha de projeto: o frágil revestimento interno do porta-malas, que deteriorava ano após ano até se desintegrar por completo. O resultando em uma cacofonia de grilos e plásticos quebrados de dar inveja a qualquer escola de samba — muitos proprietários livraram-se de suas Quantuns por preços módicos, quase agradecendo ao comprador.

Atualmente sou o feliz proprietário de uma Quantum 1996, na família desde 1999: é carro de uso diário e não bibelô, de tal forma que todos olham incrédulos para o estado impecável do porta-malas, em especial a tampa sanfonada, diferencial do modelo. Quantum hoje só é encontrada em dois estados opostos: perfeita e imaculada ou completamente avariada por meses (sim, bastam poucos meses) de trabalho prestado a pintores, marceneiros, serralheiros, etc.

São apenas exemplos comuns de carros “para bater”, ou seja, destinados ao uso profissional diário. Além desses, também há os que somem na inatividade para serem resgatados anos depois. É o caso dos que se desmantelam logo ou acabam inviabilizados pelo valor exorbitante de suas peças de reposição: o limbo provocado pela perda de status repentina costuma dizimar vários automóveis de primeira linha, mas este é assunto para outra coluna.

Aproveitando o gancho, desejo a todos os leitores um Feliz Natal e um 2015 repleto de realizações: que todos vocês comecem o ano com o pé pregado no assoalho, impulsionados por um V8 com 7,0 litros de cilindrada (ou mais) acelerando rapidamente com destino certo a todos os seus sonhos e realizações pendentes. E muito obrigado a todos vocês por mais um ano de audiência.

Coluna anterior