Por que os jovens de hoje não querem mais carros

Por que os jovens de hoje não querem mais carros

A indústria do automóvel não sabe mais como conquistar uma
juventude que se interessa apenas por eletrônicos

 

A juventude é um período sensacional, sobretudo quanto à construção e consolidação de vínculos com marcas, hábitos de vida e consumo que influenciarão diretamente as escolhas ao longo da vida. Também é uma época deprimente do ponto de vista financeiro, já que apenas uma minoria dos jovens até 25 anos de idade conquistou plena independência financeira — coisa que só obterão, em média, quando estiverem batendo nos 40 anos. Na prática, significa que produtos e serviços voltados aos jovens no início de suas “vidas úteis”, em geral, não podem ser caros demais. Carros, por exemplo.

O que tem intrigado nos últimos tempos é a incapacidade da indústria em manter o carro como um objeto de desejo dos jovens. Mudou a sociedade, mudaram as pessoas, os meios de comunicação, a internet revolucionou os hábitos de consumo, o engajamento social dominou o padrão de pensamento desta geração e, junto do gás carbônico, o carro virou vilão. Pergunte você mesmo a um jovem de 17, 18 anos de idade, qual é seu sonho atual de consumo — é enorme a probabilidade de que ele responda com o nome de uma bugiganga eletrônica qualquer, como um tablet,  um smartphone  ou um videogame de última geração. Pouquíssimos dirão “o carro X”.

 

A máquina da publicidade formava novas legiões de apaixonados, sobretudo por versões esportivas de forte apelo emocional

 

Quando fiz meus 18 anos, amanheci na porta da autoescola para acelerar o máximo possível a retirada da minha habilitação. Mal podia esperar para pôr as mãos em um carro — emprestado, claro, pois meu primeiro só comprei com 23 anos, bem usado, barato e financiado. Significou muito: a realização do meu mais tenro sonho.

Ao longo de gerações o automóvel foi fomentado como um símbolo de liberdade juvenil — ritual de passagem, até. A máquina da publicidade trabalhava a favor de formar novas legiões de apaixonados, junto das turmas do marketing e da engenharia, que criavam versões esportivas de visual atraente e forte apelo emocional. Dodges, Volkswagens, Chevrolets, Fords… a molecada sonhava com os esportivos feitos por essas e outras marcas. Quase ninguém podia comprá-los na juventude, salvo aqueles playboys  que toda turma sempre tinha.

Mas o objetivo não era vendê-los: as marcas entendiam em qual ritmo batiam os corações da juventude e tratava de hipnotizá-los com a promessa da velocidade, da adrenalina e da liberdade. Na loja, acabavam por comprar coisas mais baratas (e lentas) como Chevettes, Fuscas e Gols. Ou, na melhor hipótese, um Escort que ganharia aos poucos aerofólio, rodas de alumínio e faróis de milha para parecer um XR3.

 

 

Estorvo, não prazer

A juventude de hoje não é mais assim. Estão interessados em outras coisas, alinhadas aos valores da sociedade de hoje. Como as cidades estão apinhadas de carros por todos os lados, como fruto de políticas públicas de transporte erradas, ter carro deixou de ser um prazer e virou um grande e caríssimo estorvo. Para quem duvida sobre o “caríssimo”, recomendo cotar o seguro de um carro para motorista de 18 ou 20 anos, por mais simples que seja o automóvel.

Os jovens do século XXI são mudos e antissociais, mas teclam pelos cotovelos nas redes sociais. Culpam o carro por ter deteriorado a qualidade de vida da sociedade. Engajam-se contra a poluição atmosférica dos motores a combustão, da queima de combustíveis fósseis, e põe-se a andar em bicicletas. No entanto, trocam de celular a cada seis meses, descartando o anterior e expondo a natureza não apenas ao carbono, mas aos metais pesados dos circuitos eletrônicos. Vai entender.

 

Os jovens de hoje culpam o carro por ter deteriorado a qualidade de vida da sociedade, mas descartam o celular a cada seis meses

 

Ainda assim, a indústria não se renovou e continua a oferecer as mesmas soluções aos jovens. A combinação de baixo investimento em novos produtos com a habitual dureza de quem ainda ganha pouco, em seu primeiro emprego, reserva a essa faixa de público opções restritas e defasadas de carro. Em regra, os modelos mais baratos da tabela — supostamente destinados à juventude que busca seu primeiro carro — são aqueles jurássicos carros à beira do penhasco da história, como o finado Mille, agora o velho Palio, Clio, Celta e o também finado Gol G4. Ou versões aqui e ali de carrinhos tolamente adesivados, como se isso fosse torna-lo mais, digamos, jovial.

Parece que o novo Volkswagen Up traz uma lufada de ar fresco nessa história em terras nacionais, mas conceitualmente nada traz de novo. Se a indústria estivesse mesmo preocupada com sua perenidade, criaria novas formas de usar o automóvel, aproximando-o da juventude de hoje, focando a racionalidade, a conectividade, a preocupação com o uso de recursos. E de forma mais ousada, mais rápida — não só em carros-conceito que raramente saem dos salões.

Isso precisa ser feito de imediato, sob pena de a próxima geração ser completamente antiautomóvel, o que seria um desastre àqueles que sabem que o carro tem uma magia como poucas invenções na história tiveram.

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