Comunidades: a diferença entre possuir e pertencer

Comunidades: a diferença entre possuir e pertencer

Como nossos mais primitivos hábitos sociais influenciam
os critérios de compra de um automóvel, jipe ou motocicleta

 

Você acorda, veste sua roupa, toma seu café, dá um beijo na esposa, pega o carro e passa o dia no trabalho até voltar à noite. É a rotina do que denominamos de homem contemporâneo. Não vá achando que a vida do homem do tempo da pedra lascada era lá muito diferente: salvo que não havia carros, muito do que trazemos hoje vem daquele tempo.

Não somos uma espécie que apareceu do nada — somos frutos de uma evolução paulatina, de algumas centenas de milhares de anos, e estão gravadas em nossos genes todas as experiências de sucesso e insucesso. Por mais modernos que sejamos, temos arraigados no âmago da consciência alguns “programas” que nos caracterizam como espécie, que fazem de nós, os humanos, assim diferenciados. Graças a esses comportamentos pré-programados, inovadores entre as demais espécies, viramos os reis do planeta.

 

A Troller pode ser fruto de trabalho duro, empreendedorismo, mas não é racional gastar quase R$ 100 mil em um veículo como o jipe T4

 

Um desses “programas” pode ser descrito como o mais importante de todos: a sociabilidade. Viver em grupos, fazer alianças, criar vínculos. Esses vínculos nos salvaram de todo tipo de desgraça natural, além de trazer uma saudável competição entre grupos que, inevitavelmente, impulsiona o desenvolvimento. Tecnicamente, são as chamadas comunidades.

Antes que perguntem qual é a relação entre antropologia e carros, convido os leitores a debatermos alguns comportamentos de exceção na vasta e criativa selva que é nosso mercado automotor. Seguindo a lógica, habitual seria a compra de um veículo por seu custo-benefício — o que oferece em espaço, conforto, tecnologia, até mesmo status e orgulho, e a que preço. Mas o que poderia explicar tamanho sacrifício financeiro em um veículo que, na pior hipótese, é ruim e, na melhor, tem concorrentes similares por um preço bem menor?

É até motivo de orgulho que a Troller seja uma marca genuinamente nacional. Fruto de trabalho duro, empreendedorismo. Tamanho sucesso do pequeno construtor de jipes em Horizonte, no Ceará, despertou o interesse da norte-americana Ford, que a adquiriu há sete anos. Contudo, não creio ser exatamente racional gastar quase R$ 100 mil em um veículo com as características do jipe T4.

 

 

Como título de sócio

Pouco entendo da prática do fora de estrada, mas não é necessário procurar muito para concluir que há ofertas bem mais tentadoras no mercado, de veículos tão robustos e valentes quanto o Troller e mais eficientes, confortáveis, talvez mais bem resolvidos tecnicamente.

Andando em um T4 no banco do passageiro, não consegui perceber tanta diferença no comportamento dinâmico e no conforto para um Toyota Bandeirante, apesar do frescor do ar-condicionado. A suspensão é desconfortável, os ruídos e vibrações do motor a diesel invadem o interior e tudo parece improvisado e despojado demais para um veículo de seu preço. Quem simpatiza com lama de verdade vai ligar para isso? Deveria: sempre há motivo para discutirmos quanto se investe e o quanto o produto devolve.

 

As motos Harley-Davidson são caras, barulhentas, vibram uma enormidade, mas em seus passeios os donos vivenciam o que chamam de “liberdade”

 

No entanto, formou-se ao redor da Troller uma autêntica comunidade, um clube, onde o T4 tornou-se espécie de “passaporte”, um título de sócio — e isso não é precificável, não tem valor definido. A Copa Troller, evento mesclado com campeonato fora de estrada direcionado aos proprietários, é o maior ativo dessa marca. Lá eles se encontram, levam suas famílias e amigos e vivenciam os valores da marca, junto do prazer dos vínculos emocionais e da segurança que traz o fato de se pertencer a uma comunidade.

As motos Harley-Davidson são o mais lendário exemplo disso. Jamais foram exemplos de tecnologia, são caras, barulhentas, vibram uma enormidade e, em muitos modelos, a dureza da suspensão torna a vida do garupa um inferno. Nem pense em levar sua namorada para um passeio, portanto. E quem disse que os amantes se importam?

A marca organiza passeios entre centenas, milhares de membros da comunidade, que saem com suas ruidosas motocas cruzando estradas e vivenciando o que chamam de “liberdade”. Como no caso do Troller, o conforto e a relação custo-benefício do produto ficam em segundo plano — o que importa é se sentir integrado a um grupo. Claro, não é para qualquer um. Um conhecido, que comprara uma H-D a fim de ingressar no seleto grupo, não suportou o desconforto da motocicleta e desfez-se da sua em pouco tempo.

As estratégias de marketing exploram com maestria os comportamentos primitivos da sociabilização humana. O estilo gregário, a “segurança” das comunidades, a vaidade e o orgulho do pertencimento a um grupo, a sintonia de identidades. A humanidade evolui, mas ao mesmo tempo permanece fortemente conectada ao remoto passado. Ganhar dinheiro com isso é uma das especialidades dessas marcas.

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