Antes de “morrer”, o que outros velhos carros pediriam

Antes de “morrer”, o que outros velhos carros pediriam

A Kombi despede-se com testamento. E se outros longevos modelos,
alguns prestes a deixar o mercado, também pudessem redigir o seu?

 

A legião de fãs chora o falecimento da Kombi. Nem bem a carcaça esfriou e a Volkswagen já vende lenços. A estratégia é muito, muito boa. Pelas vias normais a marca alemã deveria ter sua imagem arranhada — afinal de contas, tira de linha um veículo projetado no período mesozoico da indústria automobilística e que só deixou de ser fabricado porque assim quis a lei, mediante normas de segurança.

A equipe do marketing, no calor da discussão, resolveu estrear uma campanha emotiva — excelente, por sinal — que convida os fãs e relatarem suas histórias com o moribundo furgão. Esquecem-se os motivos, lembram-se apenas os bons momentos, e o que fica é só o amor.

Sejamos justos: ela merece morrer com uma imagem de heroína, não de bruxa. O resultado foi a publicação de um divertido “testamento”, de redação primorosa, no qual a velha senhora deixa seus “bens” para os fãs cuidadosamente selecionados entre aqueles que enviaram as melhores histórias. Deixo aqui registrado meu elogio formal à VW: há muito tempo não lia uma peça publicitária tão exata e, ao mesmo tempo, tão poética.

 

“Ao Fassbender, alemão que fez a plástica desastrosa que detonou minha cara, peço que deem meu pôster do Alfa Romeo 4C”, pede o veterano Mille

 

Inspirei-me, então, a pensar em testamentos para outros veículos que estão em vias de concluir sua missão no mundo do automóvel: aqueles mais velhos, que já deram o que tinham que dar, e outros que podem até ser considerados jovens pelos padrões nacionais e, assim, talvez resistam mais uns bons anos. O que eles deixariam registrado em seus testamentos? De quem eles guardam amores ou rancores? Em frente ao juízo, o que esses ilustres candidatos a finados teriam deixado de espólio em seus momentos finais?

“Na plena faculdade de seu exercício mental, o veículo tal deixa registrado seus seguintes desígnios post-mortem”…

• Chevrolet Corsa/Classic – “Deixo registrado para a posteridade que a família brasileira precisa de mais carros como eu fui em meus últimos anos de vida: barato, honesto, longevo, de bom porta-malas e fácil crediário. Morro com a certeza de que meus órgãos — digo, peças —, que já foram herdados de projetos passados de sucesso, ainda possam ressuscitar em novos projetos por mais 10 ou 20 anos. Gostaria que meu legado fosse dividido da seguinte maneira: meus irmãos Agile e Celta ficam com minha plataforma até 2033. Meu motor 1,0-litro deixo, intacto, para todos os carros Chevrolet das próximas gerações.”

• Fiat Uno/Mille – “Devo minha vida ao Giorgetto, irmão italiano, que deve apreciar bons charutos e fará bom uso daquele sensacional cinzeiro que deslizava de um lado a outro do painel. Ao Fassbender, alemão que fez a plástica desastrosa que detonou minha cara, peço que deem meu pôster do Alfa Romeo 4C, para que ele aprenda de uma vez por todas que la punta della penna deve essere un cuore italiano.  Se puderem colocar um conta-giros na derradeira versão, aquela que vai ao museu de Turim… Na cerimônia de homenagem ao fim de linha, citem minha deferência ao 147, que cedeu sua brasileiríssima suspensão traseira. Não esqueçam que morro antigo, mas em forma: não há carro hoje com tão pouco peso. Ah: e que fui o primeiro turbo… e que estreei o limpador único de para-brisa… e que reinventei essa história de motor 1,0-litro… e…”

 

 

• Ford Ka – “Ao pessoal do marketing, deixo minhas duas portas. Elas são a única prova de que nasci para ser descolado, fashion,  mas vocês me transformaram à força num carro familiar. À turma do estilo, deixo meu lindo reloginho de painel, da época em que ainda tinha identidade com a vanguarda. À engenharia, deixo apenas uma frase: eu era muito mais gostoso antes da plástica.”

• Peugeot 206/207 – “Percebi que meu encanto morrera quando um engraçadinho me comparou à Elza Soares, depois da malsucedida plástica de 2008, quando tentei ficar parecido com meu primo rico da ala francesa da família. Logo eu, que outrora desfilava elegante com meu modelito cupê-conversível… A esse palhaço, digo que os felinos têm sete vidas. Concordo que, das sete disponíveis, duas foram desperdiçadas: uma picape e uma perua que quase ninguém comprou. O sedã ainda banca o gostoso, pois o brasileiro é chegado em uma boa traseira. A meus antigos proprietários, da fase de juventude, minhas eternas desculpas por lhes ter trazido tantos aborrecimentos. Jovem é assim mesmo…”

 

“Deixo meu motor longitudinal e meu volante enviesado como recordações ao utópico rapaz que disse que o Polo deveria me substituir”, lembra o Gol

 

• Renault Clio – “Esse carro que aqui jaz não me representa. Sou infinitamente superior. Nasci em um berço muito mais rico — fui o primeiro compacto a ter bolsas infláveis frontais de série, aqueles itens de segurança que hoje nem como opcional ofereço. Deixo claro que fui contra todos os rebaixamentos a que fui submetido, mas de nada adiantou me debater com os solavancos de minha alavanca de câmbio. Depenado feito um coq au vin,  vi minha dignidade desaparecer na última plástica, com os cirurgiões insistindo em fazer o Gérard Depardieu se parecer com a Carla Bruni. Morro sem nenhum patrimônio, sem nada a deixar, já que o pouco que tinha foi eliminado na última reestilização.”

• Volkswagen Gol de segunda geração – “Não tenho do que reclamar, já que ganhei todos os prêmios que um carro em vida pode ganhar. Liderei o mercado por anos e anos, seguindo a carreira de meu irmão de traços retilíneos nascido em 1980. Atendi a gerações e gerações de motoristas de frota. Humilhei a juventude do Corsa de 2002, do C3 de 2003, que insistiam em dizer que eu estava ficando velho. Compareci ao enterro dos dois. Deixo meu motor longitudinal e meu volante enviesado como recordações ao utópico e sonhador rapaz da área de planejamento, que disse na reunião que o Polo deveria me substituir a médio prazo… Ele ainda é jovem, um dia vai aprender como são as coisas por aqui. Tenho apenas um desejo, espartano como fui por toda a vida: que minha última unidade produzida tenha, ao menos, a fiação para meu fiel comprador instalar um rádio e tentar encobrir os ruídos de meu motor”.

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