Salão de São Paulo: a culpa não é só do Anhembi

Quando o maior evento do automóvel perde seu encanto,
uma renovação da proposta pode torná-lo atrativo outra vez

 

A primeira vez em que tive condições e dinheiro para ir ao Salão do Automóvel de São Paulo foi em 1994. Naquele ano a indústria nacional estava em franco otimismo, com as expectativas do Plano Real e da estabilização econômica, aliadas a mais um daqueles ciclos governamentais de estímulo aos fabricantes. Marcas chegando, ampliação de fábricas, lançamento de novos modelos. A estrela absoluta daquele evento era a aguardada nova geração do Gol, que debutava após longos 14 anos do estilo habitual e surpreendia os visitantes com suas linhas então modernas, arredondadas, dentro do estilo vigente na década.

Estava tão ansioso para pôr as mãos no novo Gol que, quando entrei, nem notei o volante e os pedais enviesados, o curso da alavanca de câmbio inclinado — que denunciava o motor longitudinal e a continuidade daquela defasada plataforma de uma década e meia de idade —, a baixa qualidade dos materiais plásticos que riscavam só de serem olhados. Aliás, só fui saber desses detalhes muitos anos depois. O Salão do Automóvel não é para ser ofuscado com irrelevâncias que atrapalhem o brilho das estrelas.

Os leitores — em maioria do sexo masculino — se identificarão com aquela empolgação, típica de quem ama automóveis e visita o evento pela primeira vez. Tanto foi que não saíram da minha mente até hoje aqueles carros, aquelas luzes, os belos estandes — e as lindas modelos, claro. O Gol geração 2, o incrível Corsa e sua subversão ao status de carro retilíneo (o cheirinho da tapeçaria do Corsa GSi ficou eternizado na lembrança), o ousado Fiat Coupe, a perua Tempra SW com seu painel espetacular — fiquei dentro dela dez minutos, pelo menos. E o que falar de Dodge Viper e Audi Avus? Que supercarros!

 

Como o Salão fecha cedo, às 22 horas, fica quase impossível fazer render o pouco tempo entre a saída do trabalho e o fim da festa

 

Então a vida vai correndo seu curso habitual. Na segunda ou terceira vez em que fui, já me irritaram os altos preços dos ingressos e do estacionamento, o traslado complicado até o Anhembi — parece que a cidade inteira resolve ir para o mesmo lugar ao mesmo tempo —, o calor do pavilhão, a ameaça da chuva no fim do dia.

Peguei uma desconfortável fila na bilheteria. Depois de deixar algumas dezenas de reais no guichê, logo na entrada fui alvejado na cara com uma lufada de vento borrifado com água — obra daquela genial invenção que tenta, sem sucesso, disfarçar a falta do ar-condicionado. Meus óculos ficaram com a mesma visibilidade do para-brisa cronicamente embaçado de um Brasília 1979 que meu pai teve.

Não conseguia entrar em paz no pavilhão sem que promotores viessem explicar o que eu já sabia, entulhar minha mão de folhetos não solicitados, e o pior: querer cobrar por coisas que, dado o valor da entrada, deveriam ser gratuitas, como um mapa de localização. Esbarrei meu ombro em um sem-número de visitantes, metidos pelos estreitos corredores. Como não quis pagar pelo mapa nem pelo guia oficial, não pude planejar um roteiro suficientemente rápido.

Como o Salão fecha cedo — às 22h —, fica quase impossível fazer render o pouco tempo entre a saída do trabalho, com todo o tempo perdido no deslocamento que os paulistanos bem conhecem, e o fim da festa. Contentei-me com isso, porque ir aos fins de semana é tão inteligente quando passar o réveillon no Boqueirão. Mas não foi só.

 

 

Experiência memorável

wafer de chocolate, meu petisco preferido do Salão, inflacionou-se a um valor ultrajante. Água, esqueça. Pegue uma fila imensa pelo jato murcho e morno daquele bebedouro defronte ao banheiro ou humilhe-se por um copo geladinho e prateado no espaço VIP de algum fabricante, fingindo ser alguém interessado em comprar um bólido. Caso contrário, mate a sede na saliva.

Saliva, aliás, que não é tão rara — ao menos as lindas modelos são mesmo de babar. O único problema é que de uns tempos para cá decidiram fazer daquelas beldades de boca fechada verdadeiros folhetos de carne e osso, obrigando-as a decorarem termos técnicos e características dos carros em exposição.

Resultado: você encara uma multidão de marmanjos na sua frente para chegar perto daquele carrão que é seu sonho de consumo e, quando finalmente consegue entrar nele e usar seu momento (muito bem pago) de intimidade solitária para apertar todos os botões, tatear o volante, pisar nos pedais para testar o punta-tacco e mexer no câmbio até quase encavalar uma marcha, tem uma mulher ultramaquiada plantada a seu lado, constrangendo-o e falando obviedades do tipo “sabia que esse carro muda as marchas sozinho?”, enquanto o fita com aquele olhar intimidador de quem acha que está lhe ensinando algo sobre carros e dizendo “já deu o seu tempo”.

 

É preciso tornar a visita digna de ser repetida. Gostaria de apreciar de perto os supercarros, sem precisar olhá-los por cima da multidão

 

Por isso não voltei mais lá — a não ser a trabalho, contribuindo na cobertura do Best Cars. Nem sei se a culpa é apenas do apertado e mal refrigerado Anhembi, como dizem. Um novo pavilhão com mais conforto, espaço e estrutura sem dúvida diminuiria a sensação de que o ingresso é caro demais para o que se obtém. Mas um pouco mais de sensibilidade em escutar o público e tentar entender como a experiência pode ser aprimorada também ajudaria.

É preciso tornar a visita ao Salão memorável, digna de ser repetida a cada dois anos. Em particular, eu gostaria de apreciar mais de perto os supercarros que não se veem nas ruas — Ferraris, Porsches, Lamborghinis — sem precisar olhá-los de longe, por cima da multidão. Gostaria de ter horários mais flexíveis, já que São Paulo não permite deslocamentos rápidos nos horários disponíveis. Enfim, o leitor certamente tem outras sugestões a fazer.

Em uma era onde grandes eventos como esse podem ser totalmente vistos do conforto do lar ou em um intervalo de trabalho, por meio de reportagens e vídeos pela internet, os organizadores têm pela frente o desafio de inovar a cada edição, trazendo melhorias e novas e inusitadas experiências aos visitantes. Abordagens criativas poderiam tirar um pouco da poeira de mais de meio século da atual fórmula e, de quebra, compensar melhor os visitantes pelo desconforto e as filas que têm de enfrentar.

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