Mercado: as espertezas para o carro valer mais

Editorial

Achou um carro “de vóvó”, “completo” e com preço cheio de noves? Cuidado com as manobras de quem tenta valorizar o que vende

 

Quando se trata de comprar e vender, o objetivo da maioria é ganhar o máximo possível. No caso do mercado de automóveis, essa mania leva a estratégias curiosas ou mesmo desonestas, percebidas tanto nos anúncios de lojas e particulares quanto no linguajar de vendedores, com o objetivo de fazer o carro à venda parecer melhor do que é ou de depreciar o modelo que você lhe oferece. Vamos a algumas delas.

Seminovo: como já abordei em um Editorial de 2013, o termo tornou-se comum para designar carros usados mais recentes ou com menor distância rodada. Mas não existem limites definidos entre o dito “seminovo” e o que chamam de “usado”, o que deixa margem para o vendedor interpretar como preferir. Seu carro de quatro anos de fabricação pode ser apenas um “usado” na troca por outro de três anos, o “seminovo”… que se tornará “usado” tão logo você o traga de volta para vender, mesmo tendo dado só uma volta no quarteirão.

 

Alguns tratam como se o 2014/2015 devesse valer menos do que prevê a cotação de mercado para o modelo 2015, o que não procede

 

Como pode ser completo, se falta praticamente tudo?
Como pode ser completo, se falta praticamente tudo?

Completo: faz sentido definir-se assim o carro que tem todos os opcionais oferecidos na versão, embora muitas versões hoje sejam vendidas em pacote fechado, sem mais opções. O problema é que o mercado convencionou chamar de “completo” qualquer automóvel com os equipamentos mais desejados, como o famoso conjunto “ar, direção e trio” (ar-condicionado, direção assistida e controle elétrico de vidros, travas e retrovisores). Diante de tudo que se pode ter nos carros atuais, isso está muito longe de ser completo… Ainda piores são ressalvas como “completo menos ar”.

Série especial: os fabricantes com frequência lançam edições limitadas para celebrar eventos e aniversários, montar parcerias com outras marcas ou ainda desovar equipamentos e estimular vendas em baixa. Não há nada de errado com elas no momento da revenda: muitas oferecem vantagens efetivas, como um acessório que em regra só seria encontrado em versão superior. A cotação do mercado de usados posiciona tais edições em seu devido lugar, dentro da linha de versões, mas alguns lojistas mal-intencionados as veem como motivo para desvalorizar o carro que lhes é oferecido.

Cheio de noves: essa praga está por toda parte, da prateleira dos supermercados aos preços sugeridos dos carros. Quanto mais números 9 se usam no valor, mais se tenta iludir o comprador, pois muitos leem “R$ 29,90” e não enxergam os R$ 30 que o produto, na verdade, custa. No Best Cars combatemos essa prática ao converter, por exemplo, R$ 59.990 em R$ 60 mil nos textos, informando o valor exato apenas em tabelas (observe que a palavra “mil”, em vez de três zeros, deixa implícito que pode ter havido arredondamento).

 

 

Duplo ano: em um automóvel com poucos anos de uso, até pode fazer algum sentido informar tanto o ano de fabricação quanto o ano-modelo. O carro 2015/2015, por exemplo, tem produção um pouco mais recente que o 2014/2015, embora a diferença possa se resumir a poucos dias, como de 31/12/14 para 2/1/15. Esse sentido perde-se por inteiro com o passar do tempo, mas vez ou outra ainda se vê anunciado um “2011/2011”: que diferença faria, depois de cinco anos, se fosse fabricado em 2010?

Esse item é, muitas vezes, usado como argumento para depreciar seu carro colocado à venda ou em troca, como se o 2014/2015 devesse valer menos do que prevê a cotação de mercado para o 2015. Não procede: esse exemplar inclui as eventuais alterações efetuadas pelo fabricante para tal ano-modelo e a cotação não distingue por ano de fabricação. Além disso, o 2014/2015 tem a vantagem de recolher IPVA um pouco menor que o 2015/2015, pois o cálculo do imposto considera o valor venal pelo ano de fabricação.

 

O vendedor não considera que a adorável velhinha, por dirigir só até o supermercado, submetia o motor à contaminação do óleo lubrificante

 

Cores: é fato conhecido que carros das cores “da moda”, como o prata na década de 2000 e o branco hoje, encontram comprador com mais facilidade. Esse argumento tende a ser usado a favor do vendedor, tanto para valorizar o carro que ele oferece quanto para depreciar o seu caso não seja das “boas cores”. Comerciantes astutos, porém, tendem a colocar defeito em qualquer cor — “branco suja muito”, “preto arranha fácil” — se isso puder aumentar seus lucros na troca. Cuidado.

Nem todo carro velho é uma raridade à espera da placa preta
Nem todo carro velho é uma raridade à espera da placa preta

Carro de vovó: parece que alguns ainda se seduzem com a ideia de um automóvel dirigido com moderação, sem altas rotações ou exigências em curvas, como se só mulheres, médicos ou vovós pudessem cuidar bem de um carro. Claro que o vendedor não considera que a adorável velhinha, por dirigir só até o supermercado duas vezes por mês, submetia o motor a um uso severo com o óleo lubrificante abaixo da temperatura normal de trabalho, sujeito a contaminação e diluição.

Só recarregar o gás: atenção com imperfeições que parecem fáceis de resolver, mas podem trazer grande prejuízo. Às vezes uma luz-piloto no painel permanece acesa, indicando problemas na injeção ou nos freios antitravamento (ABS), e o vendedor alega que basta “passar o scanner” para resolver. Tal processo limpa o registro de falha e pode apagar a luz, mas ela voltará a acender se houver um problema não resolvido — o que lhe dará trabalho depois de concretizado o negócio.

Da mesma forma, há quem garanta que o ar-condicionado “só precisa de uma carga de gás”: se fosse assim tão simples, por que já não teria sido feito? Na certa, o sistema apresenta vazamentos e requer manutenção bem mais dispendiosa do que o vendedor quer sugerir. Atenção ainda com motores recém-retificados como motivo de valorização: pode ser que o serviço tenha sido malfeito e o dono, em vez de mandar abri-lo outra vez, prefira passar a bomba adiante.

Para colecionador: que vendedor de um carro de mais idade não gostaria de ter nas mãos uma raridade, um automóvel em perfeito estado, digno de receber a placa de licença preta? Infelizmente isso vale para uma minoria, mas é tentador chamar de “raridade” ou “para colecionador” um simples carro velho, todo descaracterizado em relação ao conteúdo original e com muita manutenção a fazer.

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