Histórias e tradições em torno das cores do automóvel

Editorial

Por que o Ford T era preto, os esportivos alemães prateados e os Ferraris vermelhos? São curiosidades sobre os tons que pintam os carros

 

O que você leva em conta na hora de escolher a cor de seu próximo carro? Pelo que vemos nas ruas, o fator modismo parece ser o mais decisivo — a maioria compra a cor que a maioria tem comprado, caso do branco de alguns anos para cá, do prata durante a década passada ou do vinho nos anos 90. Mas nem sempre foi assim, e o tema tem curiosidades que merecem ser relembradas.

Há 40, 50 anos era comum que os automóveis fossem pintados nos chamados tons pastel, como azul, verde e bege claros, além do branco. O preto não era frequente, salvo em modelos sofisticados (era muito visto nos norte-americanos Lincoln e Cadillac) e, claro, no Ford Modelo T. Por ser a tinta de secagem mais rápida, ideal para sua linha de produção, a preta em certo momento foi determinada como cor única por Henry Ford para esse carro, o que levou seus críticos à conhecida ironia: “Você pode ter seu Ford de qualquer cor, desde que seja preto”.

 

O Mercedes excedia em 1 kg o limite para competir: a solução foi remover toda a tinta da carroceria, deixando-a com o tom do alumínio

 

Para carros esportivos cada país teve sua tradição, iniciada nas décadas de 1920 e 1930 com as corridas de Grande Prêmio, categoria antecessora da Fórmula 1. Já ouviu falar em Flechas de Prata?

Auto Union e Mercedes usaram o prata em carros de corrida nos anos 30
Auto Union e Mercedes usaram o prata em carros de corrida nos anos 30

Os Silberpfeil, como se chamavam no idioma local, eram os potentes carros alemães da Auto Union (grupo formado por Audi, DKW, Horch e Wanderer) e da Mercedes-Benz que disputavam tais corridas e firmavam recordes de velocidade em rodovias. Sempre prateados, estabeleceram um prestígio para essa cor que explica seu uso frequente nos Audis, BMW e Mercedes de alto desempenho até hoje.

Segundo a biografia de Alfred Neubauer, gerente de competições da Mercedes na época, a ideia do carro prateado não foi intencional: surgiu quando o modelo W25 foi pesado para uma prova em 1934. Com 751 kg, ele excedia em 1 kg o limite estabelecido para a classe. A solução encontrada foi remover toda a tinta da carroceria, deixando-a com o tom natural do alumínio à mostra — e deu certo. A vitória do carro pilotado por Manfred von Brauchitsch teria originado a expressão “flecha de prata”.

Outros países adotaram diferentes tons e padrões para os Grandes Prêmios: verde para a Inglaterra (o clássico British Racing Green, verde britânico de corridas), azul para a França (o Bleu de France), vermelho para a Itália (o Rosso Corsa), amarelo para a Bélgica, branco com círculo vermelho (como na bandeira) para o Japão. Os Estados Unidos usaram o vermelho no começo do século, para mais tarde seguir o padrão de branco com faixas longitudinais azuis ou o contrário. Embora abandonados nas pistas de maneira geral, esses tons permanecem muito associados a tais países nos esportivos de rua.

 

 

Saia e blusa

No Brasil os tons pastel predominaram no começo da indústria (décadas de 1950 e 1960), embora houvesse variadas cores à disposição, do verde escuro comum no Jeep a vinhos e vermelhos. Um recurso frequente na época era a pintura do teto em branco, caso da linha DKW-Vemag, o que fazia todo o sentido: em um país tropical, o teto claro absorvia menos calor dos raios solares e ajudava a manter o conforto quando nem os carros mais luxuosos tinham ar-condicionado — surgiria em 1967 no Willys Itamaraty. Na contramão do bom-senso, meio século depois muitos aplicariam revestimento plástico preto ao teto de seus carros em uma suposta imitação do teto solar panorâmico.

Na versão Especial da primeira Kombi, a pintura em dois tons, comum na época
Na versão Especial da primeira Kombi, a pintura em dois tons, comum na época

Outra solução que teve seu sucesso era a pintura em duas cores dividida na linha de cintura (por volta da altura das maçanetas das portas), conhecida como “saia e blusa”. Era comum na Kombi em versão de luxo, mas também em automóveis, em geral com o tom mais claro na parte superior. A General Motors tentou reeditar a ideia no fim nos anos 80 no Monza e no Opala, mas encontrou poucos apreciadores. A Ford, em 1994, comemorou seus 75 anos de Brasil com uma edição do Escort XR3 Conversível em preto com para-choques e laterais inferiores em tom de champanhe.

O preto fosco também teve sua grande fase nos anos 70 em aplicação parcial, como em capôs, faixas laterais e no painel entre as lanternas traseiras. Era uma maneira simples para o fabricante sugerir esportividade em versões de Chevrolet Chevette e Opala, Ford Corcel e outros que de esportivos tinham muito pouco. Mais tarde, em 1986, a Fiat adotava a tampa traseira preta como padrão no Uno 1.5R, ideia que a Volkswagen reeditaria com o Up TSI em 2015.

 

De tempos em tempos surgem tons ousados para chamar atenção, como no caso clássico do Voyage Los Angeles “azul de tampa de panela”

 

O advento das pinturas metálicas, que se tornaram populares na década de 1980, trouxe algumas mudanças. Por um lado surgiram novos tons e efeitos diferenciados, que valorizaram cores como prata, cinza, dourado, vinho e azul-marinho. Por outro, essa pintura mostrou-se mais resistente às intempéries que a convencional (sólida). É interessante notar que o preto sempre usou pintura sólida, assim como branco e o tom básico de vermelho: só de 10 ou 15 anos para cá se tornaram comuns os pretos e brancos perolizados.

De tempos em tempos alguns fabricantes lançam cores e tons ousados, muitas vezes como estratégia para chamar atenção a um modelo, versão ou série especial. Há o caso clássico do VW Voyage Los Angeles, de 1984, em um azul tão chamativo que ganhou o apelido de “tampa de panela” — e poucas unidades da edição sobreviveram sem uma repintura em tom mais discreto. Nos anos 90, carros como Chevrolet Corsa, Fiat Palio e Ford Fiesta ganharam opções de verde, roxo e laranja que se destacavam nas ruas, mesmo que não tenham alcançado vendas significativas.

O amarelo ganhou força na década de 2000, tanto nos esportivos da Fiat (Palio, Stilo, Bravo) quanto em modelos de “aventuras” como o Ford Ecosport 4WD e o VW Crossfox. Já era muito visto em carros de alto desempenho nas revistas estrangeiras, mas essa tendência só parece ter chegado com intensidade ao Brasil anos depois com o Chevrolet Camaro… Outro recente entre nós é o laranja, espécie de cor oficial da VW Saveiro Cross. E há pouco se notou um ressurgimento do verde e do marrom, relacionados à natureza, em picapes e utilitários esporte.

O branco é um caso curioso: foi forte como segunda cor dos compradores por muito tempo, mas começou a sofrer rejeição nos anos 90 depois que cidades como São Paulo o adotaram como padrão nos táxis. Na década passada o carro branco foi exceção, até que a tendência internacional chegou ao País com modelos importados, que o tornaram novamente desejado. Hoje, o branco está massificado a ponto de cansar alguns como fez o prata.

Para quem vai comprar um carro, além da óbvia questão de gosto, alguns fatores podem ser considerados na escolha da cor. Um deles, claro, é a preferência do mercado: se para você qualquer uma serve, seguir a corrente — optar por branco, prata ou preto, ainda as mais aceitas — pode ajudar a encontrar um comprador com mais facilidade no momento da venda. Mas há também questões práticas.

Como sabiam os alemães que definiram o teto branco para o DKW, tons claros colaboram para menor aquecimento da carroceria, que acaba por influir na temperatura interna. Em teste realizado nos anos 80 pela revista Quatro Rodas com dois Monzas, após certo tempo de exposição ao sol o interior do carro preto estava cerca de 10°C mais quente que o do modelo branco.

A pintura preta, que para muitos tem classe e elegância, é também das mais trabalhosas: poeira e sujeira aparecem com facilidade (há quem diga que já parece empoeirada antes de se terminar a secagem), assim como riscos, e o tom se queima bastante com a exposição ao sol, sobretudo no caso de pintura sólida. O vermelho sólido sofre desse mesmo mal. No outro extremo, o carro branco deixa evidentes as manchas, como a da sujeira espalhada pela chuva ou ao passar por resíduos de asfalto na via.

Tons de cinza e prata parecem um meio-termo ideal nessas questões, mas têm uma desvantagem: os pigmentos usados na pintura são trabalhosos de ser reproduzidos caso seja preciso repintar uma parte. Não é raro verem-se carros prata com para-choques — ou até uma porta ou para-lama — em tom diferente do restante, evidenciando a repintura. Mesmo assim, é uma das cores favoritas do pessoal de Estilo dos fabricantes, pois destaca as curvas, sombras e nuances do desenho da carroceria. O branco simplesmente “achata” tudo, enquanto tons escuros dificultam visualizar os detalhes.

Editorial anterior