Práticas ao volante: o que fazer e o que não fazer

Editorial

Ponto-morto nas descidas, desligar nas paradas, aliviar o pedal de freio: quais os melhores procedimentos

 

Só conheci nessa vida dois tipos de motoristas: os que acham que dirigem bem e os que têm certeza. O problema é que muitos — não importa se são de um tipo ou de outro — estão equivocados e, não raro, colocam em prática conceitos incorretos sobre o que se deve fazer ou deixar de fazer ao volante de um automóvel.

Nos 18 anos do Best Cars nós, colunistas (que apenas achamos que dirigimos bem…), trouxemos inúmeras dicas de como dirigir melhor, seja do ponto de vista da segurança, seja do aspecto da preservação do carro. Mas alguns conceitos se perdem com o tempo e merecem ser relembrados, o que pretendo fazer neste Editorial.

  • Para dirigir com economia, piso pouco ou muito no acelerador?

Depende. Para manter velocidade constante, pise o mínimo possível. Contudo, ao precisar de mais potência — para ir mais rápido ou superar um aclive —, abrir mais o acelerador é uma forma mais econômica do que reduzir uma marcha, como vimos em recente artigo técnico sobre motores. Da mesma forma, trocar para a próxima marcha em menor rotação favorece a economia, mesmo que se precise de mais pedal durante a aceleração. Isso só não vale para: 1) motores turbo; 2) motores a dois tempos; e 3) no uso de 100% do curso de acelerador nos outros motores, que o interpretam como emergência e enriquecem a mistura ar-combustível.

 

A atuação do ABS pode produzir vibração no pedal, mas mantenha a força para frear em menor espaço

 

  • Devo usar a transmissão para ajudar nas frenagens?

Manter uma marcha baixa engatada em declives longos e acentuados, como certas serras, é boa medida para poupar os freios e afastar o risco de sua perda de ação por superaquecimento. Mas não exagere: reduzir marchas a ponto de levar o motor a alta rotação nas entradas de curva, por exemplo, impõe desgastes ao motor e à embreagem que não se justificam em seu carro de rua. Lembre-se: freios são elementos de consumo e não compensa causar problemas mecânicos em nome da economia desse material.

  • E colocar em ponto-morto nas descidas, é uma boa ideia?

Descida de serraChamada de “banguela” pelos antigos e pelos caminhoneiros, essa prática fazia mais sentido nos antigos carros com carburador. Nos atuais motores com injeção, não existe mais fornecimento de combustível com acelerador fechado, transmissão engatada e rotação acima de um patamar mínimo (em geral, perto de 1.500 rpm). Portanto, entre rodar com o pequeno consumo da marcha-lenta e rodar sem consumo algum, o que você prefere?

Mas não é tão simples: em ponto-morto o carro roda mais livre, sem o efeito de freio-motor obtido com marcha engatada, e por isso se consegue andar mais antes que seja preciso voltar a acelerar. É por isso que alguns fabricantes têm usado roda-livre na transmissão, que desacopla a embreagem quando se deixa de acelerar. Mesmo assim, a vantagem para um método ou outro é muito pequena (veja nosso teste com um VW Golf com roda-livre).

  • Algum problema em deixar a transmissão engatada ao estacionar?

Deixar a caixa engatada pode ser mais seguro em rampas acentuadas ou se o freio de estacionamento não estiver bem ajustado, mas traz o risco de danos à transmissão (manual ou automática) se o carro for empurrado no sentido contrário por outro que estacionar junto a ele — como ao ser forçado para trás com a primeira marcha engatada. Para rampas, em geral há a alternativa de esterçar o volante de modo a apontar o pneu para o meio-fio (sem pressioná-lo), o que evita riscos se o carro começar a rodar.

  • Se o pedal de freio pulsar, devo aliviar a pressão?

Esse é um equivoco frequente em motoristas não habituados ao sistema antitravamento (ABS). Nas frenagens mais intensas ou feitas em piso de baixa aderência, a atuação do sistema de liberar e retomar a força de frenagem de cada roda em frações de segundo produz uma vibração característica no pedal, que alguns interpretam como problema. Não é: se for o caso de frear no menor espaço possível, mantenha toda a força aplicada ao pedal para que o ABS faça sua parte. E não esqueça que pode continuar a esterçar o volante para desviar de um obstáculo, uma das grandes vantagens desse dispositivo.

 

 

  • Vale a pena desligar o motor a cada semáforo fechado?

Não, não vale. Primeiro porque a economia de combustível é mínima: o motor em marcha-lenta raramente chega a consumir dois litros de combustível por hora, o que significaria meio litro poupado em 30 paradas de 30 segundos cada. O problema é que cada nova partida significa uma demanda para o sistema — bateria, motor de partida — que a médio prazo trará despesas.

Fiat Uno EvolutionVários carros hoje trazem parada/partida automática do motor, que o desliga quando se deixa de rodar, mas os componentes envolvidos são redimensionados para a partida frequente. De resto, com motor desligado perde-se tempo em emergências (como ao precisar dar espaço a uma ambulância) e corre-se o risco de uma falha de partida causar grande transtorno ao tráfego. Portanto, desligar o motor, só em paradas mais longas, acima de um minuto.

  • Preciso aquecer o motor antes de começar a rodar?

Esse é o tipo de cuidado que passou de geração em geração, reforçado durante a década de 1980, quando os motores a álcool alimentados com carburador se tornaram maioria. Era raro quem conseguisse ”ligar e sair” com um desses carros. Hoje o funcionamento do motor regulariza-se de imediato e, em relação à durabilidade, as folgas internas são menores e os óleos lubrificantes estão mais finos e eficazes nessa condição. A única recomendação que eu endossaria é rodar normalmente por uns dois minutos antes de explorar plena potência do motor.

 

Faróis de neblina têm alcance reduzido e, por seu corte de facho baixo, podem não iluminar placas

 

  • Se o ar-condicionado funciona melhor com a recirculação ativada, posso deixá-lo assim para sempre?

Não convém. Recircular significa trabalhar apenas com o ar interno da cabine, sem renovação. Após algum tempo (como em uma viagem) isso tende a deixar o ar muito seco, o que favorece problemas de saúde, sobretudo nos mais sensíveis. Melhor usar apenas em tráfego lento, locais com poeira ou fumaça e/ou quando a temperatura externa está alta demais. E abrir a admissão quando o objetivo for desembaçar os vidros em tempo chuvoso.

  • Faróis de neblina são uma boa opção para rodar pela cidade?

Se houver nevoeiro, sim… Na prática, o que muito se vê são motoristas com tais faróis acesos em vez do facho baixo, que é obrigatório do pôr do sol ao amanhecer. O problema é que os faróis de neblina têm alcance reduzido e, sendo projetados para iluminar por baixo do nevoeiro (por isso ficam em posição inferior na maioria dos carros), usam um corte de facho mais baixo. Com isso, podem não iluminar placas de sinalização como as de “pare”.

Quanto à luz traseira de neblina, nem há o que dizer: pelo incômodo que causam a quem vem atrás, devem ficar restritas a neblina e chuva intensa — como todos os motoristas, mesmo os que só acham que dirigem bem, têm obrigação de saber.

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