Trânsito: os sete pecados capitais do motorista

Trânsito: os sete pecados capitais do motorista

Se cada um de nós evitar alguns maus hábitos ao volante, o
convívio nas ruas e estradas será mais seguro e menos estressante

 

Como muitos dos que leem este Editorial,  enfrentei nessas férias algumas horas de estrada. Embora evite locais, dias e horários de pico — experiência aprendida depois de alguns dissabores e muito tempo perdido —, não pude deixar de ficar atrás de carros mal dirigidos, cujos motoristas cometiam uma variedade de atitudes prejudiciais à fluidez do trânsito e ao bem-estar dos demais. Foi de onde surgiu o tema para este texto.

O trânsito, seja urbano ou rodoviário, é um complexo que exige a cooperação de todos para funcionar de forma harmoniosa. Um motorista fora do padrão — rodando devagar demais ou forçando ritmo excessivo — já começa a causar problemas; se forem vários nessa condição, pior. Entre os muitos erros que se podem cometer ao volante, alguns parecem mais comuns ou relevantes pelo efeito que causam àquele complexo, razão pela qual foram relacionados como os “sete pecados capitais” do motorista.

 

Na Alemanha roda-se a mais de 200 km/h com segurança: a velocidade inadequada, essa sim, é grande causadora de acidentes

 

1) Rodar devagar demais. A legislação brasileira estabelece como velocidade mínima a metade do limite máximo da via, ou seja, 40 km/h em uma via de 80 ou 60 km/h em uma rodovia de 120. Na prática, para não prejudicar o ritmo do tráfego, o motorista deve seguir a velocidade do fluxo de veículos, sobretudo em vias com uma só faixa de rolamento. Como exemplo, em uma rodovia de 80 km/h com pista única, rodar a 60 já pode ser devagar demais: forma-se uma fila de carros atrás, prejudica-se a fluidez, estimulam-se ultrapassagens em local não apropriado.

2) Rodar rápido demais. Não é no Best Cars que você lerá uma crítica gratuita à velocidade, tão atacada como a grande vilã dos acidentes por órgãos de imprensa, autoridades e polícias. Na Alemanha roda-se a mais de 200 km/h nas Autobahnen e o tráfego de lá é um dos mais seguros do mundo. Isso não significa que você deva sair acelerando tudo por aí: a velocidade inadequada,  essa sim, é uma grande causadora de acidentes. Mesmo que o limite da via permita andar mais rápido — como ao se deparar com veículos lentos —, evite superar o ritmo de velocidade do fluxo em mais de 20%, para dar tempo à reação dos demais motoristas.

3) “Comprar” a faixa da esquerda. Outro dia viajei com um amigo que insistia em se manter à esquerda na Rodovia Carvalho Pinto, com duas ou três faixas de rolamento (conforme o trecho) e tráfego leve de maneira geral. Para que mudasse para a direita, usando a esquerda só para eventual ultrapassagem, foi preciso insistir com ele — que alegava dirigir assim todos os dias na Via Dutra, com seu volume de caminhões. Não importa: se puder, mantenha a direita sempre. Se precisar permanecer à esquerda por causa do tráfego lento, não descuide dos retrovisores e procure dar passagem a quem vier mais rápido. É o que mandam a lei e o bom-senso.

 

 

4) Usar o celular ao volante. Sim, sei que é permitido no Brasil desde que haja um dispositivo viva-voz, hoje tão comum. Mas cada um deve fazer sua autocrítica quanto à capacidade de manter a concentração necessária ao volante quando conversa ao telefone — e, a meu ver, grande parte dos motoristas fica longe do razoável nessa capacidade. O resultado está pelas ruas: carros lentos demais, ziguezagueando, enquanto seus condutores falam ao celular, seguram o aparelho ou, pior, escrevem mensagens de texto, de e-mail ou nas redes sociais.

5) Mau uso de luzes. Faróis de neblina, como o nome diz, devem ser usados sob nevoeiro. Fora dessa condição, são aceitáveis como substitutos das luzes diurnas que alguns modelos hoje trazem, para sinalizar a aproximação do carro durante o dia — e só. Usá-los à noite, como se fossem o facho baixo, significa iluminar mal o caminho e deixar as placas de sinalização às escuras, por causa do corte de facho muito baixo. Pior é quem liga a luz traseira de neblina em condições normais de visibilidade: potente como uma luz de freio, ela causa desconforto a quem vem atrás.

 

Faça sua autocrítica quanto a manter a concentração quando conversa ao telefone: grande parte dos motoristas fica longe dessa capacidade

 

6) Dificultar passagem. Não é só “comprando a esquerda” que se atrapalha a fluidez do trânsito e se desrespeita o direito de outros motoristas. É também impedindo sua passagem quando é justa, como no caso de estreitamento de pista em rodovia. Embora a preferência seja a da faixa que será mantida, o ideal para o tráfego fluir é o princípio do zíper, muito usado em países avançados como a Alemanha — alternam-se veículos de cada faixa, um por vez. Se muitos motoristas impedem a entrada de quem vem da pista a ser fechada, os resultados são retenção desnecessária do fluxo de trânsito e risco de acidentes.

7) Desperdiçar espaço ao estacionar. Seja em vaga paralela ao trânsito, como na maioria das ruas, ou perpendicular a ele, como em geral nos centros de compras, estacionar deve tomar apenas o espaço necessário para seu carro e a manobra de saída ou, no segundo caso, a abertura das portas. Parece óbvio, mas se vê muito carro estacionado com folga exagerada à frente e atrás, enviesado em vaga perpendicular ou até tomando duas vagas, em um desperdício do espaço tão precioso, hoje, em nossas vias. Cuide disso e contribua para que mais pessoais possam estacionar. Qualquer hora dessas, é você quem precisará daqueles centímetros bem aproveitados.

A lista de “pecados” certamente poderia ir além. Há pequenos deslizes que concorrem para o prejuízo ao trânsito, como há infrações muito graves e tão óbvias que nem precisam ser relacionadas aqui — seria necessário recomendar a alguém que não use o acostamento para superar um congestionamento? Mas tenho certeza de que, quanto mais evitarmos os sete erros acima (e isso inclui conscientizar as pessoas de nosso convívio, para o que o compartilhamento deste artigo pode ajudar), mais fluido, mais seguro e menos estressante será o trânsito para todos nós.

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