O reino, as carroças e os dispositivos de segurança

O reino, as carroças e os dispositivos de segurança

Pressionado ou com receio da inflação descontrolada, o poder real
voltou atrás no que estava decidido — mas os súditos deram sua resposta

 

O antigo reino no qual se passa nossa história é conhecido de quem acompanha há algum tempo o Best Cars. Falamos dele em setembro de 2011, lembrando o empenho de seus súditos em reverter a decisão real de aumentar os tributos sobre carruagens importadas para favorecer os construtores locais. O que nos levou a voltar até lá foi descobrir que, apesar do bem-sucedido desfecho daquela história, outros fatos vieram, anos depois, colocar em dúvida a seriedade com que o reino era conduzido por seus governantes.

Aquele era um reino onde grupos específicos faziam certas coisas acontecerem. Se os lucros não alcançavam os pretendidos pelos empresários, movimentava-se o mercado com reduções irrisórias nos tributos, que continuavam entre os mais pesados do mundo. Se andava baixa a demanda por farelo, porque seu alto custo fazia os donos de cavalos flexíveis alimentá-los apenas com capim — como antes do advento do Flex Food —, bastava os produtores de grãos fazerem pressão para que a rainha ordenasse a mistura de farelo ao capim fornecido aos animais.

As carroças vendidas ali eram obrigadas a circular com um cilindro vermelho, substituído de tempos em tempos, que ninguém mais lembrava para que servia, mas rendia uma boa multa para quem saísse às ruas sem ele. Era algo sem similar no mundo. Os antigos contavam que alguém influente devia ter convencido um antigo rei da necessidade de carregarem aquilo — e assim ficou por décadas. Anos atrás, tentaram exigir também uma caixinha com tesoura e esparadrapo, mas a ideia foi abandonada… depois que todos os condutores compraram as suas, claro.

Novas regras a favor dos súditos não duravam muito tempo. Certo dia, o poder real anunciou que o capim vendido aos donos de cavalos passaria a ser aditivado com nutrientes de forma obrigatória — até então existiam o capim comum e o aditivado, mas o primeiro era preferido por muitos donos por custar alguns centavos a menos. Só que o tempo passou e não se definiu quem faria a adição de nutrientes: a distribuidora real Capimbrás ou os revendedores. O jeito foi adiar a medida e deixar os animais com o capim comum.

 

Em outros reinos, nenhum construtor ousaria oferecer carroças sem tais dispositivos, sob risco de vê-las encalhadas nas estrebarias de revenda

 

Na maior cidade do reino, com milhões de carruagens, o prefeito havia criado corredores pelas principais vias para circulação exclusiva de grandes carroças, que levavam 20 pessoas sentadas e outras 40 de pé, penduradas sobre os para-lamas ou como pudessem. A medida tornou um inferno a circulação das carruagens particulares, causando imensos congestionamentos. A conclusão oficial foi, ainda assim, positiva: as carroças coletivas agora se arrastavam a 8 km/h em vez de 5 km/h.

Mas havia problemas mais graves no trânsito do reino: seus índices de mortes em acidentes estavam entre os mais altos do mundo. Concorriam para isso diversos fatores, da péssima instrução pelos CFCCs (Centros de Formação de Condutores de Carroças) à ineficácia da fiscalização.

Cavaleiros mensageiros, por exemplo, passavam a alta velocidade entre as carruagens paradas. Quando não viam passagem livre, esbravejavam e machucavam as orelhas dos cavalos alheios. Alguns condutores de carroças tinham maus hábitos como manter o veículo na faixa da esquerda, sem dar passagem a quem viesse mais rápido; circular à noite com as lamparinas apagadas ou mesmo acender potentes lamparinas vermelhas na traseira em noites de céu claro, e azar de quem viesse atrás.

Nada disso sofria punição pelas autoridades, satisfeitas com o tilintar das moedas que os condutores depositavam nos cofres reais sempre que flagrados acima do limite de velocidade de 20 km/h.

Os compradores de carroças, contudo, andavam felizes com algumas perspectivas. Por meio do programa Inovar-Carroça, os construtores deveriam reduzir o consumo de capim ou farelo dos cavalos em 23% dentro dos próximos cinco anos, sob pena de ter os escorchantes tributos ainda mais elevados. Os proprietários mal esperavam para aproveitar tamanha economia na alimentação dos animais!

 

 

Cinco anos são pouco

Havia mais motivos para a confiança em um futuro melhor. Anos atrás, ainda na gestão do antigo rei, determinou-se que as carroças passariam a ser equipadas com dois dispositivos de segurança: almofadas na parte dianteira da cabine, para amenizar os impactos dos passageiros em caso de acidente, e um aparato conhecido pela sigla em inglês AABS — Advanced Animal Brake System, sistema avançado de freio animal —, que era aplicado às ferraduras dos cavalos e lhes permitia reduzir velocidade de maneira mais segura em pisos de baixa aderência.

Outros reinos já usavam ambos os dispositivos havia 20 anos. Alguns os exigiam por lei; em outros, a exigência dos compradores era tal que nenhum construtor ousaria oferecer carroças sem eles, sob risco de vê-las encalhadas nas estrebarias de revenda.

Em nosso reino, porém, as almofadas e o AABS eram artigos de luxo. Os mais ricos compravam carruagens com almofadas na frente, nas laterais, nas janelas, até no teto. Havia um órgão independente que testava os veículos, empurrando-os contra muretas, e sua conclusão era severa: sem as almofadas, os ocupantes tinham muito maior risco de morte. Mas aos compradores de carroças mais simples restava apenas aguardar que os itens se tornassem obrigatórios.

Foi uma longa espera. Os construtores alegaram ao rei que os dispositivos seriam muito onerosos e poderiam afetar as vendas — nesse caso, como sempre, demitiriam empregados. Ao ouvir essa ameaça, o rei cedeu de imediato à pressão. Embora bastasse um ano para a adequação, deu cinco aos construtores, tempo mais que suficiente para que lucrassem à exaustão com as velhas e inseguras carroças. Até o fim desse período, vários modelos nem mesmo ofereciam os itens de segurança como opcionais. Até, por ironia, a carroça de uma marca de origem francesa que anos atrás se anunciara pioneira no uso das almofadas em modelos de baixo custo.

Dos produtos inseguros, o mais emblemático era uma carroça utilitária com cabine que lembrava um pão de fôrma, vendida pela Carruagem do Povo. A empresa colocava o cavalo atrás da cabine, criando mais espaço para os ocupantes e a carga. Parecia uma ideia genial, mas em caso de acidente era o condutor, e não o animal, que sofria todo o impacto. O ultrapassado veículo, projetado havia 65 anos por um carroceiro holandês, ainda encontrava grande aceitação naquele reino — apesar do alto preço, que embutia uma margem de lucro estratosférica.

 

Uma edição limitada foi oferecida a preço similar ao de carruagens importadas de luxo — talvez a mais lucrativa carroça de toda a história do reino!

 

Os cinco anos se passaram e, de repente, estava prestes a ser encerrada a construção de tal carroça, sem condições de receber os dispositivos. Uma edição limitada foi oferecida, com cabine pintada em duas cores, a preço similar ao de carruagens importadas com quatro cavalos e interior de luxo — talvez a mais lucrativa carroça de toda a história do reino! Mesmo assim, até compradores de reinos distantes se interessaram, uma vez que nunca mais haveria à venda aquele veículo no qual seus avós passeavam quando crianças.

Só que alguns não estavam satisfeitos. Empregados da Carruagem do Povo, reunidos em um sindicato, foram até a rainha pleitear a garantia de seus empregos — apesar do enorme prazo, a empresa ainda não lhes previa recolocação. Houve rumores de que alguns construtores também fizeram pressão no castelo real para afrouxar as regras de segurança.

A rainha então concedeu mais dois anos até que as almofadas frontais e o AABS se tornassem obrigatórios em todas as carruagens. A explicação real era de que os construtores tiveram pouco tempo para se adequar — o que são cinco anos? — e acabariam demitindo. A verdadeira razão talvez fosse outra: o receio de que uma alta de preço das carroças trouxesse impacto à inflação, que já saía do controle dos governantes. De resto, se os veículos mais caros acarretassem queda de vendas, seria afetada a fabulosa arrecadação de tributos do reino, que acabara de bater novo recorde histórico.

Segurança dos súditos? Respeito ao investimento de quem se preparara às novas normas? Ora, quem se importava com isso?

Os construtores de velhas carruagens comemoraram. A Carruagem do Povo anunciou que a carroça ao estilo pão de fôrma seria mantida à venda; uma nova e derradeira edição limitada seria lançada dali a dois anos. Um construtor de origem italiana continuou a vender a Milloça, modelo inseguro, mas bem-aceito pelo baixo consumo de capim. A Carruagens Gerais, conhecida pela obsolescência de suas carroças, chegou a estudar o retorno da Chevettoça de 40 anos atrás para aproveitar o relaxamento das normas. Outra marca, a Toyoça, anunciou que traria da Índia mais um “avançado” projeto, entusiasmada com a aceitação dos súditos a carroças tão superadas e mal-acabadas que não encontrariam comprador em qualquer parte do planeta.

O que salvou nosso reino de tamanho retrocesso foi, mais uma vez, a união dos súditos em prol do bem comum. Organizados, eles deixaram de comprar as carroças que não oferecessem segurança, o que levou os construtores a rever suas posições e instalar o AABS e as almofadas em todos os veículos. Bem antes que o exagerado prazo concedido pela rainha expirasse, 100% das carruagens vendidas no reino já traziam os dispositivos — e os aumentos de preço, contidos pela pressão do público, mal passaram de 2%.

As vendas então retomaram o antigo patamar e, com todos os lados satisfeitos, nosso reino seguiu em plena felicidade… pelo menos até o próximo sobressalto!

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