Best Cars, 16 anos: quando não se encontra, faz-se um

Best Cars, 16 anos: quando não se encontra, faz-se um

Como Ferry Porsche com os carros, o jovem jornalista viu na
internet o espaço para criar uma revista completa e mais dinâmica

 

“No começo eu procurei, mas não pude encontrar o carro com o qual sonhava. Assim, decidi fazê-lo eu mesmo.”

A frase de Ferdinand Anton Ernst Porsche ou “Ferry” Porsche (1909-1998), que projetou o carro esporte 356 da mitológica marca alemã, está à vista em inglês e alemão na entrada da ala temática da Porsche na Autostadt, a interessantíssima “cidade do automóvel” mantida pelo grupo Volkswagen em sua cidade-sede, Wolfsburg, na Alemanha. Mas não é de carros esporte que vou escrever hoje: a conclusão a que Ferry chegou em relação aos automóveis é, de certa forma, a mesma a que um jornalista do setor chegou há 16 anos quanto às publicações dedicadas a esse assunto.

A internet ainda engatinhava em 1997, quando o UOL — então Universo Online — tinha apenas um ano, o Google nem havia sido fundado e o número de internautas no Brasil mal passava de um milhão. Revistas de automóveis eram apenas isso, revistas de papel, com raros conteúdos publicados na rede. Embora nem pudéssemos imaginar toda a gama de funções que a internet viria a assumir, alguns já acreditavam fortemente naquela nova mídia e investiam em sua consolidação.

 

Decidiu abrir sua própria publicação, aproveitando as facilidades da nova mídia digital — instantânea, ilimitada, fácil de armazenar e consultar

 

Naquele ano, em 22 de outubro, era inaugurado no (já extinto) servidor Geocities o Best Cars Web Site, produzido por um jovem jornalista de 22 anos, apaixonado pelos carros desde a infância e colaborador da revista Autoesporte desde o ano anterior. Como Ferry Porsche com os automóveis, o jovem estava insatisfeito com o que havia disponível no Brasil para a formação e a informação dos entusiastas por veículos.

As revistas saíam uma só vez por mês, com conteúdos muitas vezes frios demais; faltava-lhes interação com o leitor, que recebia a notícia quase que em via de mão única; e a consulta aos conteúdos anteriores representava um desafio à paciência — das esposas, inclusive, diante do crescente espaço ocupado por tanto “papel velho”. Jornais com cadernos especializados eram melhores no primeiro quesito, mas tão ruins quanto elas nos outros dois, se não piores. Com um agravante: visavam a um público generalista, o que inibia os jornalistas de se aprofundarem na informação e abordarem conteúdos técnicos, fatores que já não eram o forte da maioria das revistas.

Foi por tudo isso que o jornalista decidiu abrir sua própria publicação, aproveitando as facilidades da nova mídia digital — instantânea, ilimitada em espaço, fácil de “armazenar” e de consultar depois e, dali a alguns anos, extremamente acessível de onde quer que se estivesse. Não havia mais restrições de volume para os textos e as fotos nem para a comunicação com o leitor, que afinal se tornava uma via expressa de mão dupla.

 

 

E o pequeno cresceu

Para aquele jovem, a independência editorial representou uma grande conquista. Agora podia abordar o assunto que desejasse — muitos deles no Editorial, a mais importante seção em qualquer mídia, cuja periodicidade quinzenal foi mantida com rigor desde o início — com tanta profundidade quanto quisesse. As informações técnicas e curiosidades que os aficionados pelo assunto sempre procuravam, mas raramente podiam encontrar nas mídias tradicionais, agora tinham seu lugar, sempre escritas em linguagem acessível ao leigo e, não menos importante, com respeito ao idioma. De “carangas socadas”, afinal, o mercado editorial já estava cheio.

Era possível a ele também contestar o que julgasse incorreto no mercado e na atitude de governos e empresas. É fato que essa liberdade de expressão traria alguns inconvenientes, como retaliações ao site (nunca admitidas, mas às vezes evidentes) por parte de fabricantes que prefeririam ter lido mais elogios e menos críticas.

O importante é que o público leitor — pequeno de início, mas em crescimento exponencial — recebeu bem a novidade, que logo ganhou novos serviços: avaliações e comparativos, consultoria técnica, a Eleição dos Melhores Carros. Chegaram colaboradores para seções as mais diversas, da preparação de motores às colunas, passando pelos automóveis antigos, assunto sobre o qual o site se tornou uma referência mundial em seu idioma.

 

Em 1999 o site firmava uma duradoura parceria com o UOL, dois anos antes que surgisse o próprio canal Carros do portal

 

Parte dos serviços surgiu de questionamentos do próprio jornalista sobre as escassas opções do consumidor brasileiro para se informar na escolha de seu próximo carro. Como saber o que pensam as pessoas que usam aqueles automóveis? Por que não reunir, em um espaço ilimitado e gratuito, opiniões de proprietários de todos os modelos do mercado? Só a internet permitiria que tal pesquisa fosse continuamente ampliada e que pudesse ser consultada com facilidade sem se precisar carregar um enorme volume. Assim nascia o Teste do Leitor, ainda hoje uma seção de grande êxito no site.

A pequena revista deixou de ser o trabalho de um só jovem para se tornar uma publicação respeitada por fabricantes e importadores, que a convidavam para conhecer seus lançamentos e avaliar seus modelos. Em apenas um ano e meio o site firmava uma duradoura parceria com o UOL, dois anos antes que surgisse o próprio canal Carros do portal.

O que aconteceu desde então, como se diz, é história — em grande parte acompanhada por muitos de vocês que agora leem este Editorial em comemoração aos 16 anos do Best Cars. Um momento no qual lhes devo agradecer o prestígio e a confiança que depositam em nosso trabalho, seja aguardando mais algumas horas para ler a avaliação de um novo carro, seja nos apoiando quando encontramos a resistência de fabricantes, seja usando nosso julgamento como referência para escolher seu próximo automóvel.

Agradeço também à atual equipe — Edilson, Edison, Iran, José Geraldo, Kleber, Luiz Fernando, Paulo, Tite —, assim como aos inúmeros colaboradores e colunistas que já passaram por ela, por sua dedicação em fazer um conteúdo de qualidade com a paixão por automóvel que compartilhamos com os leitores.

Um brinde ao Best Cars, esse garotão de 16 anos que concilia a vitalidade dos jovens à experiência dos que estão há muito tempo nessa estrada. E que venham os próximos 16 anos!

 

P.S.: Alguns devem notado a falta da 16ª. Eleição dos Melhores Carros nesta edição de aniversário. Preferimos adiá-la em duas semanas para poder aprimorá-la com alterações sugeridas pelos leitores. Na próxima edição, prometo, você poderá escolher seus modelos preferidos.

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