Depois do atentado, como fica o tanque do meu carro?

Nas bolsas, o petróleo subiu, desceu, enquanto o dólar caía e subia nervoso: como a brusca variação do ouro negro nos afeta?

 

Dia 3 de janeiro de 2020, acordamos todos com a notícia de que um general iraniano tinha sido morto por ordem de Donald Trump. Seria a guerra? Nas bolsas, o petróleo subiu, desceu, enquanto o dólar caía e subia em movimentos nervosos, até desvairados. Seria para tanto? Será que essa brusca variação do petróleo nos afeta com igual brusquidão?

Naturalmente, a indústria de automóveis é a mais afetada pelas variações do ouro negro, visto que seu funcionamento imediato depende diretamente do preços dos combustíveis Para alguns países, como o Brasil, o petróleo tem uma importância sui generis, visto que é dele que vem a maior parte dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas — de cuja importação, inclusive do Irã, dependemos tanto.

 

Um frigorífico não precisa equalizar os coprodutos porque um boi já vem equalizado, mas o petróleo não é assim — por isso, os produtores importam e exportam

 

Há poucas coisas mais difíceis em Economia Comparada do que classificar países quanto à dependência da importação de petróleo. É que todos os países produtores importam e exportam petróleo, a fim de equalizar o peso do óleo a ser refinado em suas plantas locais. Isso ocorre porque as refinarias permitem pouca variação da proporção de coprodutos. Uma refinaria de petróleo não passa de uma indústria de desmanche, mais ou menos como um frigorífico em que o animal entre andando e saia aos pedaços.

O Brasil exporta petróleo pesado e importa o leve; os preços são diferentes e contratados a longo prazo

Mal comparando, um frigorífico não precisa equalizar os coprodutos porque um boi já vem equalizado — dois filés mignon, dois contrafilés, dois coxões duros, dois coxões moles e daí por diante. É fato que os pesos individuais podem mudar, mas isso não é problema porque cada um dos cortes é vendido por peso, homogeneizando no varejo.

O petróleo não é assim. O da Nigéria, por exemplo, é tão leve que é quase gasolina, enquanto o da Venezuela é extremamente asfáltico. É justamente por isso que o peso do petróleo é medido de acordo com a facilidade de evaporação e fluidez, sendo a API (American Petroleum Institute) Gravit uma medida arbitrária aceita pelo mundo todo. O petróleo brasileiro, em média, é API 60, variando de campo para campo, de poço para poço. A densidade prevista durante a construção de nossas refinarias gira em torno de API 40. Assim, nós exportamos petróleo pesado e importamos leve.

Apesar de todo o sigilo que envolve a atividade, estima-se que nossas refinarias usem 60 tipos diferentes de óleo cru. Há até uma equipe de matemáticos e geólogos trabalhando em tempo integral na gestão dessa mistura. Os preços são diferentes e contratados a longo prazo, não são os negociados no mercado spot (pontual). É justamente por isso que, em termos geopolíticos, é tão importante manter maximizado o refino interno, pois somente dessa forma é possível garantir o fornecimento de todos os coprodutos. Sem o refino, é preciso importar derivados com uma relação de troca (número de barris exportados para importar um barril de material refinado) geralmente desfavorável.

 

 

Boicote pode afetar o abastecimento

Além disso, em caso de boicote econômico, mesmo que disfarçado, o país pode não conseguir comprar o coproduto mais necessário, ora parando a frota de veículos, ora parando a aviação, ora parando setores da indústria. É por isso que todos os países produtores de petróleo investem em refino para uso interno, mesmo que a produção de petróleo seja muitas vezes superior, ou inferior, como no caso dos países do Oriente Médio — exceto Síria, Iraque de antes da guerra e o Irã, que não é árabe. É que esses países desenvolveram uma indústria significativa.

O Irã tem, como segunda maior atividade econômica, uma muito cobiçada indústria de automóveis de 1,4 milhões de veículos ao ano, com possibilidade, sem boicote, de alcançar os 2,4 milhões para atender seus 70 milhões de habitantes. Seus principais fabricantes são Iran Khodro, Saipa Yadak, PSA e Renault. Por causa disso, lá, de uma produção estimada em 3,8 milhões de barris/dia, refinam-se 2,7 milhões ao dia para uma exportação líquida de 1,04 milhão de barris/dia. Trata-se de exportação líquida porque o país importa algo como 800 mil barris/dia de petróleo pesado, do Brasil e da Venezuela, para equalizar seu refino.

 

O Brasil vem fechando refinarias, em vez de ampliar o investimento nelas, o que tende a manter o descompasso entre a produção e o refino de petróleo

 

Mas não existe um bloqueio comercial? Como se dão essas transações? Mesmo os Estados Unidos, que consomem 19 milhões de barris/dia e importam outros 4 milhões de barris/dia milhões para consumo, exportam 2,1 milhões de barris/dia para importar matéria-prima pesada; caso contrário, não daria manutenção a suas estradas de rodagem. É extremamente provável encontrar petróleo venezuelano ou iraniano, apesar do bloqueio comercial, equalizando refinarias norte-americanas.

Voltando ao Brasil, tomemos o período entre setembro de 2012 e maio de 2016, quando, por falta de refinarias para fazer face ao aumento de produção de petróleo, a Petrobras importava gasolina subsidiando-a. Muitos foram os motivos para esse subsídio. Dois deles merecem destaque: o controle da inflação, devida à subida artificial do dólar em 2012, e o preço desfavorável do álcool carburante, que induzia o consumo de gasolina. Esse descompasso deu sérios prejuízos à Petrobras.

Interessante é que, ao contrário dos ditames da segurança internacional, o Brasil, desde então, vem fechando refinarias em vez de ampliar o investimento nelas. Essa falta não nos obriga, necessariamente, a comprar combustíveis sem contrato de prazo significativo, mas tende a manter o descompasso entre a produção e o refino de petróleo, tal que os preços sejam igualmente descasados. Não há como fugir de um certo subsídio como amortecedor das variações de curto prazo. Ele, no entanto, não há de ser o que mais pesa à Petrobras.

Petróleo é uma commodity cotada em dólares e, como todas, sujeita-se muito mais às variações cambiais do que que às variações de seu mercado. Não nos enganemos: todas as empresas desse ramo fazem contratos futuros, repassando o risco da variação, seja do dólar, seja do petróleo, aos especuladores em troca de um prêmio, tal e qual um seguro, só que negociado em bolsa. Dessa forma, não há motivos para susto em curto prazo e isso não se deve a nenhuma maquinação genial de nossos dirigentes, mas a mecanismos centenários de mercado.

Acho que dá para dormir tranquilo. Amanhã, o tanque de nossos carros poderá ser abastecido até à boca.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars