Best Cars, 23 anos: uma viagem no tempo até 46 anos atrás

Editorial

Como seriam as notícias do site em seu lançamento, se ele acontecesse 23 anos antes de 1997?

Muitos de nós assistimos, na década de 1980 ou mais tarde, a pelo menos um filme da trilogia De Volta para o Futuro (Back to the Future). No primeiro deles, ao acionar sem querer a máquina do tempo instalada por um cientista em um DeLorean DMC-12, o jovem Marty McFly (Michael J. Fox) volta de 1985 para 1955, quando seus pais ainda estavam por se conhecer. No filme seguinte a viagem se inverte e McFly avança para 2015, época de carros voadores que, como hoje sabemos, não se concretizaram.

Ontem, 22 de outubro, o Best Cars completou 23 anos de atividade. Um ano atrás o Editorial fazia uma viagem no tempo, como a do segundo filme da série, imaginando o mercado de automóveis e nossa relação com os carros em 2041, ou seja, 22 anos depois do vigésimo-segundo aniversário. Naquela ocasião um leitor propôs o contrário: voltarmos no tempo o equivalente a duas vezes a idade do site. Gostei da ideia e a registrei para aproveitar no aniversário seguinte — que comemoramos agora.

 

Na Ford há quem defenda redesenhar a Rural: “Os norte-americanos têm apontado para os ‘veículos utilitários esporte’, que seriam perfeitos para o Brasil”

 

Se a Volkswagen insistir na fórmula do Passat, perderá a liderança, prevê um concessionário

Vamos, então, imaginar que um DeLorean nos levou em outra viagem no tempo para conhecer as notícias da primeira edição do Best Cars, não em 22 de outubro de 1997, mas 23 anos antes, em 22 de outubro de 1974 (quando este editor ainda era um protótipo em desenvolvimento materno, mas viagens no tempo são assim mesmo). É claro que você poderia consultar uma revista daquela época, mas esse retorno tem a vantagem de nos apresentar o passado sob a perspectiva de hoje — e, claro, com algum humor.

“Anti-Volks” – Parte da rede de concessionárias da Volkswagen tem protestado contra o lançamento do Passat, considerado um “anti-Volks” por suas soluções técnicas que contrariam o que a marca sempre usou no Brasil. “Não vai dar certo”, explica um porta-voz do movimento. “Motor refrigerado a água ferve, mangueiras rompem-se. Suspensão com molas helicoidais não aguenta nossas estradas. Tração dianteira não serve para a lama. Se a Volkswagen insistir nessa fórmula para seus próximos modelos, nunca mais será líder de vendas”, ele desafia.

Novas peruas – Depois da Chevrolet Caravan, que chega ao mercado neste fim de ano, mais duas peruas devem vir ao Brasil para competir com a Ford Belina: as derivadas do Passat e do Dodge 1800. Embora elas existam na Europa, as fábricas precisarão desenvolver aqui as carrocerias de duas portas, como aconteceu com a Caravan. Como se sabe, o público brasileiro rejeita carros de quatro portas, alegando maior nível de ruído e insegurança para crianças no banco traseiro.

Rural – Na Ford, o próximo projeto de carro familiar pode seguir em outra direção: há quem defenda redesenhar a Rural, a antiga perua herdada com a compra da Willys, para aliar suas características fora de estrada a evoluções em conforto para uso urbano. “O mercado norte-americano tem apontado para os ‘veículos utilitários esporte’ ou SUVs na sigla em inglês. Seria algo perfeito para o Brasil”, empolga-se um executivo da marca. Uma ala da diretoria, porém, entende que não faria sentido trocar a Belina pelos “SUVs” pelas desvantagens em consumo, estabilidade e custo.

 

 

• Ceticismo – A Fiat anuncia que o carro 147, versão local do 127 italiano, deve entrar em produção em dois anos em Betim, MG. O pequeno modelo terá o primeiro motor transversal do País, solução que permitirá espaço interno surpreendente para seu pequeno tamanho. Marcas concorrentes, porém, estão céticas: “O brasileiro gosta de carros grandes. Com essa estratégia a Fiat vai fracassar e pode sair do mercado em poucos anos”, revelou o executivo de uma delas sob condição de anonimato.

• Dois combustíveis – Diante das incertezas sobre o petróleo e dos aumentos da gasolina, o País estuda o uso de álcool da cana-de-açúcar como combustível para os carros. Um dos problemas apontados é a corrosão de componentes como tanque e carburador. Outro é que o álcool pode demorar a estar disponível em todo o Brasil, o que trará o risco de não ter como abastecer em algumas regiões. Um engenheiro sugere que os motores possam usar tanto gasolina quanto álcool. “Seria ideal, mas envolve dificuldades técnicas que talvez nunca sejam superadas”, ele admite.

 

“Não vejo vantagem em um carro que troca sozinho de marcha: só serve para americano preguiçoso”, respondeu um participante à pesquisa sobre caixas automáticas

 

O elétrico Gurgel Itaipu: autonomia, peso e custo das baterias logo serão resolvidos

Elétrico – O engenheiro e fabricante de jipes João Gurgel está otimista com o projeto Itaipu, o primeiro carro elétrico brasileiro, recém-apresentado. Gurgel acredita que em poucos anos as limitações ao uso de eletricidade em carros — peso e custo das baterias, autonomia e tempo de recarga — serão coisa do passado. “O petróleo vai encarecer e logo vai acabar. Daqui a 15 ou 20 anos todos os carros serão elétricos. É um caminho sem volta”, garante um especialista no setor.

Automáticos – Com o lançamento de transmissões automáticas em mais automóveis nos últimos anos, como o Chevrolet Opala e o Dodge Dart, o Best Cars pesquisou a aceitação do público ao sistema. Perguntados se comprariam um carro automático, 82% responderam “de jeito nenhum”. Ao lado de aspectos como consumo de combustível e manutenção, a maioria alega que perderia o prazer de dirigir. Um participante resume: “Não vejo vantagem em um carro que troca sozinho de marcha. É igual direção hidráulica: só serve para americano preguiçoso. No Brasil nunca será bem-aceito”.

Antigos – O Veteran Car Club, associação de donos de carros antigos fundada em 1963 em São Paulo, SP, planeja abrir cinco novos clubes pelo Brasil em 1975. Na última reunião, o presidente da seção paulista discursou: “O movimento está crescendo e as pessoas valorizam mais os automóveis do passado. Imagino um dia em que essas velhas Kombis de trabalho serão compradas a preço de ouro, restauradas e integradas a coleções ao lado de Opalas, Mavericks e Dodges”. A plateia gargalhou diante de um cenário tão improvável.

Editorial anterior