Motor flexível, verdades, mitos e papos furados

De Carro por Aí - Nasser

 

Que combustível usar? Nova mistura de álcool à gasolina é prejudicial? Colunista tenta esclarecer dúvidas frequentes

 

Desde quando o governo forçou os fabricantes de veículos leves a desenvolver os motores ditos genericamente flex — ou flexíveis em combustível —, e mais recentemente quando, sem estudo ou base técnica, autorizou o aumento da mistura do percentual de álcool ao gasálcool para 27%, surgiram instruções, aconselhamentos, dicas e informações sobre estes engenhos quase onívoros. Sua capacidade de consumir qualquer proporção de gasolina e álcool anidro ou álcool hidratado fez surgir um desencontro de informações sobre seu uso.

VW motor EA 211A Coluna lista alguns tentando colaborar e tentativamente sanar dúvidas.

Nova mistura é coisa boa?
Apenas para os usineiros. Seu carro não está preparado para aproveitar os 2 ou 4% a mais em álcool. O motor consome, porém não produz rendimento proporcional.

Quando usar?
Use o gasálcool, ou o álcool hidratado, agora dito etanol, quando você quiser.

Qual usar?
Se você tem preocupação econômica, para encontrar a operação de menor custo, despreze o imutável índice oficial de 30% como diferença de consumo entre um combustível e outro. Combustível alternativo no Brasil não é política para o usuário e, assim, tal número é balela oficial, pois o percentual não é padrão e varia de carro para carro. Para saber, use um tanque cheio com gasálcool, outro com álcool e meça o consumo de cada um, chegando à diferença percentual do seu carro.

A diferença entre os consumos entre cada um dos combustíveis é grande, de 50%, 40%, 25%, 20%, 15%… Dependendo da idade do projeto, ou da atualização do motor. Assim, a verdade para você é a verdade do seu carro. Apenas sabendo a diferença de consumo você terá condições de calcular qual a operação mais econômica.

Gasolina, só aditivada.
Esta é uma verdade econômica. Funcionar, os motores o farão com a mistura derivada de petróleo ou com o combustível vegetal. Mas para o uso de gasolina prefira a aditivada. Ela mantém o sistema de alimentação — coletor, válvulas, guias, etc. — livre de impurezas. A gasolina comum, não aditivada, deixa detritos, resíduos importantes capazes de reduzir o rendimento e aumentar o consumo. Gasálcool, só aditivado.

Estrada.
Opte pelo combustível vegetal. Ele aumenta os resultados em torque e potência, aparecendo melhor nas acelerações, ultrapassagens, subidas e, você sabe, disposição é segurança. Mas cautela. O álcool é muito falsificável, pois sua característica higroscópica — a capacidade de absorver água — permite mistura com água e, ainda assim, fará o motor funcionar, apesar do rendimento cair e o consumo aumentar na medida da falsificação.

Desta maneira, para não virar estatística no rol dos motoristas enganados, prefira os postos grandes, das maiores distribuidoras e, de preferência, exibindo na bomba certificado de inspeção recente. Portam, também, um filtro capaz de indicar, por cor, a pureza do álcool. Um alerta: como o consumo com álcool é maior, você parará mais vezes para abastecer. Considere este dado

 

 

O tanquinho.
O tal de tanquinho de gasolina para partida a frio é um breve contra a tecnologia. Um desrespeito ao consumidor. Finalmente tende a desaparecer pela existência de tecnologias atualizadas, embora não aplicadas a todos os veículos porque as fábricas não querem pagar a mais pelo sistema, diminuindo o lucro unitário na venda do veículo ou repassando ao preço final, por entender que não será bem recebido como acessório.

O injetor de gasolina funciona automaticamente em temperaturas de meio ambiente abaixo de 15 graus centígrados. Entretanto, mesmo não utilizado com frequência, você deve mantê-lo abastecido para não ressecar o sistema. Em sendo gasolina, use a Petrobrás Podium ou equivalente da Shell. Têm vida maior — até seis meses, contra os 60 dias das gasolinas comum e aditivada. A gasolina vencida é mau combustível, com dificuldade para ser queimada, e a falta de cuidado com este adjutório será sentida exatamente na fria manhã, quando você estiver atrasado ou na saída da festa pela madrugada congelante, com um carro recusando-se a funcionar.

Aliás, embora desnecessário, lembro, carro com injeção de combustível não deve ser empurrado para funcionar. Fazê-lo pode danificar o catalisador, peça necessária — e cara. Idem, carro com câmbio automático não pega empurrado, por mais que insistam alguns teóricos em mecânica.

Puro ou misturado?
Misture, dizem algumas pessoas. Ou não, dizem os técnicos. Faça como quiser. O sistema não é refinado ou exigente em paladar. Uma vez sim, outra não, para não desacostumar o sistema, insistem alguns. Conversa boba. A escolha é sua e você pode alternar ao seu agrado, apenas para o sistema ser forçado a identificar e se autorregular para o uso de um e outro. Sistema é igual músculo. Sem uso, estraga.

Gastar um combustível para abastecer com outro?
Cascata, papo furado, conversinha. Os motores são ditos flexíveis exatamente por permitir utilizar qualquer um deles em qualquer proporção de mistura. Não se preocupe, em pouco tempo de funcionamento os sensores do motor identificam as características do líquido a consumir e mudam as regulagens automaticamente.

Use gasolina pois o álcool corrói o motor.
Sem escolha. Ambos corroem a longo prazo e quilometragem.

Motores flex devem usar aditivos.
Depende, para qual finalidade? Se você usar gasolina comum, trocando-a pela aditivada, após 400 ou 500 km de funcionamento os bicos de injeção serão limpos. Na gasolina o único aditivo adequado é para aumentar a octanagem e, consequentemente, o rendimento — mas isto aumenta o custo operacional e, na maioria das vezes, o motor não aproveitará a maior octanagem.

Antigamente os carros eram mais econômicos.
Normalmente a referência está ancorada em tempos quando os motores eram individualizados, queimando apenas gasolina ou apenas álcool. É uma realidade. Desenvolvidos para operar com um ou outro, havia melhor aproveitamento. Para criar um ponto misto de equilíbrio permitindo a capacidade, ambos os extremos perderam para que o meio fosse alcançado, mas o consumo aumentou bastante.

Com disse com ácida sabedoria o engenheiro Sérgio Habib, maior revendedor do país e sócio na implantação da chinesa JAC, motor flex é igual ao pato: anda, voa e nada — mal. Mas esta é a escolha que fizeram para você.

 

Roda a Roda

Ford C-Max 01Arranjo – Ante as baixas vendas do Focus e do monovolume C-Max (foto) no mercado norte-americano, Ford avisou encerrar e transferir sua produção em Detroit, EUA. Não disse para onde, deixando no ar a dúvida sobre ser verdade ou apenas parcela de negociação com o sindicato de metalúrgicos. Se o C-Max for para o México, poderá ser fornecido ao Brasil sem Imposto de Importação.

Continua – Dia 1º. Herbert Diess, ex-BMW, assumiu a presidência mundial da marca Volkswagen e anunciou planos: seguir o projeto de reduzir custos, aumentar margem de lucros, ultrapassar a Toyota, tornando-se líder mundial.

Demanda – Honda iniciou produzir a novidade HR-V na pequena fábrica de Campana, na Argentina, calçando a fabricação nacional em Sumaré, SP.

Bolsa – Uma conquista da administração Marchionne na FCA, separar a Ferrari e vender ações, caminha para viabilizar-se. Companhia prevê nos próximos dias colocar 10% do capital acionário em bolsa. Calcula o valor da Ferrari em US$ 11 bilhões. Ótimo reforço de caixa.

Para sempre – Buscando aumentar vendas nos EUA, sino-sueca Volvo — capital chinês, marca originária da Suécia — faz promoção consistente: as peças de reposição e mão de obra não serão cobradas. Deixa a dúvida: é reconhecimento de qualidade, ou bancará a assistência para conquistar mercado? Brasil fora da promoção.

Imagem – PSA Peugeot Citroën deu passo importante para mostrar-se superando a crise interna: enfatizará a história das marcas e da recente DS, funcionando em seus museus com ações para mostrar sua tradição. Seu presidente, Carlos Tavares, resume: Não existe uma marca forte sem uma história forte.

Reflexo – Tavares, português do sul, deveria repetir isto no Brasil, onde fábricas ou importadoras passam ao largo do assunto. Aqui Fiat junta veículos de sua história, Volkswagen salva carros de engenharia e testes, Mercedes preserva caminhões e ônibus antigos. E só. Museu de fabricante? Nenhum.

Ford Mustang Shelby GT350R 01Tecnologia – Para se harmonizar com o Mustang Shelby GT 350R, o mais potente em cinquenta anos, Ford equipou-o com pioneiras rodas em fibra de carbono. Mais leves, melhoram o trabalho da suspensão. Para isolar o material do calor gerado pelos freios, aplicou revestimento em plasma cerâmico utilizado nos ônibus espaciais.

Pouco – Toyota Etios 2016 limitou atração apenas às versões topo de linha: sistema de áudio e display. Não corrigiu a falta de atração visual nem a errônea distribuição de ventilação no interior, privilegiando o passageiro frontal. Esforços para as mudanças exigidas pelos consumidores estão em curso.

Turbo – Raciocínio corrente na Volkswagen quanto ao surgimento do Up com motor turbo em agosto: apresentar o equipamento como ferramenta de uso agradável e de economia, fugindo da imagem de esportividade e velocidade.

Segurança – Testes pela Latin NCAP, entidade aferidora de segurança dos carros feitos ou vendidos na América Latina, foi aos extremos: deu cinco estrelas, nota máxima, ao Jeep Renegade para segurança dos passageiros dos bancos dianteiros e traseiros. É o mais seguro dos nacionais. Noutro extremo, novo Chery QQ teve zero estrela, mas era a versão sem bolsas infláveis, não disponível no Brasil.

Balança – Enquanto as vendas de carros novos têm caído à média de 20%, a dos usados sobem em número assemelhado. Carros com até três anos de uso são os queridinhos da vez. Ilídio do Santos, presidente da Fenauto, federação setorial, feliz. Deveria buscar facilidades de financiamento com governos. Usados significam serviços e peças — e empregos e impostos.

Compensação – Legisladores de Portugal criaram conta ao contrário: em vez de perder pontos por infrações de trânsito, motoristas podem ganhá-los assistindo aulas sobre o Código de Trânsito e procedimentos, para abatê-los de outras penalidades. Espécie de banco de pontos.

JM FangioFangio – Restos mortais de Juan Manuel Fangio, primeiro pentacampeão mundial de automobilismo, serão exumados após 20 anos de sua morte. Há dois candidatos a herdeiro buscando comprovação através de exame de DNA. Fangio nunca se casou ou teve filhos reconhecidos, e seus herdeiros foram os sobrinhos.

Explicação – Diz-se em círculos argentinos, receio dos atuais herdeiros levou-os a vender patrimônio — como o Torino Gran Routier usado pelo penta.

Adicional – Sistema de rastreamento 3T lança assistência técnica 24 horas: guincho, mecânico, chaveiro, borracheiro para automóveis ou motos.

Negócio – Enquanto os aficionados enxergam a Fórmula 1 como disputa esportiva, a bilionária movimentação não passa de atividade comercial bem explorada pela detentora de seus direitos, incluindo transmissão.

Interesse – Empresário norte-americano, Stephen Ross, 75, investidor e dono do time de futebol Miami Dolphins, associado à Quatar Sports, quer comprar 35,5% das cotas da CVC Capital Partners e os 5% detidos por Bernie Ecclestone, 84, mandão da Fórmula 1. Valor da proposta, 6,2 bilhões de Euros.

Gente – José Eduardo Luzzi, engenheiro, presidente da MWM, novo presidente e CEO da Navistar International. Sucede Waldey Sanchez, referência de longevidade no setor. /Armando Rodriguez Borda, executivo da Cummins, motores diesel, promovido. Diretor de fornecimento. Fez bom trabalho de racionalidade e redução de custos ocupando a área de logística nos EUA. / Adriano Silva, engenheiro, promoção: gerente de desenvolvimento da rede assistencial da FPT Industrial. / Cledorvino Belini, presidente da FCA America Latina, homenagem. Presidirá o SIMEA, encontro internacional de engenharia automobilística.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars