Terceirização e a busca pela panaceia

Carro Micro e Macro

Existe espaço para terceirização na indústria automobilística? Quais as consequências econômico-administrativas?

 

Os alquimistas medievais buscaram a panaceia, remédio para todos os males, e a pedra filosofal, que transformava tudo em que tocava em ouro. Nossos alquimistas políticos não fazem outra coisa a nos empurrar panaceias que não passam de placebos. Agora é a terceirização que, na prática, existe desde sempre.

Um exemplo é o método alemão denominado fastplant, em que sistemas inteiros como freios e central de controle são instalados nos automóveis pelos fornecedores. Outro exemplo é o método milk-run, em que os componentes são levados a montadores externos por fornecedores que, por sua vez, montam sistemas e os instalam nos automóveis no correr da linha de montagem. O nome vem de os caminhões irem buscar o leite nas fazendas.

É como as confecções que levam os kits das vestimentas para serem costurados e arrematados em oficinas que, muitas vezes, funcionam em fundo de quintal. Esse processo é muito usado para fabricar estofamentos e outros itens de tapeçaria e acabamento. É comum na China, mas aqui também se encontra com grande frequência. Por causa disso, a folha de pagamentos dos fabricantes não atinge 2% do custo total.

 

É de se supor que os empregados das empresas de terceirização organizem-se em sindicatos, como aconteceu nos Estados Unidos e o levou à desindustrialização

 

Esses arranjos produtivos alastram-se por toda a cadeia de suprimentos. Mas, será que existe espaço para terceirização na indústria em geral e na automobilística em particular? Se há, quais são as consequências econômico-administrativas? A dúvida fica ainda maior quando políticos da situação pedem ao presidente da República que não sancione a lei, há pouco alardeada como panaceia. O que estará por trás disso tudo?

Fabrica Audi
Não há por que esperar ganhos de produtividade da mão de obra pelo simples fato de ser terceirizada

O projeto em votação não permite o que se chamou de “pejotização”, que é a transformação dos empregados em pessoas jurídicas, em especial como microempresas individuais. Isso implica que o espaço será ocupado por empresas fornecedoras de mão de obra, como as que hoje atuam em limpeza, segurança, alimentação, atendimento ao cliente e telemarketing, entre outros. Ora, se o emprego será mantido com todos os seus encargos — mas via intermediários —, por que os custos diminuiriam?

Argumenta-se que a indústria contratante repassa ao intermediário os riscos da relação patrão/empregado, um incentivo ao investimento pela segurança jurídica, que melhora a relação risco/retorno. Ocorre que a contratada vai exigir um prêmio pelo risco assumido e este será sempre maior que a taxa de juros — caso contrário, o empresário deixaria o dinheiro no banco rendendo em vez de se arriscar num negócio incerto, numa comparação que se chama de custo de oportunidade. Assim, o valor pago ao terceiro será a soma dos salários, encargos, custos administrativos e o prêmio.

Passaria, portanto, a haver empresas de montagem de pneus, de colocação de vidros, de pintura, de metalurgia e assim por diante, todas visando lucro. É de se supor que os empregados das empresas de terceirização organizem-se em sindicatos. Então, haverá o dos trabalhadores nas montadoras de pneus, o de colocadores de vidros e assim por diante, multiplicando-se os sindicatos envolvidos. Isso aconteceu nos Estados Unidos e o levou à desindustrialização. Lá uma empresa de automóveis lida com até 14 sindicatos e, se cada um deles promover uma greve, a fábrica inteira para, o que aumenta inexoravelmente o número de interrupções por greves setoriais.

 

 

Produtividade não aumenta

Com a terceirização em curso, mais uma variável será adicionada ao modelo, a negociação entre a empresa e o terceiro, o que também é um risco. É que ele pode promover um locaute (paralisação), escancarado ou disfarçado, como já acontece com as empresas de transporte coletivo perante as prefeituras.

Não há por que esperar ganhos de produtividade da mão de obra pelo simples fato de ser terceirizada, porque seu nível cultural e de treinamento não se vai elevar como por milagre. Isso depende de investimentos em educação. O sistema S (Sesi, Senai, Sesc, Senac e Senar) contribui de forma significativa e, com a terceirização, perderia até 85% de sua receita que é atrelada à folha de pagamentos. No caso da indústria, atinge 6%.

É isso que, somente no estado de São Paulo, sustenta mais de 300 escolas e 16 faculdades que, quando não gratuitas, são grandemente subsidiadas. Essa perda ocorrerá porque as fornecedoras serão prestadoras de serviço e as prefeituras não vão querer abrir mão dos 5% de ISS. Quem vai assumir o papel dessas entidades? O Estado? Mas não se pretende o Estado mínimo? Fica difícil sustentar essa contradição.

 

Como fica o sentido de pertencimento? Frases como “João aposentou-se na GM” ou “Eu trabalho na Ford”, causadoras de admiração e ditas com orgulho, ficarão no passado

 

Existem ainda outras questões de cunho administrativo, até taylorista (alusão ao modelo de administração do engenheiro norte-americano Frederick Taylor), que não se responderam ainda. Como fica o sentido de pertencimento? É comum o empregado ter orgulho de pertencer a uma equipe de excelência. Frases como “João aposentou-se na GM” ou “Eu trabalho na Ford”, causadoras de admiração e ditas com orgulho, ficarão no passado. Quem lida com recursos humanos sabe que, assim que as necessidades básicas são supridas, as sociais tornam-se o grande motivador do trabalho, incluindo a busca pela excelência. Programas como CWQC (Company Wide Quality Control) e TQC (Total Quality Control) baseiam-se no reconhecimento, não no retorno financeiro.

Tudo isso corre o risco de esfarelar com a terceirização e a intromissão de intermediários de mão de obra. Todos nós temos exemplos disso a contar acerca das operadoras de atendimento ao consumidor e telemarketing. Quando se vai reclamar de uma conta ou de um mal serviço prestado, fala-se com qualquer um, menos com a empresa que prestou o serviço — que, aliás, já é terceira também. Quando se liga para reservar uma passagem, a probabilidade de ser atendido por um empregado da empresa aérea é menor do que a de ganhar sozinho na Mega-Sena. Não há compromisso entre quem atende e a empresa que representa, porque ela não é sua empregadora.

Será que essa falta de compromisso vai trazer mais qualidade para nossos veículos e competitividade à nossa indústria? Tudo indica que não. O princípio da repetitividade norteia a Ciência. Isso significa que, para um conhecimento ser científico, os experimentos têm que ser repetidos sempre com o mesmo resultado. Daí a assertiva de que, se alguém faz o que já foi feito e deu errado, a probabilidade de dar certo é ínfima.

Quer parecer que as mazelas contra quais devemos lutar sejam a falta de qualificação de nossa mão de obra e a falta de incentivo aos arranjos produtivos mais racionais em verdadeiros clusters (cachos), que minimizem custos adjacentes como transporte e impostos evitáveis, que não necessariamente passam pela terceirização.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars