De dica em dica, o carro ainda é um mistério

Todo consumidor está em desvantagem em relação ao fabricante, acerca do conhecimento sobre a máquina que consome

 

Até hoje, com toda a tecnologia, não há uma semana em que a mídia especializada, aqui ou no exterior, deixe de publicar uma matéria sobre os mistérios que envolvem a compra de um carro novo ou usado. Dos 26 carros que já tive, somente três eram zero-quilômetro e fiquei decepcionado ao vê-los ir embora ao serem vendidos — sempre bem conservados, mesmo assim usados, com pneus meia-vida e as indefectíveis cicatrizes do uso. Não achei graça alguma em lembrar seu já esmaecido cheiro de novo, ou a já extinta pilosidade de seus pneus de quando o fui buscar na concessionária.

Apesar de gostar de automóveis e estuda-los constantemente, comprei sim um ou outro mal escolhido, por sorte, nenhum que eu pudesse qualificar como uma bomba. Houve, sim, um Fiat Mile que se suicidou por complexo de rejeição, jogando-se na frente de um ônibus. Eu o odiava, que fazer? Ter-se matado em plena via pública não me teria causado dissabor algum não fosse pelo risco que minha esposa correu, pois estava ao volante. Como diria Frank Sinatra em My Way, na letra composta por Paul Anka, “Regrets, I’ve had a few. But then again, too few to mention”.

 

As regras atribuídas à mão invisível dependem de atomização dos fornecedores e dos consumidores, divisibilidade dos bens e transparência de mercado

 

Fabricar requer um investimento incalculável, pois vai além da fábrica em si

Meu irmão mecânico fica irritadíssimo quando um cliente diz: “Comprei um carro, você pode ver se ele está bom?”. A resposta invariavelmente é: “Se você já comprou, que diferença faz minha opinião?” O fato é que os carros são os mais complexos bens produzidos em série pelo ser humano. Aviões são mais complexos, mas não se pode dizer que sejam produzidos em série, ainda que se considerando Beechcraft, Piper ou Cessna. Mesmo esses têm muito de artesanal, não fora pela complexidade, pelo menos pelo preço, que acaba impondo um grau de personalização visto entre os carros de altíssimo luxo apenas.

Só mesmo durante o esforço de Guerra, entre 1942 e 1945, enquanto a indústria de automóveis dedicou-se a produzir aviões, é que o automóvel perdeu a primazia entre os bens duráveis de maior complexidade saído de uma linha de produção em massa. O mais impressionante é que aqueles aviões — mais de um milhão deles — voavam, façanha de que mesmo os militares de então duvidavam.

Do outro lado desse mercado está o consumidor, que pode ir desde uma garota universitária, ou um motorista de Uber, até um frotista com milhares de veículos sob sua supervisão. Todos — absolutamente todos, mesmo que entendam ou julguem entender de automóveis — estão em desvantagem em relação aos fabricantes acerca do conhecimento sobre a máquina que consomem com ainda grande avidez. Por isso as regras atribuídas à mão invisível de Adam Smith, defendidas pelos ultraliberais, têm pouca ou nenhuma chance de funcionar. Elas dependem de atomização dos fornecedores, atomização dos consumidores, divisibilidade dos bens e transparência de mercado.

Atomização dos fornecedores significa que a entrada ou saída de atores não interfere na oferta, seja por seu grande número ou rotatividade entre ofertantes. Isso requer que os custos de entrada e saída sejam muito baixos, o que não se aplica. Fabricar requer um investimento incalculável, pois vai além da fábrica em si, abrangendo toda a cadeia de suprimentos a montante e todos os canais de distribuição a jusante.

 

 

Atomização dos consumidores parte do princípio de que o valor do produto seja próximo ou tendente a irrelevante no orçamento individual. É que, de outra forma, não haverá consumidores em número suficiente para se considerar atomização, o que não se aplica aos automóveis.

Os bens precisam ser divisíveis porque, de outra forma, a quantidade consumida não varia milimetricamente — ou, em economês, “marginalmente”. Carros não são comprados como batatas ou farinha de trigo. Em parte, a divisibilidade é suprida pela existência de um mercado de usados, o que faz o consumidor optar por um ou outro automóvel, dentro de uma mesma marca ou modelo, consoante sua desvalorização ou condições de financiamento, o que é antagônico ao mercado concorrencial. Ademais, a frequência com que o bem é adquirido é muito baixa, fazendo com que os efeitos da concorrência sejam postergados, quando não anulados pelas externalidades positivas ou negativas do período de posse do bem.

 

O que o consumidor vê do carro não vai além da aparência ou de um teste superficial: o restante é por conta da mídia, do boca a boca entre amigos e da revisão do mecânico

 

Finalmente, a transparência de mercado é quando cada concorrente sabe o que os demais estão fazendo, bem como os consumidores dominam o uso dos produtos. É claro que um moageiro não precisa ser um lavrador, bem como não cabe a um cozinheiro dominar técnicas de moagem, mas moer e plantar não escondem grandes segredos tecnológicos. Carros, por outro lado, vivem do sigilo. Apesar de seu consumo estar indo da posse para o uso, os fabricantes ainda revelam seus lançamentos aos poucos, fotografia a fotografia, parte à parte, detalhe a detalhe de sua ficha técnica. Às vezes, um lançamento é tão esperado que, quando apresentado ao público, chega a ser um anticlímax.

O Código do Consumidor é imprescindível para garantir uma compra minimamente segura, seja de um carro novo, seja de um usado. O que o consumidor vê do carro não vai além da aparência ou de um teste superficial, deixando o restante por conta da mídia especializada, do boca a boca entre amigos e de uma revisão igualmente limitada do mecânico de confiança.

É justamente por isso que vou da perplexidade à zanga quando leio artigos, supostamente científicos, que advogam uma simplicidade de mercado que não existe, baseados em uma mão invisível que, se um dia tiver existido, estará hoje irremediavelmente entrevada. Quando presencio o Estado advogando essa forma simplista — quando não simplória — de ver um mercado tão complexo, formado por bens igualmente obscuros em tecnologia e segurança, de quem depende nossa segurança pessoal, familiar e econômica, vou da zanga à revolta.

Automóveis não são como alimentos, cuja passagem pelo trato digestivo é conhecida, transitória e de descarte nada secreto, se bem que privado. Carros envolvem a sociedade como um todo, desde a mineração de suas matérias primas até seu descarte, passando pelo seu uso crivado de legislação e regras de bom convívio.

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A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars