A indústria brasileira, o vírus e a bandeira amarela

A indústria brasileira, o vírus e a bandeira amarela

As fábricas de automóveis só se mantêm ativas com bom mercado interno ou exportação — no que o Estado pode ajudar

 

Vovó dizia que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Todos esperamos que seja assim com a pandemia do coronavírus. Toda a catástrofe traz oportunidades e ameaças. As oportunidades são os novos negócios que se poderão praticar, enquanto as ameaças são os negócios fadados a deixar de existir.

A indústria brasileira de automóveis parece não estar na berlinda, dado o grande número de lançamentos recentes e por vir com vultoso investimento a ser recuperado. Não se pode, porém, deixar passarem as oportunidades. Se estivéssemos numa prova de Fórmula 1, a economia mundial estaria numa bandeira amarela tendo o vírus como carro de segurança, impedindo-nos de acelerar.

As notícias dão conta de que, com as fábricas paradas, as concessionárias estão vendendo o que não se vendeu em 2019. Tomara que os estoques se esgotem e que tenhamos que retomar a produção a todo o vapor, assim que o trabalho for liberado, visando atingir a mínima capacidade ociosa no mais curto prazo. Não será fácil, porque todos os concorrentes mundiais estarão mirando o mesmo alvo, esperando o carro de segurança apagar a lanterna.

 

Quando usamos um carro financiado para ganhar dinheiro, trabalhamos com capital de terceiros, pois a receita virá antes do gasto — motivo do sucesso do capitalismo

 

A indústria brasileira, o vírus e a bandeira amarela
Quando o trabalho for liberado, todos os concorrentes mundiais estarão mirando o mesmo alvo: o consumidor

Assim como os que conseguem trocar pneus e reabastecer durante a bandeira amarela saem em vantagem, os países com equipes mais inteligentes e ciosas de que as competições se ganham pela estratégia porão suas economias à frente. Muitas coisas dependem de o governo atuar, por menos que o atualmente no poder queira. Tudo começa pelo crédito — e não há indústria que dependa mais dele do que a automobilística. Será que, dentre as mudanças que a pandemia promete ter trazido, há alguma de política econômica que leve a indústria à mínima capacidade ociosa com a brevidade necessária?

O capitalismo tem a capacidade de subverter as quatro etapas dos negócios; investimento, que é a aquisição de bens e insumos destinados à produção; gasto, que é o desembolso; custo, que corresponde ao uso dos bens e insumos adquiridos; e despesa, que corresponde à entrega do bem em troca de um valor a que se chama receita. Graças ao crédito, pode-se antecipar consumo, ou seja, o mercado financeiro fornece recursos para postergar os gastos.

Quando compramos um carro financiado para uso próprio, não estamos fazendo nada além de antecipar consumo. Se usarmos o mesmo carro para ganhar dinheiro, estamos trabalhando com capital de terceiros, pois a receita virá antes do gasto — aliás, o motivo do sucesso mundial do capitalismo, mesmo em economias que se dizem planejadas.

Tenho dito reiteradamente que o brasileiro não entende o capitalismo, tanto que não possuímos um Exim Bank (Export-Import Bank), cuja função é lançar mão das reservas para financiar importação e exportação. Nos Estados Unidos, há desses bancos estaduais para financiar vendas em outros estados. Pode-se, no entanto, usar o Banco do Brasil para isso. Como já discutido em outras matérias (aqui e aqui), a indústria de automóveis, por sua extrema complexidade, só se mantém ativa se o mercado interno for suficiente, mas exportar pode contribuir. Nesse ponto, o Estado pode ajudar muito sem apaparicar empresários.

 

 

Estado pode garantir

No mercado interno, posto que a taxa básica de juros está baixa, pode-se transformar o Bacen num fundo de risco, ou seja, que compra o risco de crédito para que os bancos possam escoimar essa variável de sua planilha de composição do preço do dinheiro. Traduzindo do economês, o risco de o devedor não pagar é um componente importante do spread (diferença entre as taxas de tomada e concessão de empréstimos). O Estado pode garantir que o banco receba, caso o devedor não pague, como se fosse um seguro de lucro cessante, regulando a percentagem assumida e o spread contratado.

Assim, quanto maior for o spread, menor será a percentagem do empréstimo a ser segurado, tal que as parcelas fiquem baixas o suficiente para impulsionar as vendas sem comprometer a capacidade pagadora do consumidor, reduzindo, portanto, o risco de ele não honrar seus compromissos.

Digamos que o Estado compre 100% do risco para um spread de até 20%. Suponhamos agora que o banco capte a 4% ao ano. Se ele emprestar a 4,8%, o Bacen cobre todo o risco e o que passar disso é por conta do banco. Ocorre que a instituição tem seus custos e dificilmente pode cobrar juros tão baixos. Pode precisar de, no mínimo, 6% ao ano para satisfazer suas necessidades e as de seus sócios. Nesse caso, o Bacen estaria garantindo 80% do risco. Naturalmente, o spread máximo segurado seria alvo de correção diária para não fomentar a inflação.

 

Um consumidor peruano ou chileno poderia comprar um carro brasileiro, financiado pelo Banco do Brasil, nas mesmas condições que um consumidor doméstico

 

A indústria brasileira, o vírus e a bandeira amarela
Como o risco de o devedor não pagar é um componente importante do spread, o Estado pode garantir que o banco receba

Numericamente, imaginemos um carro de R$ 100.000 financiado em 36 parcelas, pela tabela Price, a uma taxa anual de juros de 16% ou 1,26% ao mês. As parcelas seriam de R$ 3.463,31. Com uma taxa de 6% ao ano para o mesmo prazo, o valor seria de R$ 3.035,00 a parcela.

O mesmo é possível fazer para fomentar as exportações, usando as agências do Banco do Brasil mundo afora e destinando parte de nossas reservas para o mesmo mecanismo. Isso dissociaria o financiamento de automóveis exportados pelo Brasil em outros países de suas taxas locais de juros, tornando nossas vendas imbatíveis. Um consumidor peruano ou chileno poderia entrar em uma agência e, se escolher um carro brasileiro, financiá-lo pela agência local do Banco do Brasil nas mesmas condições que um consumidor doméstico.

Evidentemente, a prática poder-se-ia estender para qualquer bem durável, incluindo peças de reposição como pneus. Importante que o produto seja nacional, sem gravar o importado por impostos, visto que não há nada pior para a competitividade que o protecionismo. É preciso zelar pela indústria local e pelos empregos de nossos cidadãos, mas porque os produtos sejam bons e, principalmente, acessíveis.

Mudar a política econômica, aproveitando ao máximo as regras do jogo, é que nos pode fazer ultrapassar alguns na relargada. Se ficarmos inertes, porém, o risco de nos tornarmos retardatários e até sermos desclassificados é enorme.

Coluna anterior

A coluna expressa as opiniões do colunista e não as do Best Cars

Foto: Prostooleh – br.freepik.com