Ka Trail faz boa (e tardia) entrada nos “aventureiros”

Marca oferece pela primeira vez uma versão com suspensão elevada, que mostra bom acerto para a proposta

Texto: José Geraldo Fonseca – Fotos: autor e divulgação

 

A Ford ficou entre as últimas na corrida aos “carros aventureiros”, aqueles com visual que sugere aptidão fora de estrada e algumas alterações técnicas — pneus maiores, suspensão elevada —, mas que não chegam a ser utilitários esporte. Desde que a Fiat lançou a tendência com a Palio Adventure, em 1999, tudo o que a marca do oval ofereceu foi a versão Trail do Fiesta de geração anterior, que mantinha a altura e os pneus originais.

Agora chega outro Trail, o Ka hatch, disponível com motores de 1,0 litro e três cilindros (ao preço de R$ 47.690) e de 1,5 litro e quatro cilindros (R$ 52 mil). São aumentos de cerca de 8% sobre a versão SE da qual o Trail foi derivado. A Ford destaca o custo menor que os de Chevrolet Onix Activ 1,4 (R$ 57.490), Hyundai HB20 X (Style 1,6 por R$ 58.355), Renault Sandero Stepway 1,6 (R$ 60.700) e Toyota Etios Cross (R$ 64.290 com caixa automática), mas há alternativas mais baratas no mercado, como Fiat Uno Way (1,0 por R$ 42.970 e 1,3 por R$ 47.690) e VW Gol Track 1,0 (R$ 45.440).

Ao contrário do Fiesta homônimo, o Ka Trail recebeu suspensão elevada e pneus de uso misto com maior diâmetro, Pirelli Scorpion ATR, em medidas 185/65 R 15 contra 175/65 R 14 do Ka SE (ou SE Plus) e 195/55 R 15 do SEL. Apesar do aumento de diâmetro em 6,6% em relação ao SE, as relações de transmissão foram mantidas, o que deixa o Trail mais longo no mesmo percentual. Uma intervenção aqui seria oportuna: o contrário — marchas pouco mais curtas para maior capacidade de saída em terrenos difíceis — faria sentido pela vocação da versão.

 

Além da altura de rodagem 31 mm maior e das rodas escuras de 15 pol, o Ka Trail traz faixas nas laterais e traseira, barras de teto e o nome nas soleiras

 

Também fazem parte do pacote novas molas e amortecedores dianteiros e traseiros, estabilizador dianteiro maior e eixo traseiro com maior rigidez torcional. Isso tudo proporciona 31 mm a mais de altura livre do solo, que passa a 200 mm. A calibração da assistência elétrica de direção e do sistema antitravamento (ABS) de freios foi refeita. Os motores produzem potência e torque iguais aos das outras versões, mas o de 1,0 litro recebeu coxim hidráulico, que resulta em melhor isolamento de vibrações (sobretudo as decorrentes de movimento vertical do motor, comum em estradas de terra) e menos aspereza.

 

No dia a dia urbano, o bom acerto da suspensão deixa o hatch ideal para as condições severas de rodagem; com rodar bem controlado, não se notam movimentos indesejados

 

Diferente de outros carros do tipo, o Ka apresenta um aspecto bem limpo. De acordo com Adília Afonso, supervisora de estilo da Ford América do Sul, a opção foi evitar que o desenho fique obsoleto muito cedo, com “penduricalhos” que podem se tornar fora de moda. O carro se destaca pela maior altura, barras de teto, apliques prata nos para-choques, nova moldura dos faróis de neblina, máscara negra nos faróis, molduras de caixas de rodas texturizadas na cor preta e faixas laterais e na tampa traseira com a palavra Trail, além das rodas de 15 pol na cor cinza.

O interior conta com bancos revestidos em couro sintético com parte central em tecido, debrum laranja e elásticos laterais para fixação de objetos, além de rede atrás do encosto. Eles vêm com produto repelente que impede a formação de manchas. De resto, pedais esportivos e soleira com a inscrição Trail. O isolamento acústico também foi melhorado. O carro está disponível nas cores vermelha, preta, prata e branca e pode receber acessórios como geladeira portátil, rede organizadora, sistema de áudio Ford Smart (com tela tátil de 6 pol e compatibilidade com Android Auto e Apple Car Play), retrovisor com imagens de câmera de manobras, sensores de estacionamento, alerta para veículo em ponto cego e cadeirinha para animal de estimação. Ficam de fora controle elétrico de vidros traseiros e dos retrovisores.

 

Suspensão recalibrada mantém bom controle de movimentos; no “fora de estrada” urbano, o Trail ganha tranquilidade para vencer obstáculos sem raspadas

 

Ao volante do Ka Trail

Engana-se quem acha que o Trail, pela falta de grandes apliques plásticos, não se destacará perante os Kas comuns. Na avaliação de cerca de 350 quilômetros (em prazo insuficiente para medições e produção de vídeo, que ficam para outra oportunidade), por duas vezes fomos abordados por donos de Ka querendo saber se era uma nova versão.

 

 

No dia a dia urbano, o bom acerto da suspensão deixa o hatch ideal para as condições severas de rodagem de uma cidade como São Paulo, SP. O que parece apenas um carro enfeitado é na verdade muito útil: o “aventureiro” diminui os impactos e o risco de danos nos buracos, valetas, lombadas e crateras. Chega-se a pensar que o título de aventureiro está errado: deveria ser racional, pois aventureiro mesmo é quem se arrisca a destruir seu carro comum no dia a dia.

Apesar da suspensão elevada, o rodar continua bem controlado e não se notam movimentos indesejados. A direção está bem calibrada e, como no Ka conhecido, é agradável o comando da transmissão. A saída de ré de uma conhecida vaga em rampa, que sempre fez raspar a frente de carros normais, com o Ka Trail foi bem tranquila, com espaço de sobra entre a saia frontal e o solo.

 

Painel é o mesmo, mas bancos recebem revestimento parcial em couro

 

O desempenho da versão de 1,0 litro é apenas razoável: com a transmissão longa, os pneus mais largos e cerca de 20 kg a mais que no SEL, ganhar velocidade com o Trail requer certa rotação. A Ford não informou dados de desempenho, mas é lícito esperar alguma perda em relação à aceleração de 0 a 100 km/h em 14,4 segundos e à retomada de 60 a 100 (em terceira) em 10,3 s constatadas em nosso teste do SEL em 2014. Por outro lado, foi bastante eficaz o novo coxim: nem parece o motor de três cilindros da Ford, conhecido pela constante oscilação.

Em termos de consumo, o “aventureiro” abre mão de parte da economia das demais versões. Pelos dados oficiais, o de 1,0 litro roda 12,5 e 8,8 km/l no ciclo urbano e 14,3 e 9,9 km/l no rodoviário, enquanto o SE faz 13,5 e 9,2 km/l em cidade e 15,7 e 10,8 km/l em rodovia, sempre na ordem gasolina/álcool. No caso do 1,5-litro, os valores são de 10,8/7,5 em cidade e 13,2/9,0 km/l em rodovia para o Trail; o SE tem anunciados 11,7/8,1 em cidade e 13,8/9,6 km/l em rodovia, na ordem.

Um carro pouco mais lento e menos econômico não é novidade para quem opta por uma versão “aventureira”: trata-se de compromisso para obter vantagem em outros aspectos, como robustez e conforto nas irregularidades do dia a dia e, se for o caso, uma escapada até a praia ou um sítio sem sacrificar o automóvel. Dentro dessa ótica, o Ka Trail ficou bem acertado e deve trazer boa aceitação a essa entrada, ainda que tardia, da Ford no setor.

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Preços e equipamentos

Ka Trail 1,0 (R$ 47.690) e 1,5 (R$ 52 mil) – Abertura elétrica do porta-malas, ar-condicionado, banco traseiro bipartido 60/40, bancos com revestimento parcial em couro, bolsas infláveis frontais, controle elétrico de vidros dianteiros, travas e retrovisores, direção assistida elétrica, encostos de cabeça e cintos de três pontos para cinco ocupantes, faróis de neblina, fixação Isofix para cadeira infantil, freios com freios antitravamento (ABS) e distribuição eletrônica de frenagem (EBD), limpador e desembaçador do vidro traseiro, rádio com USB e interface Bluetooth, rodas de alumínio de 15 pol, travamento com controle remoto, volante ajustável em altura.

 

Ficha técnica

Motor
Posiçãotransversal
Cilindros3 em linha
Comando de válvulasduplo no cabeçote
Válvulas por cilindro4, variação de tempo
Diâmetro e curso71,9 x 81,8 mm
Cilindrada997 cm³
Taxa de compressão12:1
Alimentaçãoinjeção multiponto sequencial
Potência máxima (gas./álc.)80/85 cv a 6.300 rpm
Torque máximo (gas./álc.)10,2 m.kgf a 3.500 rpm/10,7 m.kgf a 4.500 rpm
Transmissão
Tipo de caixa e marchasmanual, 5
Traçãodianteira
Freios
Dianteirosa disco
Traseirosa tambor
Antitravamento (ABS)sim
Direção
Sistemapinhão e cremalheira
Assistênciaelétrica
Suspensão
Dianteiraindependente, McPherson, mola helicoidal
Traseiraeixo de torção, mola helicoidal
Rodas
Dimensões6 x 15 pol
Pneus185/65 R 15
Dimensões
Comprimento3,896 m
Largura1,695 m
Altura1,568 m
Entre-eixos2,491 m
Capacidades e peso
Tanque de combustível52 l
Compartimento de bagagem257 l
Peso em ordem de marcha1.047 kg
Desempenho e consumo (gas./álc.)
Velocidade máximaND
Aceleração de 0 a 100 km/hND
Consumo em cidade12,5/8,8 km/l
Consumo em rodovia14,3/9,9 km/l
Dados do fabricante; consumo conforme padrões do Inmetro; ND = não disponíveis