Fiat Mobi vs. Renault Kwid: será que vai ter “surra”?

O desenho do Kwid é todo mais simples e proporcional, com frente curta e maior entre-eixos; os excessos tornam o Mobi mais difícil de agradar

 

Concepção e estilo

Projeto brasileiro, o Mobi foi lançado em 2016 com plataforma derivada daquela do Uno. O Kwid surgiu antes, em 2015, na Índia e agora ganha fabricação nacional. Ao contrário do Fiat, usa uma arquitetura inédita. Essa diferença pode ser constatada ao comparar seus perfis: o Renault é bem curto na frente, o que sinaliza melhor aproveitamento do espaço ocupado, enquanto o “nariz” pronunciado do Fiat revela a adaptação a partir de um carro maior.

 

 

O Kwid é também mais harmonioso no conjunto, com formas simples e tudo mais proporcional. No Mobi os volumes da parte dianteira e dos para-lamas parecem incoerentes ao porte do carro e à traseira curta, como se as partes tivessem sido desenhadas por equipes diferentes e sem comunicação. Solução válida do modelo, comum a alguns chineses do mesmo segmento e ao Volkswagen Up alemão, é a tampa traseira toda de vidro, mais fina e leve que uma de aço.

Embora nenhum dos fabricantes informe o coeficiente aerodinâmico (Cx), presumimos pior resultado no Kwid, pois o vão livre do solo bem maior tem grande influência — veja-se como é raro um utilitário esporte obter bom Cx. Detalhe positivo do modelo está nos vãos menores e bem regulares entre os painéis de carroceria, acima do esperado para um carro tão simples.

 

Formas e acabamento simples nos dois carros; os instrumentos do Fiat incluem informações adicionais e velocímetro digital; ambos têm computador de bordo

 

Conforto e conveniência

Simplicidade, ainda que disfarçada por alguns elementos estéticos (como apliques em preto brilhante), é o padrão dos interiores: plásticos rígidos, tecidos ásperos, certas falhas de acabamento. Os bancos compactos apoiam apenas parte das coxas e ficam longe do conforto encontrado em carros médios.

 

O Kwid sobressai pelo sistema de áudio com tela de 7 pol e navegador; no Mobi, ou se fica com um rádio simples ou com o Live On, uma interface para celular com aplicativo

 

O motorista do Mobi beneficia-se das regulagens de altura do banco e do volante, ausentes do Kwid, o que é lamentável em uma versão de topo. O banco elevado do Renault deve agradar aos mais baixos, mas deixa a desejar a pessoas de maior porte e, ao entrar, até quem tem menos de 1,80 metro corre o risco de bater a cabeça no teto. Seu volante nos pareceu mais distante do que deveria. Por outro lado, os péssimos bancos dianteiros do Fiat cansam rápido em viagens e seus apoios laterais são apertados. Nos dois a reclinação é por alavanca, o encosto de cabeça é parte do banco (sem problemas), os pedais ficam mais à direita (sem incomodar) e falta bom espaço para o pé esquerdo. No Kwid a haste do pedal de freio pega na ponta de sapatos acima de 40.

O quadro de instrumentos do Mobi, com mostrador digital de várias funções, torna-se superior ao do rival: inclui velocímetro digital, termômetros do motor e do ambiente interno e até informações pouco úteis como as horas de uso do motor. Os dois têm conta-giros, computador de bordo e mostrador ou barras coloridas para orientar a se dirigir com economia. Curioso no Kwid o velocímetro que indica a velocidade real ou mesmo um pouco abaixo dela, diferente do costumeiro. Deve ser revista sua iluminação dos mostradores digitais: fica fraca ao rodar de dia com faróis acesos, como é lei em rodovias.

 

Volante e banco reguláveis em altura favorecem a posição de dirigir no Mobi, apesar do banco ruim; espaço traseiro é limitado, mas melhor que no oponente

 

O Renault sobressai em sistema de áudio ao oferecer o Media Nav, de fácil operação, com tela sensível ao toque de 7 pol, navegador e entradas USB e auxiliar. No Fiat, ou se fica com um rádio/MP3 simples ou se tem o Live On: rádio, suporte para celular no painel e comandos no volante. Pela interface Bluetooth e com um aplicativo, controlam-se do carro as funções de áudio, ligações e navegador do celular. Há ainda uma análise de direção econômica, similar à do sistema do Kwid.

 

 

A ideia da Fiat foi boa por evitar a compra de um segundo aparelho para o carro, mas nem tanto se o automóvel for compartilhado por alguém sem o aplicativo ou as devidas habilidades. Deveria ao menos aceitar um pendrive na porta USB, o que resolveria nessa situação. Em termos de qualidade sonora os dois são bastante modestos. O espaço para objetos do Kwid, embora maior, está concentrado na grande bandeja do console: carteira, telefone, chaves e todo o resto ficam ali, desorganizados e causando ruídos.

Conveniências em comum abrangem ajuste de altura dos cintos dianteiros, ar-condicionado, bolsas nos encostos dianteiros, comando interno para a tampa traseira e a do tanque, controle elétrico de vidros dianteiros, travas e retrovisores e indicador para trocas de marcha para cima e para baixo. A iluminação interna resume-se a uma luz na frente com temporizador.

 

Na frente ou atrás, ocupantes mais altos têm menos conforto no Kwid e todos se sentam bem próximos pela cabine estreita; até o acesso à traseira incomoda

 

Vantagens do Mobi são alarme antifurto volumétrico (ultrassom), alça de teto para o passageiro da frente (Kwid, só atrás), alerta para porta mal fechada (no Renault, ao menos a luz interna fica acesa), controle elétrico de vidros nas portas (em vez de no painel) com função um-toque, temporizador e comando a distância para abrir e fechar; espelho também no para-sol do motorista, espelho para monitorar crianças no banco traseiro, faixa degradê no para-brisa, porta-óculos de teto, sensores de estacionamento na traseira e vidros de trás que descem por inteiro (falta muito para isso no rival).

A favor do Kwid estão alerta para uso de cinto por motorista e passageiro (nenhum no Mobi), câmera traseira de manobras (de resolução um tanto baixa, mas ainda assim um requinte neste segmento), comando na chave para abrir a tampa traseira e maçanetas internas cromadas (tendem a ser mais fáceis de achar à noite). E a pintura envernizada do cofre do motor surpreende diante das economias em outras partes.

Mesmo com toda a contenção de custos, o que poderia melhorar? Nos dois, haver iluminação no compartimento de bagagem, dar opção de controle elétrico de vidros traseiros (manivelas em mãos infantis são um convite a esquecer janelas mal fechadas) e aumentar a capacidade do ar-condicionado. No Fiat o porta-luvas fica muito baixo e abrir a tampa traseira faz o alarme disparar, inaceitável em instalação original.

Próxima parte