Fiat Toro: ousadia de estilo bem executada

 

Aquela inclinação das colunas traseiras tem fins de estilo e rigidez estrutural. Seria possível fazer o vidro traseiro segui-la, mas isso não seria interessante: a caçamba perderia volume e a cabine o ganharia de forma inútil, porque ainda não seria possível recuar o banco traseiro. Com esse artifício, a Fiat consegue não só as vantagens mostradas no item 3 da imagem anterior como também uma melhoria aerodinâmica. Essas colunas “falsas” ajudam a suavizar o fluxo de ar na transição rumo à região da caçamba da mesma forma que as peças usadas por VW Amarok, Ford Ranger e Chevrolet S10.

Em picapes, a tampa traseira deve ter a maior área possível para facilitar carga e descarga. A maioria dos modelos lida com isso usando lanternas verticais, o qual lhes dá uma uniformidade de estilo pouco desejável. A Fiat resolveu isso com lanternas levemente quadradas, que invadem muito pouco do espaço da tampa — aqui não há a opção de colocar uma parte das luzes na tampa, que deve ser removível. Em paralelo, as lanternas se valem de posição elevada e contorno irregular, repuxado nas laterais, para quebrar a área vazia de carroceria naquela região.

 

 

Os maiores destaques da tampa traseira da Toro são a abertura bipartida e com dobradiças verticais, mas ambos são estritamente funcionais. Sob o ponto de vista do estilo, o ponto mais interessante é o puxador. A Fiat usou uma peça grande o suficiente para ser usada pelas duas partes da tampa, o qual evita poluição visual, e a revestiu de plástico preto, o qual contrasta com o cromado do letreiro da marca. A Toro, aliás, foi o primeiro Fiat brasileiro atual a usar o logotipo traseiro assim, sem o escudo vermelho. Isso permite que o letreiro fique maior e mais chamativo.

A Fiat preferiu concentrar as atenções no logotipo e na traseira. Sendo assim, a tampa é adornada meramente por dobras, que usam o jogo de luz e sombra para preencher a área de carroceria, e a seção inferior tem estilo voltado à função: repete o revestimento em plástico preto visto no item 1 da imagem anterior, para reduzir os problemas com riscos e pequenos impactos, e abriga as luzes de ré e os sensores de estacionamento com formas simples e discretas. O fato de essa região ser mais alta que as demais em plástico ajuda a disfarçar a altura da caçamba nessa região.

 

 

No volante, o raio inferior vazado o torna visualmente mais leve e permite variações de acabamento, como o uso de cor secundária. Os raios laterais são dominados por teclas que comandam funções como telefone, controlador de velocidade e navegação pelos menus do computador de bordo. Os de áudio ficam atrás dos raios, uma tradição da Chrysler que foi adotada pelos italianos após sua absorção em 2009.

O console central segue a tendência de formas horizontais: evita a aparência de coluna, que avança rumo aos passageiros e parece dividir a cabine, e dá mais espaço aos componentes. Por outro lado, formas conservadoras e comedimento no uso de acabamento cromado procuram reforçar o parentesco da Toro com Renegade e Compass. O único pecado notório na cabine é oferecer central de áudio com tela pequena: fica feia por si só, ao precisar de botões grandes para o uso, e destoa do ar de modernidade da picape.

 

 

Como convém a um veículo de caráter mais sério, o restante do painel é simples como um todo, com alguns acessórios em cor contrastante. As saídas de ar são mais verticais que na maioria dos automóveis, para evocar a imagem das picapes maiores. Como esse tipo de veículo tem cabine alta, em geral, usa-se esse formato das saídas para otimizar a climatização do ambiente.

Talvez para não elevar o custo de produção, a Fiat optou por dar aos painéis das portas estilo independente do painel central. Alto-falantes e puxadores têm um tamanho que só não parece exagerado por se tratar de um veículo de grande porte. A porção do revestimento em tecido (ou couro, de acordo com a versão) é grande o suficiente para um contraste agradável com a região de plástico preto, a fim de evitar uma sensação de pobreza que seria imperdoável nessa faixa de preço.

 

 

A grafia interna dos instrumentos pode ser alterada facilmente e com custo baixo. Além disso, é um item que o motorista consulta com frequência, portanto é comum idealizar um estilo para cada carro. Aqui, o quadro da versão Ranch reforça sua origem fora de estrada ao usar a cor marrom e ao marcar o limite de rotações com uma mancha de lama. As luzes-piloto ao redor da base dos ponteiros ajuda na simetria e torna a aparência geral mais limpa.

Telas nessa posição já são comuns entre os carros modernos. A da Toro chama atenção pelo formato arredondado nas laterais, que segue o dos instrumentos analógicos. Não chega a permitir ver mais informações, mas o impacto no visual é muito positivo: a tela se torna mais integrada aos componentes que a rodeiam e a área vazia fica menor. A impressão de atenção aos detalhes faz toda a diferença.

 


 

No que se refere a estilo, é fácil perceber que a Toro tem tudo para, finalmente, firmar a Fiat da América Latina em categorias de mercado superiores. Essa missão se torna mais louvável quando se nota um detalhe: o fabricante não está mais tentando se encaixar no padrão dessas categorias, como fez com sedãs e hatches. Em vez disso, resgatou a vontade de inovar e enfrentar aqueles padrões de frente. A julgar pelos registros de vendas, ela encontrou o caminho certo.

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