Chevrolet Vectra, estilo que andou mesmo à frente

 

  Ao contrário do que é regra hoje, esse modelo foi concebido para sempre ter molduras nas laterais — havia até um rebaixo para abrigá-las e proporcionar melhor acabamento. O conjunto era composto de três peças, algo nada usual nas (raras) molduras de hoje. Sua posição elevada protegia bem as portas de pequenos impactos, ao contrário do que se nota nas atuais molduras, baixas demais.

  Esse vinco, ainda que sutil, não é chamado de linha de caráter à toa: ele realmente dá personalidade ao estilo do modelo. Compare com a primeira geração do Vectra (abaixo nesta página) e veja como ele faz falta.

  A coluna tem uma bela inclinação e uma suave transição para o porta-malas. Esse é o tipo de item que tem de ser bem feito, pois tem um peso bem grande para o bom resultado estético do carro como um todo. Note também a colocação discreta — quando recolhida, claro — da antena telescópica de controle elétrico.

  Uma característica bem peculiar da Opel e da GM na época era a preocupação em ter tudo muito bem alinhado. Observe como as linhas horizontais do rebaixo da placa de licença estão alinhadas com as linhas das lanternas, o vão do para-choque vem alinhado com as molduras das portas, o vinco inferior do para-choque fica alinhado com o vinco da lateral e daí por diante.

 

 

 

  Essa é a frente do Vectra em sua última versão dessa geração, após duas reformas parciais. No modelo europeu havia um defletor embaixo do para-choque que o encorpava, deixando-o mais esportivo. Sem ele no modelo brasileiro, a parte inferior ficava muito fina, causando a sensação de que está faltando alguma coisa.

  O que era um dos grandes charmes da dianteira saiu para dar lugar a uma aparência mais limpa e, por que não dizer, simplificada. Era a tendência a seguir, mas fez falta algo que enriquecesse a aparência.

  A agora grande abertura do para-choque, com falsas tomadas de ar para abrigar os faróis de neblina, foi a opção mais óbvia para se diferenciar da versão anterior. Visualmente alargava a dianteira, mas o resultado do conjunto não foi dos mais brilhantes.

  O farol de superfície complexa usado de 2000 em diante era todo novo, em uma única peça, com a lente transparente em policarbonato. Se o para-choque também era novo, não fez sentido manter o contorno do farol anterior. Foi perdida uma boa oportunidade de diferenciar um pouco mais essa nova versão em relação à anterior.

 

 

  Para essa versão, as superfícies “pegadoras de luz” foram desconectadas umas das outras e foram criadas mais três na lateral, sem muito sentido, por não combinar com o estilo do carro e poluir o visual. A parte em preto logo abaixo foi conveniente, pois a proposta toda foi aumentar a aparência de esportividade.

  Mais um caso de perda de harmonia com o estilo do carro. Essa superfície marcada por dois vincos desequilibrou tudo, pois o vinco inferior desce pela lanterna, estreitando-a visualmente, e chega à quina do para-choque, dando a sensação de alargar a traseira. Sem contar o rebaixo da placa de licença retangular, que não combinou com absolutamente nada.

 Assim como os faróis, as lanternas também eram novas e adotaram o uso de lentes transparentes. No conjunto da traseira, houve uma perda de charme em relação à versão anterior.

  Foi boa a adoção de saias laterais, mas a solução de estilo mais dava a impressão de ser uma peça do mercado de acessórios que feita por um grande fabricante.

 

 

  O Vectra alemão de primeira geração, similar ao feito aqui. Em comparação aos dias atuais, era muito diferente trabalhar o estilo de um carro: observe todas as linhas e contornos retos e paralelos, em uma simplicidade total. O vão do para-choque tinha de ser reto e, se a fábrica quisesse ter o farol separado visualmente dele, tinha de ser acrescentado um filete, que em geral era feito de aço, como nesse caso.

  Nessa época os para-choques estavam perdendo as formas que lembravam os feitos de aço e buscando mais integração com o estilo da carroceria. Mesmo assim, visualmente ainda eram bem separados dela. A moldura em preto contornando todo o carro dava uma conotação de bom acabamento e requinte.

  As molduras pretas com filete cromado dos para-choques e da lateral tinham tanto peso no estilo do carro que dispensavam o uso de molduras nas caixas de rodas, de uma superfície “pegadora de luz” na lateral e até mesmo daquele vinco na linha de cintura, um pouco abaixo das janelas.

  A foto ilustra itens que mantêm o grau de parentesco dessa primeira geração com a segunda, como os gráficos formados pelas janelas e pelo conjunto grade/faróis, mas tudo foi mais bem trabalhado no modelo posterior.

 

 

  É curioso como as coisas vão evoluindo aos poucos. Por obrigação de fazer o contorno de todo o carro, três peças compõem a moldura lateral. Na geração seguinte a moldura lateral foi isolada visualmente, mas manteve as três peças. Somente na terceira geração foi que economizaram uma peça, a do para-lama dianteiro.

  Apesar do contorno diferente na segunda geração, observe como as funções de luzes de ré, direção, freio, posição e refletor estão distribuídas exatamente da mesma maneira em ambos os Vectras. O complemento das lanternas na tampa do porta-malas, que não equipava a versão de entrada GLS, não tinha a qualidade de aparência que deveria para parecer parte do conjunto. Teria sido melhor usar lanternas pouco mais largas em peça única, como na segunda geração.

  Esse tipo de aplique em preto era um item de requinte visual na época, usado em versões mais sofisticadas ou esportivas. O Vectra nacional o trazia no CD e no GSi, mas não no GLS.

  Essa espécie de saia esportiva do para-choque chamava mais a atenção do que deveria, por causa da quantidade de luz que a superfície captava. Note mais um exemplo do hábito de alinhar tudo: quando esse detalhe gira para a lateral, não está só bem alinhado com a soleira das portas, como também segue sua aparência.

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O autor

Edilson Luiz Vicente é designer com mais de 20 anos de experiência na indústria automobilística, atuados em empresas de grande porte como Volkswagen, Ford e General Motors no Brasil, Isuzu no Japão e General Motors nos Estados Unidos. É um dos poucos de seu segmento com experiência também em projetos e engenharia. Também é professor no Istituto Europeo di Design em São Paulo. Mais informações.