Gostaria de
deixar registrada uma opinião sobre um problema sério
que está ocorrendo no mercado automobilístico, não só
no Brasil como no mundo: a proliferação do uso de veículos
utilitários de médio porte (tais como picapes, jipes e
sport-utilities, referidos daqui por diante apenas como
picapes). |
| E, picapes de duas
toneladas e meia nas mãos de pessoas que estão
acostumadas a dirigir Unos, Gols, Palios é,
metaforicamente, a mesma coisa que entregar uma
submetralhadora Uzi a alguém que só atirou com pistolas
calibre 38 de seis tiros. Conceitualmente, parece a mesma
coisa, mas na prática não é. As reações (por exemplo,
o coice da arma), o jeito de atirar (a Uzi é automática,
o 38 não é) e o poder destrutivo da Uzi é muito maior
que o do 38. Logo, atirar com uma Uzi (ou dirigir uma
picape) não é o mesmo que atirar com um 38 (ou dirigir
um carro de pequeno porte). Associando-se estes quatro fatores: a) desproporcionalidade absurda de altura e resistência estrutural entre as picapes e os carros de passeio; b) instalação de acessórios ditos "de proteção"; c) despreparo geral dos motoristas para guiar esses veículos; d) visão do tamanho do veículo como forma de se impor entre os outros motoristas ("cultura do terror") causada pela falta de civilidade do motorista, que usa o trânsito para descarregar suas tensões e frustrações pessoais; podemos chegar às causas de vários acidentes (a maioria deles com vítimas fatais), como alguns que envolveram pessoas famosas (o jogador Edmundo, que esmigalhou um Uno quando dirigia sua Grand Cherokee embriagado e em alta velocidade no Rio de Janeiro, matando duas pessoas, e o cantor Alexandre Pires, que dirigindo sua Grand Cherokee em alta velocidade arremessou um motociclista contra um poste de concreto, causando morte quase instantânea). E com essas causas apresentar medidas (ou sugestões) para reduzir essas fatalidades. a) Com relação à desproporcionalidade de tamanho não há muito o que fazer, visto que reduzir a altura desses veículos eliminaria sua característica de uso off-road. Porém, quando à diferença de rigidez estrutural, pode haver soluções: 1) tornar obrigatório o uso de pára-choques de material plástico (similar ao dos automóveis de menor porte) e 2) obrigar que as picapes, em caso de colisão, sofram uma deformação estrutural proporcional ao seu tamanho (diminuindo um pouco a rigidez da estrutura) quando comparada à dos carros menores. b) Analogamente a 1 e 2 do item anterior, poder-se-ia tornar proibido (ou então regulamentar) o uso dos "acessórios de proteção", especialmente as grades do tipo "quebra-mato" e os reforços de pára-choques. Por exemplo, permitir o uso desses acessórios em competições (como rally), e dessa forma o carro com esses acessórios só poderia circular nas ruas com autorização (e nos horários e datas autorizados) pelo Detran, como já se faz com carros de corrida e de campeonatos de som automotivo. c) Reduzir o limite de carga para que seja exigida habilitação profissional (cat. C) dos condutores desses veículos. Analogamente, a exigência estender-se-ia aos derivados (por exemplo, se para dirigir uma S-10 a diesel fosse obrigatória a posse da carteira C, essa obrigatoriedade estender-se ia a todos os modelos da linha, por exemplo a S-10 a gasolina ou mesmo a Blazer). Além disso, seria interessante que outras características além da capacidade de carga e número de passageiros fossem utilizadas para definir "o que é" um utilitário. Por exemplo, altura livre do solo, altura do assento do condutor em relação ao solo, etc. Como conseqüência, esses veículos passariam a serem considerados "caminhões" e teriam de sofrer as mesmas restrições aplicadas a essas categorias de veículos (circulação proibida em certos locais em certos horários, obrigatoriedade de transitar na faixa da direita, menor velocidade máxima permitida nas estradas, etc.). Dessa forma, a compra desse tipo de veículo por motoristas comuns seria desencorajada e só os consumiriam quem realmente tivesse necessidade. Seria também interessante que a legislação de trânsito obrigasse os fabricantes a limitar a velocidade máxima desse tipo de veículo (por exemplo, 130 km/h é um patamar aceitável) e que, prevendo reprogramação do chip por parte do usuário do veículo, alterar esse chip seria considerada infração gravíssima de alteração das características do veículo com penalidade de multa e apreensão. d) Esse último problema é cultural e só com educação se resolve. Infelizmente, a indústria automobilística forma, no Brasil, um lobby muito poderoso, e essas restrições dificilmente seriam aceitas pelo setor. Além disso, a grande parcela das pessoas que já possuem esse tipo de veículo (boa parte com grande poder aquisitivo) naturalmente iria reclamar, entrar com inúmeras ações na Justiça contra a medida, e parece-me que isso sairia mais caro (financeiramente falando) para o Governo Federal do que a preservação da vida. Também devemos considerar que essas medidas necessitariam de mudanças muito profundas no Código de Trânsito Brasileiro, que provavelmente demorariam muito para serem implantadas e colocadas em prática. Seria necessário também um período de transição, para que os interessados em poder continuar dirigindo suas picapes pudessem se adaptar às novas leis (mudando a categoria da sua carteira de habilitação). Outra solução possível, mas não tão interessante para a economia do País, seria mexer na tributação referente a esse tipo de veículo. É possível, por exemplo, aumentar a carga tributária sobre os utilitários (picapes, jipes e sport-utilities, principalmente os importados) e diminuir a alíquota sobre os carros de passeio. O problema nessa atitude está no fato que esse aumento de tributação prejudicaria àqueles que utilizam os utilitários de fato para fins comerciais, como os caminhoneiros, o que não seria recomendável já que a economia brasileira depende (em demasia até) do transporte rodoviário. Soluções para o problema não faltam. Basta discutir e analisar. Sabemos que não há possibilidade de termos 100% de satisfeitos para nenhuma das soluções possíveis. Devemos também lembrar que o modelo comportamental aqui citado (imposição do respeito pela força bruta, despreparo para guiar picapes) não se aplica a todos os motoristas de picapes. Sempre há exceções. Devemos também lembrar que um choque entre um carro grande e um pequeno não deixa de ser uma batalha entre Davi e Golias (a revista alemã Auto Motor und Sport fez um crash-test frontal entre um Corsa e um Mercedes E 320 alguns anos atrás e o resultado também não foi nada animador), mas as diferenças de força não são tão acentuadas. De qualquer forma, temos que tirar essas armas de duas toneladas e meia das mãos das pessoas que não estão preparadas para conduzi-las e deixá-las apenas nas mãos de quem tenha de fato os requisitos para utilizá-las, de preferência quem tenha necessidade real de possuir ou dirigir esse tipo de veículo. Com essas medidas, não eliminaremos totalmente as mortes no trânsito, mas podemos diminuí-las bastante. Ubiratã Muniz da Silva (Bira) |
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