Curiosidade


A arte de batizar um automóvel

Marcas como a Alfa Romeo (à direita o 156) utilizam números em vez de nomes, mas isso
não evita problemas como o que a Volvo teve com os S e V40 (à esquerda)

Encontrar o nome certo não é simples como parece:

envolve estudos, pesquisas de opinião e muita criatividade

 


Texto: Fabrício Samahá



Embora possa parecer uma tarefa simples, dar nome a um novo modelo de automóvel é algo considerado muito complexo pelos fabricantes. Após investir centenas de milhares de dólares num projeto, nada seria mais trágico que condenar um lançamento pelo emprego de uma denominação inadequada.

Nomes ligados a esportes, como Golf, são uma tradição na Volkswagen


Batizar um novo carro envolve garimpagem em enciclopédias e em outros idiomas, pesquisas de opinião, estudos junto a registros de patentes, análises de marketing... e bastante criatividade. Quantum, por exemplo, vem do latim e significa quantidade, volume; passa a idéia de amplo espaço. Escort é acompanhante em inglês e Tempra quer dizer temperamento, garra em italiano. Opala, conta-se, veio da fusão de Opel (Rekord, do qual tinha a carroceria) com Impala (que lhe emprestava a mecânica), além de ser uma pedra semipreciosa. O Boxster da Porsche une boxer, do motor, a roadster, do tipo de veículo. E Vivio, da Subaru, é sua cilindrada em algarismos romanos: VI-VI-O, ou 660 cm3.

De acordo com a Fiat, o nome de um automóvel deve ser curto, de fácil pronúncia e rápida assimilação pelo público. O nome Siena exigiu longa negociação com a prefeitura da cidade italiana, que pedia um pagamento para o uso do nome. A escassez de marcas é uma das razões para que batismos antigos, com décadas de mercado, atravessem gerações de automóveis. A Opel usava Kadett em seu modelo médio desde antes da Segunda Guerra, quando convinha homenagear os militares na Alemanha. Civic, da Honda, e Corolla, da Toyota, vêm desde os anos 60. E a Ford européia ressuscitou nomes de antigos modelos norte-americanos para denominar o van Galaxy - com pequena alteração na grafia - e o utilitário Maverick.

Encontrar uma boa denominação é tão difícil que surge espaço para profissionais especializados nessa arte, como o alemão Manfred Gotta, criador dos nomes Corrado (da Volkswagen) e Vectra, derivados de correr e vetor. Outra tendência é a de palavras geradas em computador, sem significado, como Jetta (o Golf três-volumes nos EUA) e Lexus (divisão de luxo da Toyota).

Na busca por novas denominações os fabricantes inspiram-se nos mais diversos temas. Há os nomes de animais, como Viper (víbora); Jaguar; Miúra (touro feroz), no fora-de-série nacional e também num antigo Lamborghini; Cobra, da AC inglesa; Impala (mamífero africano), da GM; Colt (potro), da Mitsubishi; e Puma. A Ford adotou vários deles: Mustang, Corcel, Falcon, Cougar (puma)e Pinto (cavalo malhado) - este, por motivos óbvios, não usado no Brasil. Também existem nomes de armas como Dart (dardo), da Dodge; Tracer (uma bala luminosa), da Mercury; ou LeSabre, da Buick. De aviões, como Stealth (o caça invisível aos radares), Mirage ou Concorde, todos da Chrysler. De embarcações, como Saveiro, da VW, e Jangada, da Simca. E militares, como Kadett e Kapitan, da Opel; Patrol, da Nissan; Trooper, da Isuzu; ou Ranger (soldado de tropa de choque), da Ford.

Nomes de esportivos evocam agressividade: Prowler é o que fica à espreita


Há também nomes aristocráticos, como Del Rey, da Ford; Diplomata, da GM; Prince (príncipe), da Daewoo; Crown (coroa), da Toyota; Consul, da Ford; Imperial, da Chrysler; e Itamaraty, da Willys. Indígenas, como Carajás e Xavante, da Gurgel; Cherokee, da Jeep; e Pontiac (chefe de uma tribo americana, neste caso denominando toda uma marca e não apenas um modelo). Nomes ligados à astrologia ou astronomia, como Astra, Mercury, Taurus, Polara, Orion (o Escort de três volumes) e Eclipse. E à mitologia, como Apollo, o deus grego da beleza, e Clio, uma de suas musas. Nomes de lugares talvez sejam os mais comuns: Monza, Parati, Interlagos (esportivo da Willys), Brasília, Verona, Ipanema, Versailles, Monte Carlo (da GM americana), Pampa, Marajó, Elba, Florida (modelo da Yugo na Iugoslávia), Dakota, além dos Seat Marbella, Ibiza, Cordoba, Toledo e Alhambra.

Algumas marcas descobrem filões que são aproveitados por longo tempo. A Volkswagen usou vários nomes ligados a esportes: Polo, Golf, Derby (antiga versão sedã do Polo) e também o nosso Gol. Também batizou diversos modelos com nomes de ventos: Scirocco (vento do deserto), Passat (sopra no norte da Europa)e Santana (um vento quente da Califórnia). Já os Honda têm freqüente ligação com a música: Accord, Prelude, Concerto e Ballade (balada), o Civic sul-africano. A italiana Lancia prefere letras do alfabeto grego, como Beta, Delta, Kappa ou Zeta.

A escolha deve levar em conta o tipo de veículo. Nomes de modelos urbanos sugerem dimensões compactas, como Micra, da Nissan; Towner, da Asia; Minica, da Mitsubishi; e o antigo Morris Minor inglês. Os de esportivos expressam agressividade: Prowler (o que fica à espreita), da Plymouth; Talon (garra), da Eagle; Diablo, da Lamborghini; Syclone e Storm (tempestade), da GM. Já num utilitário deve-se evocar aventura, como os nomes em inglês Explorer e Expedition, da Ford; Discovery (descobrimento), da Land Rover; Montaineer (alpinista) e Villager (habitante de aldeia), ambos da Mercury; e Pathfinder (o que acha o caminho), da Nissan.

O batismo de um automóvel às vezes reserva surpresas para seu fabricante: um nome inadequado pode gerar desastrosos apelidos (veja quadro). É para evitar isso que se fazem pesquisas de opinião antes da escolha final. A GM descartou para a Marajó o nome Parati (houve quem argumentasse: "Lembra pinga!"), que acabou denominando um concorrente de sucesso. A própria Parati quase saiu como Angra, nome abandonado pela possível ligação com a usina nuclear, com algo que pode explodir.

Nomes de animais são muito comuns, como o Puma da Ford


Também há casos em que uma denominação bem-aceita no mundo todo sofre restrições em um mercado específico. O Monza rodava na Europa como Ascona, mas a GM temeu que o nome sugerisse asco aos brasileiros. O Kadett nacional quase se chamou Astra, nome já usado na versão inglesa da época, mas mudou-se de idéia quando se constatou ser uma marca de acessórios sanitários. E a Kia, depois de correr o risco de manter aqui o nome Besta, optou por chamar de Clarus o sedã que é vendido no exterior como Credus.

Para simplificar as coisas, muitas marcas optam por siglas, números e códigos para identificar seus modelos. É assim com Mercedes, BMW, Ferrari, Audi, Peugeot e Saab, entre outras. Isso poupa tempo e dinheiro, mas não evita problemas: a Alfa Romeo teve de rebatizar o 164 para vendê-lo em Cingapura, pois na numerologia local 164 significa "morte no decorrer de uma viagem". Trocou o número por 168, que indica "prosperidade durante toda a viagem". Da mesma forma, podem ocorrer disputas por patentes: a Volvo foi obrigada, já com automóveis nas ruas, a alterar a sigla S4, já utilizada pela Audi. O sedã tornou-se S40 e a perua, antes batizada F4, ganhou a sigla V40. Nada de F40, como seria natural, para evitar um confronto com a Ferrari.


NOMES INADEQUADOS GERAM APELIDO

A escolha infeliz do nome pode render ao modelo um desastroso apelido. Isso aconteceu com o Nova, da GM americana, quando exportado para o México: separadas as sílabas, o nome era lido como "no va", que em espanhol significa "não vai", isto é, não tem força. Caso similar foi o do SP-2, lançado pela VW nos anos 70. O fraco desempenho levou o público a traduzir a sigla não como Sport-Protótipo, mas como "Sem Potência". Mais recente (1989) foi a surpresa da Ford: após analisar mais de 100 opções para o Verona, um jornalista ironizou que o nome sugeria "sapatão", isto é, um aumentativo de Vera...



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