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“Preparei-me a
participar do Brazil Classic Fiat Tour 2003, atrativo rali com
veículos com mais de 25 anos de uso, perpassando as históricas cidades
das Minas Gerais. Obrigação de qualquer antigomobilista aderir à idéia
— afinal, primeira iniciativa do gênero, variante nacional das famosas
Mille Miglia Storica, e chancelada pela Federação Internacional de
Veículos Antigos.
Defensor da preservação dos nacionais antigos, separei o de rodar mais
agradável, o FNM 2000, versão TIMB, de 1968, 62 mil quilômetros desde
novo, submetida a ampla revisão de conferências. O automóvel
participara da inauguração da belíssima ponte do Lago Sul, em
Brasília, e recém-premiado como um dos 10 Melhores no Carro do Brasil,
evento exclusivo aos nacionais antigos.
Revisado, seguiu em caminhão-cegonha para Belo Horizonte. Lá, foi
lavado e polido à noite, teve os líquidos conferidos no posto Ale da
rua do Ouro — serviço atencioso e os banheiros mais limpos que já vi
no ramo.
Dia seguinte, alinho na Praça da Liberdade, número 36 dentre os 41
participantes. Mesclavam-se Fords A, incluindo raro Coupé Cabriolet,
Dodge, Studebaker do final da década de 20, a exemplares como Ferrari
Dino GT, Rolls-Royce Phantom, Hudson Hollywood, o único do país;
Packard roadster 1937; Corvette 1960; Mercedes SL 280; Alfas
GTV preparadas a ralis no Mercosul; dois Mercedes SLR — os mais caros,
raros e reverenciados. Nacional, só mais um, Corcel 1977.
Largada a cada minuto, pelo ministro dos Esportes e mineiro Walfrido
Mares Guia. A 10 minutos da saída, o TIMB, cujo motor aquecia e
carregava a bateria, morreu. O Paulo, mecânico de mão-cheia e
soluções, correu, mexeu, trocou a bobina, e nada. Mais tentativas,
tempo correndo, o rali partiu. Engenheiros da Fiat, Robson Cotta e
Guilherme Matheus, mostrando que não entendem só de centralina e
injeção eletrônica, abriram caixas de ferramentas tiradas do bolso do
colete em operação salvação.
Descobriram o platinado derretido na base e na fibra de contato.
Compras no feriado, carro funciona, bobina volta a aquecer. Nova
inspeção e chega-se a defeito atípico, mas típico de veículo antigo em
evento: a chapa defletora de calor aposta sobre o motor de arranque
afrouxara-se, fechando contato com os fios da partida, jogando forte
amperagem na ignição. Caso resolvido, pé na estrada: tanque completo
com gasolina premium, aditivo para octanagem, óleo 2 tempos
para proteger sedes e guias de válvulas contra o álcool; aditivo
limpador de carburador — e o motor morre: o platinado se fechara.
O pessoal da Fiat, patrocinadora do evento, mandara um Doblò me
comboiar. Achei que Allah, clemente e misericordioso, me sugeria um
rali turístico. Fui de Doblò. O TIMB, para a concessionária Strada.
Rali na frente correndo bem, cheguei a Tiradentes depois de todos os
participantes. Nos outros, panes bobas. Sexta, viagem a Prados,
igualmente histórica e o ponto alto de um inimaginado espírito
antigomobilista: as crianças aplaudiam os antigos — e vaiavam os
novos.
No hotel, surpresa: a engenharia da Fiat arranjara os parâmetros de
regulagem e acertara ignição e carburação do TIMB, enviando-o a
Tiradentes. Sábado, excitado, nem prestei atenção aos 8 graus de
temperatura. Passei rápida água no automóvel, liguei-o, funcionou
alegremente, aqueci, saí. Os 131 cv relincharam de alegria quando
cambiei as quatro primeiras marchas a 5.600 rpm, limpando o motor,
troando na manhã nascente e fendendo a neblina.
Relincharam de volta quando usei o motor para detê-lo, pois o freio só
operava após a décima bombada. O mesmo Paulo descobriu uma fenda na
pinça dianteira esquerda. Bloqueou-a. Mais vale um carro com freio em
três rodas do que faltar carro. Nova sangria e desta vez quem vazou
foi o cilindro-mestre. A esta altura Allah já estava gritando comigo.
Chamei uma plataforma e mandei o TIMB embora, assumi-me observador, a
bordo do Doblò.
Não estava só nas panes. Um Mustang conversível perdera o freio e Hugo
Pichioni substituíra por um Mercedes 220. O Ferrari GTS bloqueou os
freios; o Rolls teve pane elétrica; o Packard perdera a segunda
marcha, e o Mercedes Pagoda, o hodômetro — por incrível que pareça a
dupla Boris e Luiz Feldman errou pouco, utilizando apenas o olhômetro.
Neste sábado, um trecho formidável, a Estrada Real, asfaltada após 300
anos, a estalagem onde se reuniam Tiradentes e Inconfidentes; uma
serra competente, a histórica Ouro Branco, e finalmente, Ouro Preto.
Dia seguinte, Mariana, com seu preservado casario, o monumental órgão
da Matriz e seu museu.
Como resultado, venceram Wanderley Natali, com Alfa GTV; Leonardo
Gouvêa de Corvette 60 e seu irmão Nelson, em Porsche 911 Targa 73.
Resultado adicional, a certeza que o rali histórico criou um novo tipo
de evento antigomobilístico no país, mesclando habilidade mínimas de
navegação, com o usar dos antigos e o convívio com conhecidos e amigos
do hobby. Foi um daqueles eventos que ao final, os participantes sabem
que os não-participantes, os pouca-prática de visão restrita, sabem
exatamente o que perderam.
Daqui a dois anos haverá outro. Allah, clemente e misericordioso
inspirará os mecânicos que cuidam do meu carro. Ah, o Doblò é
formidável, especialmente quando dirigido pelo paciente Wagner."
Continua |