O panorama do inferno

Conduzir um veículo do ponto A ao ponto B será tenso, e o prazer
da direção será ofuscado pela quase certa sanção pecuniária

por Roberto Agresti

No último fim de semana tive a chance de mostrar um pedacinho de nosso país a um casal de "gringos" recém-chegados da Europa. Em primeira visita, ávidos por ver e saber, gente esperta que "fez a lição de casa" lendo antes da viagem guias sobre o grande "Brazil", os levei — de comum acordo — a Paraty, a colonial cidade do sul do estado do Rio de Janeiro.

Partindo de São Paulo, escolhi descer a serra pela rodovia dos Tamoios e seguir pela bela estrada costeira que margeia um pedaço de litoral de encher os olhos, com o intenso verde das montanhas beijando o azul do mar. Adoraram tudo: Paraty, as praias, a comida e o povo simpático.

Na volta, elegantemente, um discreto comentário foi dirigido à dificuldade que eu estava tendo para a ultrapassagem de veículos mais lentos, cujos motoristas insistiam em se plantar à esquerda em rodovia de pista dupla. Expliquei a meus amigos estrangeiros que era assim mesmo: facilitar a ultrapassagem em nossas estradas é algo raríssimo, nada habitual.

"E por quê?", perguntaram.

Diante da questão, enfileirei uma série de motivos, quase um tratado filosófico ou tese de doutorado, sobre qual seria o motivo da resistência a ceder espaço ao veículo que se aproxima em maior velocidade. Ao cabo de minha longa explanação, me senti um prolixo, pois bastaria responder "má educação" ou "ignorância". Daria na mesma.

Quem guiou na Europa sabe que, lá, a faixa da esquerda é deixada sempre livre justamente para a ultrapassagem. Uma vez realizada, os condutores retornam à pista da direita. É básico o preceito e há menção a esse importante procedimento em nosso código. Mas o respeito a isso é, como se sabe, lamentavelmente raro.

Um conhecido, pessoa pela qual tinha excelente conceito (até então...), certa vez revelou que andava pela faixa da esquerda sempre, pois o asfalto era melhor — o que é um fato na maioria de nossas estradas, pelo menor tráfego de caminhões por ali —, mas JAMAIS dava passagem, pois seguia rigidamente no limite de velocidade estabelecido para a via. Assim sendo, "se alguém está querendo me passar, está em velocidade acima da lei, e por isso não dou passagem". Desnecessário dizer o quanto tal sujeito caiu no meu conceito, e o quanto tentei — infelizmente sem resultados — fazê-lo entender a burrada que cometia assim agindo.

Eu, você e qualquer um que tenha a CNH sabemos bem o quanto os procedimentos para que sejamos aprovados para assumir o volante ou guidão de um veículo, aqui no Brasil, são pouco efetivos. Aqui os motoristas aprendem na marra a dirigir. E como em geral se dirige mal, aprendem mal, aprendem errado.

Leviandade
Há pouco mais de 50 anos nasceu nossa indústria automobilística e com ela veio, devagarinho, a disseminação do transporte individual. Com a melhoria do poder aquisitivo de meados dos anos 90 para cá, vieram a popularização do automóvel e a enorme expansão de nossa frota — e de novos motoristas nas ruas e estradas. Por conta disso, é duro digerir a leviandade com a qual o ensino e o respeito a regras de trânsito continuam sendo tratados em todas as esferas.

Paulistano, estou pasmo em ver a campanha da municipalidade incitando os motoristas ao respeito da faixa de pedestres, usando expressões como "agora dá multa não respeitar a faixa". Como assim, "agora"? Sempre foi, não foi? É claro que a campanha tem finalidade louvável, mas expõe a evidente ignorância que existe: o que deveria ser senso comum necessita de uma campanha de TV, para contornar má educação e ensinar que é errado o que todos deveriam saber ser errado — não respeitar a faixa de pedestres!

Todavia, é assim mesmo. Será a multa, e não a consciência de que é errado, o que fará paulistanos prestarem atenção ao pedestre em seu sagrado direito de atravessar a via na faixa e respeitá-lo, pois não parece haver a capacidade de fazer a massa de motoristas respeitar, de maneira natural, regras escancaradamente óbvias.

Já pagamos caro por esse procedimento burrão mal educado, e literalmente, em suados reais, sustentando não apenas caras campanhas de TV, que ensinam o que todos deveriam já saber, mas também essa festa arrecadatória promovida pela instalação de câmeras associadas a radares que infestam nossas cidades. A sanha era voltada para o excesso de velocidade; na sequência, a tecnologia ofereceu a possibilidade da detecção do desrespeito ao semáforo. Em São Paulo elas leem as placas e identificam veículos que desrespeitam o rodízio municipal. Em breve, vão pescar os carros que não cumpriram controle de emissões e pagamento de licenciamento e IPVA, entre outros desvios.

Está assim esboçado o panorama do inferno, onde, sem perdão nem dó, todos pagaremos pelos erros de todos. Onde a ação de se deslocar do ponto A ao ponto B conduzindo um veículo resultará tensa por outras razões, que não a gestão da máquina em si. Onde o eventual prazer decorrente da direção será ofuscado pela quase certa sanção pecuniária.

E mereceremos, pois, levianos, deixamos a má educação, a ignorância chegar ao poder. Estabeleceu-se um estado de distorcido direito no qual só a brutalidade da punição financeira, que se acumulando levará a suspensão do sagrado direito de ir e vir (tomarão sua CNH...) por tempo determinado, será capaz de fazer a massa crescente de motoristas cumprir seus deveres.

É duro digerir como o ensino e o respeito a regras de trânsito continuam sendo tratados em todas as esferas

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Data de publicação: 15/10/11

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