|
No
último fim de semana tive a chance de mostrar um pedacinho de nosso
país a um casal de "gringos" recém-chegados da Europa. Em primeira
visita, ávidos por ver e saber, gente esperta que "fez a lição de
casa" lendo antes da viagem guias sobre o grande "Brazil", os levei
— de comum acordo — a Paraty, a colonial cidade do sul do estado do
Rio de Janeiro.
Partindo de São Paulo, escolhi descer a serra pela rodovia dos
Tamoios e seguir pela bela estrada costeira que margeia um pedaço de
litoral de encher os olhos, com o intenso verde das montanhas
beijando o azul do mar. Adoraram tudo: Paraty, as praias, a comida e
o povo simpático.
Na volta, elegantemente, um discreto comentário foi dirigido à
dificuldade que eu estava tendo para a ultrapassagem de veículos
mais lentos, cujos motoristas insistiam em se plantar à esquerda em
rodovia de pista dupla. Expliquei a meus amigos estrangeiros que era
assim mesmo: facilitar a ultrapassagem em nossas estradas é algo
raríssimo, nada habitual.
"E por quê?", perguntaram.
Diante da questão, enfileirei uma série de motivos, quase um tratado
filosófico ou tese de doutorado, sobre qual seria o motivo da
resistência a ceder espaço ao veículo que se aproxima em maior
velocidade. Ao cabo de minha longa explanação, me senti um prolixo,
pois bastaria responder "má educação" ou "ignorância". Daria na
mesma.
Quem guiou na Europa sabe que, lá, a faixa da esquerda é deixada
sempre livre justamente para a ultrapassagem. Uma vez realizada, os
condutores retornam à pista da direita. É básico o preceito e há
menção a esse importante procedimento em nosso código. Mas o
respeito a isso é, como se sabe, lamentavelmente raro.
Um conhecido, pessoa pela qual tinha excelente conceito (até
então...), certa vez revelou que andava pela faixa da esquerda
sempre, pois o asfalto era melhor — o que é um fato na maioria de
nossas estradas, pelo menor tráfego de caminhões por ali —, mas
JAMAIS dava passagem, pois seguia rigidamente no limite de
velocidade estabelecido para a via. Assim sendo, "se alguém está
querendo me passar, está em velocidade acima da lei, e por isso não
dou passagem". Desnecessário dizer o quanto tal sujeito caiu no meu
conceito, e o quanto tentei — infelizmente sem resultados — fazê-lo
entender a burrada que cometia assim agindo.
Eu, você e qualquer um que tenha a CNH sabemos bem o quanto os
procedimentos para que sejamos aprovados para assumir o volante ou
guidão de um veículo, aqui no Brasil, são pouco efetivos. Aqui os
motoristas aprendem na marra a dirigir. E como em geral se dirige
mal, aprendem mal, aprendem errado. |
|
Leviandade
Há pouco mais de 50 anos nasceu nossa indústria automobilística
e com ela veio, devagarinho, a disseminação do transporte
individual. Com a melhoria do poder aquisitivo de meados dos anos 90
para cá, vieram a popularização do automóvel e a enorme expansão de
nossa frota — e de novos motoristas nas ruas e estradas. Por conta
disso, é duro digerir a leviandade com a qual o ensino e o respeito
a regras de trânsito continuam sendo tratados em todas as esferas.
Paulistano, estou pasmo em ver a campanha da municipalidade
incitando os motoristas ao respeito da faixa de pedestres, usando
expressões como "agora dá multa não respeitar a faixa". Como assim,
"agora"? Sempre foi, não foi? É claro que a campanha tem finalidade
louvável, mas expõe a evidente ignorância que existe: o que deveria
ser senso comum necessita de uma campanha de TV, para contornar má
educação e ensinar que é errado o que todos deveriam saber ser
errado — não respeitar a faixa de pedestres!
Todavia, é assim mesmo. Será a multa, e não a consciência de que é
errado, o que fará paulistanos prestarem atenção ao pedestre em seu
sagrado direito de atravessar a via na faixa e respeitá-lo, pois não
parece haver a capacidade de fazer a massa de motoristas respeitar,
de maneira natural, regras escancaradamente óbvias.
Já pagamos caro por esse procedimento burrão mal educado, e
literalmente, em suados reais, sustentando não apenas caras
campanhas de TV, que ensinam o que todos deveriam já saber, mas
também essa festa arrecadatória promovida pela instalação de câmeras
associadas a radares que infestam nossas cidades. A sanha era
voltada para o excesso de velocidade; na sequência, a tecnologia
ofereceu a possibilidade da detecção do desrespeito ao semáforo. Em
São Paulo elas leem as placas e identificam veículos que
desrespeitam o rodízio municipal. Em breve, vão pescar os carros que
não cumpriram controle de emissões e pagamento de licenciamento e
IPVA, entre outros desvios.
Está assim esboçado o panorama do inferno, onde, sem perdão nem dó,
todos pagaremos pelos erros de todos. Onde a ação de se deslocar do
ponto A ao ponto B conduzindo um veículo resultará tensa por outras
razões, que não a gestão da máquina em si. Onde o eventual prazer
decorrente da direção será ofuscado pela quase certa sanção
pecuniária.
E mereceremos, pois, levianos, deixamos a má educação, a ignorância
chegar ao poder. Estabeleceu-se um estado de distorcido direito no
qual só a brutalidade da punição financeira, que se acumulando
levará a suspensão do sagrado direito de ir e vir (tomarão sua
CNH...) por tempo determinado, será capaz de fazer a massa crescente
de motoristas cumprir seus deveres. |
É duro digerir
como o ensino e o respeito a regras de trânsito continuam sendo
tratados em todas as esferas |