O recall nosso de cada dia

Essa palavra invadiu nosso vocabulário cotidiano, e não só: mais
cedo ou mais tarde, se nada mudar, seremos todos atingidos

por Roberto Agresti

Rodas que se soltam, aceleradores que travam, fogo no motor. A indústria há alguns anos vive um pesadelo que introduziu uma palavra que até o Zé, balconista da padaria aqui da esquina, conhece atualmente: recall.

Conhece porque ouve as conversas dos clientes e ouviu falar do carro da esposa do patrão que, novinho, novinho, voltou para a concessionária trocar não se sabe o quê. De graça. Mas o pão-duro do Manuel, o patrão, ficou bem irritado com isso. Zé, sem saber, conhecia esse tal de recall desde que começou na padaria. O cliente pedia para o pão voltar à chapa para dourar mais a manteiga? Recall! O pedaço de pizza tem um cabelo grudado no queijo? Recall! Imediato, sem discussão.

O Brasília 1976 de Zé precisaria de um recall integral, pois nada mais presta. Queima óleo, arranha marchas, chove dentro... Quando pensa nele, nos IPVAs e licenciamentos atrasados, e ainda naquela tal de inspeção que seu vizinho mecânico disse que nem nascendo de novo o Brasília passa, Zé pensa na oferta do cunhado: 10 cheques de 100 reais e... adeus, Brasília.

Quando surgiu, há 34 anos, o Brasília de Zé era um carrão, sonho dos garotões e garotinhas recém-habilitados, das jovens senhoras, dos profissionais em início de carreira. O Brasília era admirado. Um confiável Fusca, mas com espaço interno amplo, linhas angulosas, um bom porta-malas na frente. Vendeu como água e do tal recall, ou algo semelhante, ninguém ouviu falar. A formula de usar uma mecânica arquitestada vestida por uma carroceria revolucionada foi genial e a Volkswagen atravessou anos tranquila, vendendo, agradando, faturando. E sem recall.

Seriam os carros do passado perfeitos, isentos de problemas? Não. Que eu me lembre, entrava água nos Brasílias pela entrada de ar junto ao para-brisa, molhando o pé do motorista. Nos anos pioneiros da indústria, talvez coubessem recalls cá e acolá. Um tio que comprou um Simca 1964 e o vendeu meses depois achava o carro lindo, mas reclamava da parte elétrica. Trocava fusíveis um dia sim, outro também. Um amigo do meu pai chiava por causa de seu Gordini, dizendo que o apelido "Leite Glória" era um fato. Explicando: o slogan do leite era "desmancha sem bater"...

Mais adiante no tempo, nove entre 10 Fiats 147 tinham câmbio impreciso e problemático (nove porque o do meu pai, um modelo 1977 que herdei ao fazer 18 anos, tinha um câmbio perfeito). E falando da frota de casa me lembrei do Fuscão 1972. O bicho "falava" alto com seu motor de 1.500 cm³ e tinha uma aparência forte, por conta de sua bitola traseira larga. Só que apresentou ferrugem em seis meses. E em nenhum momento meu pai falou em procurar a concessionária ou a própria VW, preferindo pagar ao funileiro pelos remendos. Enferrujar no prazo de garantia mereceria recall, não?

Refletindo sobre a frequência com a qual as fábricas atuais chamam de volta os veículos para alterar ou consertar o que pode dar defeito ou está dando defeito, penso que esse mal de nossos tempos tem a ver, obviamente, com os prazos cada vez mais curtos que separam a concepção de um veículo na tela do computador e sua entrada em produção. Quase escrevo "prancheta" em vez de "computador", velho que sou. E talvez haja um saudosista que aponte os sistemas Cad-Cam e seus assemelhados, ferramentas preciosas no desenvolvimento, como os culpados pelos problemas.

Neste ponto, eu freio forte: não, em definitivo, computadores e sistemas de informática e robótica aplicados a projetos e construção de carros só trouxeram melhorias aos produtos. O problema do qual decorre o recall deve ser buscado em outra seara. Mas qual?

Faltam testes?
Vamos às hipóteses: será que em decorrência de computadores que simulam modos de utilização por meio de modelos matemáticos, algoritmos, etc., aquela importantíssima tarefa que é o teste de campo não estaria sendo reduzida a ponto de causar problemas por... falta de testes práticos? Penso na Fórmula 1, no Williams de Ayrton Senna indo reto na Tamburello. Penso também no Airbus da Air France, aquele cuja caixa preta ninguém achou, e na Challenger que explodiu feito morteiro de festa junina matando seus astronautas.

Será que os caras que projetam os carros de F-1, os Airbus ou os ônibus espaciais não fizeram seu serviço direito? Não aplicaram todo o conhecimento que tinham para minimizar a chance de defeitos graves? Lógico que sim. Todavia, cada uma dessas áreas
a artesanal fabricação de um carro de F-1, a poderosa indústria aeronáutica e a Nasa trabalha com tolerâncias muito estreitas e, em específico no caso da indústria de aviões, regida por um exaustivo programa de testes que jamais permite queimar etapas em nome de prazos até a definitiva homologação. Ou pelo menos é isso que chega a nossos ouvidos, quando sabemos que a mesmíssima Airbus perdeu montanhas de Euros por ter retardado uma ou duas vezes o vôo inaugural de seu mais recente avião, o gigante A-380, certo?

Temo que na indústria do automóvel, em que pesem os recentes desastres envolvendo marcas tidas como confiáveis
cujo maior exemplo é a Toyota , além dos testes de campo estarem sendo restringidos em nome do "deus prazo", esteja sendo exacerbado outro grande inimigo da confiabilidade e da qualidade: o barateamento dos componentes, com consequente queda da vida útil.

Usarei um exemplo caseiro que vai fazer rir alguns de vocês
riso de escárnio, bem entendido, e não riso de alegria. É meu Puma de corrida, ano 1979. Pois bem: sempre que o motor do Puma (um preparado Volkswagen 1.600, o clássico quatro-cilindros contrapostos refrigerado a ar) é aberto para uma revisão após duas ou três corridas, se apresenta o mesmo problema, conseguir peças. Como assim? Falta peça de motor "a ar" de VW? Não! O que falta é a peça da boa.

Vejam os exemplos. Bronzina ou casquilhos têm que ser os antigos, da Metal Leve. E por antigos quero dizer novos, mas fabricados nos anos 70 ou 80... Quer outra? Virabrequim, o mecânico foi pescá-lo num desmanche. "Mas por que usado? Não tem novo nas lojas de autopeças?", perguntei bestamente, para ouvir: "Tem, mas não presta, pois não é forjado como os de antigamente". Ok, Ok... Quer mais? Tambores do freio traseiro devem ser também garimpados em ferro-velho, já que os que estão nas prateleiras das concessionárias, segundo os preparadores dessa categoria mumificada do automobilismo, "quebram e o estriado fica banguela". Sei, sei.

Pano rápido, vamos à linha de montagem de um desses reluzentes carros que vemos nas concessionárias, cujo tempo de gestação, como dito, é cada vez mais estreito. Será que a bronzina, o virabrequim, o cubo de roda (olá, Stilo!), o semieixo, o rolamento de roda são feitos visando à excelência de engenharia ou ao arriscado equilibrismo entre vida útil e economia de material? Precisa responder?

Lendo o escrito acima, parece que condeno tudo aquilo que há de zero-quilômetro. Nada disso: o que acho
e acho mesmo é que, cada vez mais, os carros são objetos descartáveis e isso não deixa de ser correto. É inegável que os carros atuais sejam melhores do que os de 30, 20 ou mesmo 10 anos atrás. Assim, para que mesmo fazê-los indestrutíveis, capazes de atravessar décadas, rodar um milhão de quilômetros sem abrir o motor, se hoje as pessoas gostam de trocar de veículo a cada dois anos e parcos 20 mil km rodados?

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: automóveis descartáveis, com sua menor vida útil e consequente reciclagem de seus componentes, podem ser fatores positivos para o meio ambiente e todos nós. Mas eles não podem travar o acelerador, perder rodas e nem pegar fogo do nada. Descartáveis, sim, mas confiáveis, decentes, honestos..

E assim sendo, talvez o Zé, aquele da padaria, tenha mais motivos para aceitar a oferta do cunhado e deixar de andar de Brasília 1976.

Temo que, além dos testes de campo mais restritos, esteja sendo exacerbado outro grande inimigo da confiabilidade e da qualidade: o barateamento dos componentes.

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Data de publicação: 26/6/10

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