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Pelas estreitas vielas das centenárias cidades de Portugal fiquei a
observar o vai-e-vem dos inúmeros Fortwos, o pequenino Smart — marca
da alemã Daimler, o fabricante dos Mercedes-Benz — que conquistou o
velho continente ao trazer uma divertida, pequena, econômica e
revolucionária forma de mobilidade urbana sobre rodas. Em termos
técnicos, além da nem tão inédita capacidade para dois, não há nada
de revolucionário no pequeno Fortwo. Óbvio, há um desenho
diferenciado, atemporal — e nada mais. Mas, como em toda marca de
sucesso, há uma boa história sendo contada.
Boas marcas nada mais são que histórias bem contadas. Narrativas
coesas, que entregam respostas diretas aos dilemas dos mais diversos
tipos de pessoas. Em última análise, as marcas às quais você nutre
empatia são aquelas capazes de responder às perguntas da mesma forma
que você as responderia. Os simpatizantes da Smart são aqueles
consumidores que acreditam que um carro pequeno, inteligente e
diferenciado é a solução ideal para a mobilidade urbana nos grandes
centros, como as apertadas capitais europeias. Essa teoria da
empatia entre as respostas é que transformou o Smart Forfour no
imenso fracasso que foi.
Talvez
hipnotizada pelo grande êxito que o pequenino Fortwo obteve, os
executivos da Smart decidiram tentar uma empreitada diferente,
oferecendo um novo hatch trivial — na velha receita do compacto de
cinco portas para quatro ocupantes, em vez de apenas dois.
Compartilhando plataforma com outro compacto, o Mitsubishi Colt, as
concessionárias Smart passaram em 2004 a oferecer a novidade. De tão
baixas, as vendas e a produção tiveram de ser interrompidas
precocemente em 2006, apenas dois anos depois.
Creio
que o que fez o Smart Forfour (foto) afundar não foram suas
características como produto em si, mas sim a dissonância entre o
discurso da marca e as respostas que seus fãs nele buscavam.
Quem nasceu dizendo que a solução urbana estava em carros
pequeninos, que levavam só o motorista e um acompanhante, consumiam
pouco e emitiam um mínimo de poluentes, decepcionou ao entregar mais
do mesmo como uma novidade. Era como se uma marca paladina da comida
saudável passasse a vender sanduíche de bacon. Educadamente o
mercado deu seu recado, entendido pela marca, que logo corrigiu o
percurso.
De certo modo, a mesma Daimler passara por isso com outra de suas
marcas, alguns anos antes. A ideia de oferecer em um pacote compacto
os atributos reconhecidos de um Mercedes-Benz, como solidez,
segurança, conforto e qualidade de engenharia e de construção, levou
em 1997 ao Classe A. Sua primeira geração ficou longe das
expectativas de vendas do fabricante, o que não se pode atribuir
apenas ao fracasso inicial no "teste do desvio de um alce" (a prova
de manobra evasiva da revista sueca Teknikens Värld fez
o pequeno Mercedes capotar).
A forma bem conduzida como a empresa tratou o problema, ao redefinir
diversos parâmetros do carro e convocar os primeiros proprietários
para aplicar as mesmas evoluções, certamente contribuiu para que sua
imagem de qualidade fosse preservada. Mesmo assim, o Classe A vendeu
pouco. O que teria acontecido? O mais provável é que o cliente
tradicional da marca não tenha visto nele uma alternativa mais
econômica, prática ou acessível aos sedãs habituais, enquanto
compradores de outras marcas podem não ter se convencido a adotar a
estrela. |
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Discurso e atitude
Enquanto isso, BMW e Audi colheram os frutos de apostar em
hatches médios — o Série 1 e o A3 — que seguiam fielmente aquilo que
elas aplicam aos modelos maiores, até mesmo em termos de estilo, ou
seja, a atitude era coerente com o discurso. Os dois carros foram
bem-sucedidos e sua essência se mantém nas novas gerações
apresentadas este ano, a segunda para o BMW e a terceira do Audi.
No outro extremo do mercado, aconteceu o oposto do Classe A: uma
marca que habituou o mundo a ver seus carros como simples,
eficientes e populares buscou alçar voo para um segmento de topo. O
Volkswagen Phaeton, que dividia muitos componentes mecânicos com o
Audi A8, nunca alcançou sucesso em um de seus mercados-alvo, os
Estados Unidos, de onde foi retirado após meros dois anos de vendas
ínfimas, embora tenha boa aceitação na própria Alemanha.
Por outro lado, um modelo no qual muitos viam fracasso certo
mostrou-se um grande acerto de decisão: o Porsche Cayenne, lançado
em 2003. O que se viu ali, mais uma vez, foi a sintonia entre o
discurso da marca — focado em esportividade e desempenho — e o que o
lançamento oferecia dentro de seu segmento, o dos utilitários
esporte. De resto, a empresa de Stuttgart percebeu que muitos dos
compradores de seus esportivos tinham também um SUV: havia uma
lacuna em sua linha que poderia ser bem preenchida. Nove anos
depois, o Cayenne é considerado um dos responsáveis pela saúde
financeira da marca, que já planeja um utilitário esporte menor para
lhe fazer companhia.
Nós encontramos nossas respostas nas narrativas das marcas e, assim
como há grande diversidade de seres humanos, igualmente há grande
diversidade de narrativas. Umas oferecem histórias de emoção, outras
de racionalidade. Cada um escolhe e se associa ao que melhor lhe
convier. Quanto mais longas, consistentes e persistentes forem as
narrativas, mais facilmente uma marca estará posicionada nas mentes
dos consumidores.
A Smart ainda é uma marca nova, que está construindo sua narrativa,
suas respostas aos dilemas da mobilidade. Li ultimamente que andam
planejando o lançamento de outra geração do Forfour para daqui dois
ou três anos. Ao menos que pretendam mudar de nome, não me parece
muito "smart" insistir na repetição de uma lição já aprendida. |
O cliente
tradicional da Mercedes pode não ter visto no Classe A uma
alternativa, enquanto compradores de outras marcas não se
convenceram a adotar a estrela |