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É difícil acreditar quando as fábricas de automóveis dizem que
realizam pesquisas em profundidade com os consumidores. Ou as
pesquisas andam traçando panoramas incorretos (o que é raro, mas não
incomum) ou os consumidores não estão dizendo diretamente onde andam
os problemas dos automóveis de hoje.
É muito frequente ouvirmos da imprensa especializada e dos donos de
carros que o padrão de acabamento empregado hoje em dia vai de mal a
pior. E, a despeito dessas onipresentes vozes, parece não haver
solução para o triste dilema. Vemos a tecnologia automobilística
avançando de maneira sensacional — novos motores, itens de
segurança, a eletrônica usada como uma aliada fantástica —, mas o
capricho nos materiais com que temos contato nos habitáculos parece
piorar cada vez mais.
O acabamento de um automóvel, além de sua perspectiva funcional no
projeto, é um item de apelo na compra. Grande parte dos compradores
pouco sabe ou se interessa pelos aspectos mecânicos ou eletrônicos
de um carro. Na loja, são muito mais suscetíveis ao desenho do
veículo e às partes com as quais têm contato físico, como o desenho
da cabine, sua ergonomia,
equipamentos e materiais empregados em sua construção.
Essa parte do veículo pode ser considerada, a título de metáfora, a
“pele” que tocamos no convívio diário com o carro. O proprietário em
geral mostra com orgulho o bom acabamento de seu carro àqueles que
andam de carona, apontando o belo desenho do painel ou o conforto
dos bancos.
Na contramão, por mais pesquisas que as fábricas façam, o padrão
geral de cuidado com o acabamento só diminui. É claro que carros
mais baratos têm interior mais espartano, enquanto materiais como o
couro e o metal são adotados em carros caros, mas insisto em dizer
que a maior diferença não está no material — e sim no cuidado com
que eles são pensados e montados.
O plástico, por sua versatilidade e preço, é largamente usado no
acabamento de qualquer carro. Mas a forma como vem sendo pensado nas
pranchetas e manufaturado parece transformar os carros de hoje em
brinquedinhos descartáveis, daqueles que compramos no camelô. Custo
a compreender se a diferença de preço é grande demais entre uma
manufatura bem feita e o que é feito hoje — plásticos tortos, com
texturas de gosto duvidoso, rebarbas, encaixes imperfeitos e
parafusos com cabeças afiadas à mostra. |
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Anos desastrosos
Os anos entre 2000 e 2010 foram desastrosos no aspecto
acabamento para a indústria nacional. Uma verdadeira involução, com
todas as fábricas lançando novas versões pioradas. Um dos casos mais
evidentes é o da Chevrolet, que no passado dedicava grande atenção a
esse aspecto — que o diga quem andou nos Opalas e Monzas de outrora.
Tudo que saiu após 2000 foi trágico em cuidado de acabamento. O
Celta lançado naquele ano representou de imediato um choque, tamanha
a falta de capricho com o desenho interno e os materiais adotados.
Foi ganhar uma leve correção apenas no modelo 2007, retornando ao
nível do carro que lhe deu origem, o Corsa de 1994.
A nova geração do Corsa, de 2002, mesmo anos-luz à frente do Celta
em termos técnicos, nada trouxe a mais quando o assunto é cuidado no
acabamento. O decano Classic — da década de 1990 —, se não tivesse
sido despojado sem piedade ano após ano, hoje representaria um
exemplo de capricho para seus pares, mesmo sendo defasado em
projeto. E a situação não é muito melhor quando se sobe de preço
passando a Agiles, Astras, Vectras, Cruzes ou Zafiras.
A Volkswagen, com o Fox em 2003, iniciou um padrão de piora
sistêmica em toda sua linha, acompanhado por um Gol bastante piorado
em 2005. A situação era tão drástica que tanto Fox quanto Gol foram
revistos em acabamento anos mais tarde, com ganhos na reestilização
do Fox e na nova geração do Gol. Veio um pouco mais de capricho em
texturas, desenho do painel de instrumentos e montagem e
revestimento de painéis de portas, tamanha era a regressão das
versões anteriores. Mas o pecado voltou a ser cometido logo em um
segmento mais exigente com o novo Jetta, em 2011.
A Ford iniciou a década da falta de cuidado com o Fiesta feito em
Camaçari, BA, em 2002. Tanto ele quanto o EcoSport demonstraram o
que a redução excessiva de custos pode fazer pelo acabamento de um
carro, ao transformar a tecnologia de hoje em algo que desagrada aos
olhos e ao tato. Logo ela, que nos tempos do Del Rey impressionava
pelo requinte dos interiores! Não escapou da simplificação o Focus
de segunda geração, de 2008, no qual era clara a depreciação de
acabamento em relação ao modelo anterior — sobretudo os do começo da
década.
A Fiat, que nunca brilhou nesse quesito, com a nova geração do Palio
desagradou os consumidores ao finalizar o carro com plásticos e
texturas duvidosas e montagem que deixa bastante a desejar — prova
de que projetos novos nem sempre significam evolução em acabamento.
De resto, do mais simples Mille ao mais caro Linea, é difícil que um
modelo da marca apresente capricho à altura do que custa.
Mais exemplos são fáceis de encontrar, espalhados por todas as
fábricas — até naquelas que vendem carros espartanos a preços de
luxo, como a Honda.
Para encerrar, quero erguer um brinde ao esquecido pedacinho de pano
que outrora cobria as portas de nossos veículos. Ah, como era bom
dirigir e repousar o braço esquerdo naquele tecidinho que cobria o
painel de porta e o apoio de braço... Dava uma sensação de conforto,
de acolhimento, mesmo que sob o capô houvesse um reles motor de 1,0
litro. Parecia que meu carro custava mais.
Queridas fábricas: quanto custa aquele pedacinho de tecido de, no
máximo, um por um? Quanto custa? Diz que eu pago. Essas nossas
portas de plástico inteiriço, rígido e áspero riscam com facilidade
e fazem um barulho danado quando ponho chaves, celular ou a carteira
no porta-mapas. Volta, tecido, volta! Uma mexida mínima, mas que
agregaria um belo valor. Não é possível que as pesquisas não
indiquem isso. |
O Celta
representou um choque, tamanha a falta de capricho com o desenho
interno e os materiais adotados |