Ops! Era segredo?

A onda de "segredos" na imprensa, com carros disfarçados à espera
dos cliques, revela apenas mais uma artimanha mercadológica

por Kleber Nogueira

Desenvolvimento de novos produtos é uma questão vital para qualquer companhia, não apenas do universo automotivo. Nesse último o assunto é ainda mais estratégico, porque desenvolver um novo carro é uma tarefa que envolve investimentos milionários em tecnologia, equipamentos, unidades de produção, capital humano e marketing. Nesse mercado globalizado, rápido, impiedoso em que se joga hoje, erros são fatais.

Se no século passado o ciclo de vida de um carro chegava a durar décadas, pela concorrência parcimoniosa, por um mercado menos voraz por novidades e uma economia global frágil e compartimentada, hoje a equipe que trabalha no lançamento de um automóvel já discute a estratégia para posicionamento de seu sucessor. Quando um carro estrela uma campanha de lançamento, os projetistas e engenheiros já preparam os esboços de sua reestilização.

Como num tabuleiro gigante, as marcas ficam a observar os movimentos umas das outras, adequando seus portfólios e planejando investimentos em novos produtos e nichos. Fica claro que ninguém quer dar, assim, o ouro ao ladrão. Então, por que ultimamente anda fácil demais esbarrarmos em um carro todo camuflado na rua? Qual o interesse que há por trás dessa enxurrada de "segredos" que pipocam a toda hora na imprensa?

A caça a segredos é uma das mais antigas e valorizadas competências do bom jornalista. "Furos", como são chamados, são muito desejados pela imprensa e rendem boa audiência quando bem encaminhados. Logo, é de se imaginar que seja algo muito difícil de conseguir, pois exige que o profissional trabalhe quase como um detetive, ficando no encalço de pistas e vasculhando todos os elementos que levem a alguma dedução.

As fábricas quase não conseguem mais dar um passo sem que a imprensa especializada saiba. Há fontes fidedignas fornecendo informações privilegiadas de dentro das fábricas e até nos órgãos de marcas e patentes. E também não é difícil antever o movimento no tabuleiro para quem já está observando o jogo faz tempo.

Exemplo: se eu disser que a Chevrolet está desenvolvendo um novo veículo subcompacto para substituir o Celta até 2014, pode parecer que tenho uma informação privilegiada. Mas quem acompanha o assunto consegue deduzir isso juntando as peças: a legislação de segurança em colisões muda em 2014 e, se a Chevrolet (como outras fábricas) não substituir seu portfólio defasado, ela simplesmente fecha as portas.

Além disso, muito do que se diz "segredo" não passa de chute ou dedução. Lembro que cheguei a ver na capa de uma revista que o substituto do Volkswagen Saveiro seria derivado do Fox. Tinha até projeção. Um chutão para fora do gol, com o perdão do trocadilho.

O que acontece hoje é que proliferam em todos os locais fotos de "segredos" que, de segredos, não têm absolutamente nada. Na era da comunicação em rede, em que qualquer pessoa tem um dispositivo capaz de tirar fotos e gravar filmes ao alcance da mão, um flagra ganha o mundo em segundos. As fábricas sabem disso, é claro, e já descobriram uma forma de economizar uma verba de propaganda.

Espaço gratuito
Quando o produto já está pronto e não precisa mais ser escondido, colocam uma maquiagem leve e metem o protótipo, ou até unidades destinadas mais tarde à avaliação pela imprensa, a rodar pelas ruas. Os incautos leitores dos sites, jornais e revistas especializados, em busca de um minuto de fama e diversão, saem atrás do carro misterioso, fotografando quanto podem. Daí, as fábricas conseguem aquele espação na mídia sem pagar um tostão.

O efeito disso é o seguinte: os rumores e boatos ajudam a sondar o mercado e preparar o lançamento do produto, atrapalhando a vida da concorrência, pois fazem com que o consumidor que estava decidido atrase sua compra para esperar o novo produto.

Essa estratégia não é errada, mas incomoda um pouco porque trata o consumidor de um modo infantil. O Agile, antes de seu lançamento, era clicado a todo tempo na Argentina. Era tão descarado que a própria Chevrolet lançou um concurso de fotos para premiar quem fotografasse o carro. E você acha que o Chevrolet Cobalt era um segredo de estado ao ter algumas centenas de unidades desfilando com uma maquiagem pífia três meses antes do lançamento? Era mais de um flagra por dia.

O picape Colorado, provável substituto do S10, dia sim, dia não, tem uma foto óbvia na capa dos sites. E será que a Fiat cometeu um erro estratégico ao lançar o novo Palio para seus concessionários na Grécia de forma tão primária? Logo ela, que tantas vezes fez eventos de lançamento em simultâneo para a imprensa e os revendedores? Betim não imaginava mesmo que as fotos cairiam na rede de imediato, mesmo sob anonimato?

Talvez se possa acreditar que as caravanas do novo compacto nacional da Hyundai sejam um erro de marketing. Talvez o pessoal da JAC não esteja sendo tão eficaz em guardar o sedã J5, porque todo mundo já sabe quanto ele vai custar, que motor terá e todas as adaptações que teve ao solo brasileiro, como aconteceu antes com J3 e J6. Pior, só mesmo a GM convidar os jornalistas para avaliar o Omega em seu campo de provas, em 2005, e fazer passar um Vectra com decoração xadrez pela pista, enquanto os assessores de imprensa fingiam surpresa — "Olha o Vectra, olha o Vectra!".

Ora essa. Parem de nos tratar como idiotas.

A estratégia não é exclusividade brasileira. Tal prática é largamente empregada em todos os continentes e faz a alegria da imprensa especializada, que parece feliz ao ser usada dessa forma. Numa abordagem menos ortodoxa, a própria Mercedes-Benz há pouco publicou fotos de seu novo conversível SL, ainda em testes, como fizera antes com o supercarro SLS. Ao menos as fotos foram oficialmente divulgadas pela própria fábrica, sem qualquer emulação de "segredo mal guardado".

O fato: marcas são capazes de desenvolver novos carros inteiramente em segredo, sem que ninguém tenha acesso a nenhum dado. Eu mesmo, em meados de 2006, tive acesso a um completo material publicitário para o lançamento da minivan VW Touran no País. Estava tudo pronto, peças institucionais e para pontos de venda, mas o projeto não foi adiante e ninguém nem ficou sabendo, embora o Best Cars a tivesse fotografado em testes.

Lição: quando o segredo interessa, você será apenas o último a saber.

Colocam uma maquiagem leve e metem o protótipo a rodar pelas ruas. Daí, conseguem aquele espação na mídia sem pagar um tostão
   
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Data de publicação: 29/11/11

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