Data de publicação: 14/7/12

O dinheiro sumiu

A queda de vendas no mercado de motos reflete a grande
dificuldade em obter crédito para sua compra hoje

por Geraldo Tite Simões

Parece coisa de traficante. Primeiro cria a dependência na “freguesia”, depois passa a cobrar cada vez mais caro. Foi assim com as instituições financeiras e o mercado de motos nos últimos 10 anos. Na virada do ano 2000 os bancos perceberam o crescimento do mercado e despejaram rios de dinheiro na praça, com as taxas de juros escorchantes de sempre, mas em planos tentadores como zero de entrada e saldo em 60 meses.

Claro que essa festa com dinheiro dos outros refletiu-se nas vendas, que cresceram em uma progressão jamais vista. Das 580 mil motos vendidas em 2000, chegamos a um milhão em 2005 e dois milhões em 2011. Uma projeção fantástica em qualquer setor para um país emergente.

Só que a festa com esbanjamento cobrou uma ressaca brava — muita gente com acesso a dinheiro fácil levou a um patamar recorde de inadimplência. Óbvio que os bancos foram os primeiros a tirar a mão do acelerador, cortando o crédito. O setor passou a controlar com lente de aumento a liberação de dinheiro e chegamos a 2012 com uma absurda cifra de 80% das fichas de pedido de financiamento reprovadas. Ou seja, de cada 10 pessoas que buscam crédito para comprar moto, apenas duas o recebem. Cortaram a festa.

A consequência foi uma queda de vendas de 13% no primeiro semestre de 2012 em relação a 2011, com a projeção de repetir a cifra de dois milhões de unidades em 2012 sendo revista para algo perto de 1,8 milhão.

E, ao contrário da indústria automobilística, as fábricas das duas rodas não têm como bater na porta do Estado e pedir isenção de impostos, porque já são isentas de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), além dos benefícios da Zona Franca de Manaus. O jeito é investir na velha modalidade de venda, ainda muito atuante em especial no Norte e no Nordeste: o consórcio. Além, claro, de sentar com as instituições financeiras para tentar reverter esse quadro de pé no freio da liberação de crédito. Isso só o tempo poderá confirmar.

Pedágio e transponder
Finalmente tive a oportunidade de perguntar aos fabricantes qual sua posição a respeito da cobrança de pedágios nas rodovias. A Abraciclo, associação que reúne 12 fabricantes de motos, afirmou que está desenvolvendo uma padronização tanto para as cabines, no caso das estradas que cobram pedágio de moto, quanto da passagem livre, nas estradas onde a passagem é gratuita.

Já o transponder de abertura de cancela (vendido sob o nome comercial Sem Parar) ainda esbarra em alguns problemas técnicos, como a blindagem à prova d’água e contra vibração, além da já conhecida dificuldade em fixar o emissor de sinal na moto de forma a acionar os sensores de receptação.

Na verdade, quando os sistemas de transponder foram criados para os automóveis, as concessionárias das rodovias não cobravam pedágio das motos — portanto, não previram essa possibilidade. Sinceramente, acho que ainda não encontraram uma solução pela mais simples falta de interesse. Até que isso aconteça, os motociclistas continuarão obrigados a parar e pegar a carteira, às vezes bem guardada, para pagar tarifas que em alguns casos não passam de R$ 1,00.

O jeito é investir na velha modalidade de venda, ainda muito atuante em especial no Norte e no Nordeste: o consórcio
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