|
Ninguém precisa parafrasear o Fusca. O Fusca é o Fusca. Eterno,
único. Foi o que foi. Beetle, Vocho, Buba, Escarabajo, Käfer, nosso
besouro tem quase um apelido por idioma — às vezes mais de um. Por
que o Fusca é tão especial a ponto de não precisar de apresentações?
Porque o pequeno Volkswagen Sedã — seu nome oficial quando não se
associava esse termo a um porta-malas saliente — é um mito. De fato,
o Fusca foi consagrado um mito, mas também foi construído
publicitariamente como tal.
Se formos falar de atributos tangíveis do produto, não havia base
alguma de comparação. Ele era diferente de tudo que já se havia
feito em termos automobilísticos, mas o atributo mais marcante foi
seu desenho. O grande arco, com frente protuberante e afilada e os
para-lamas saltados: um perfeito besouro, claro. Uma corretíssima
analogia que, de tão primária, acabou se tornando a mais forte marca
do carro.
O acervo de propagandas do Fusca é muito extenso e, só de filmes
brasileiros, renderia uma mostra. Em linhas gerais, toda a
filmografia publicitária do VW transmite sistematicamente o mesmo
discurso: a robustez, a racionalidade do projeto, a mecânica única e
o desenho inconfundível. O interessante é que, de tão original, o
projeto Fusca foi um raro caso de obsolescência tardia. Essa
insistente permanência por mais de meio século no mercado —
igualzinho, com poucas alterações de monta — não deu chance à
propaganda, senão transformá-lo, gradualmente, em mito.
Mitos são narrativas simbólicas, e muitas propagandas do Fusca têm
essa simbologia que insere o carro nas histórias do cotidiano. Daí
derivam os mitos de que o Fusca "é indestrutível", é um "carro feito
para resistir ao dia-a-dia", de que "não dá manutenção", e tal. No
entanto, uma de minhas táticas preferidas, entre as empregadas pela
VW, foi a mitificação do formato do carro.
A mitificação do formato é igualmente usada na história da Coca-Cola
em sua garrafa. Uma das campanhas da Coca, veiculada nos anos 90,
mostrava o quanto os índices visuais da marca estavam fortemente
gravados na cultura coletiva. No filme não era mostrada marca
alguma: apenas o mítico formato curvilíneo da garrafa em uma silueta
sombreada, com a frase "Nada tem sua forma. Nada tem seu sabor".
São necessárias décadas e décadas de construção publicitária até se
conseguir tamanha fixação sem que sequer se mencione a marca. A
garrafa foi elevada ao grau de símbolo pop por artistas como Andy
Wahrol e é indiscutível sua semelhança com os contornos de um corpo
feminino. E há, ainda, vários mitos a respeito do vínculo do formato
da garrafa ao formato da folha de coca, o que contribui para as
lendas urbanas em torno da marca.
Já o Fusca, bem antes, já fora iniciado em seu processo de
mitificação. Quem não se lembra do simpático Herbie, de Se meu
Fusca Falasse, de 1968, que dá vida a um esquecido Fusquinha que
conquista um velho piloto? Transformar "coisas" em "seres vivos" é
um dos mais fortes elementos de mitificação. E ele ingressou em
definitivo na cultura pop ao aparecer como coadjuvante na imortal
capa de Abbey Road, álbum de 1969 dos Beatles.
Essas aparições, que elevavam o carro da categoria de produto à
categoria de mito, contribuíram fortemente para que o formato
ovalado do VW ficasse para sempre registrado na cultura humana.
Hoje, qualquer pessoa a que for apresentada apenas a silhueta de um
Fusca imediatamente dirá "Fusca!". |
|
O
filme em questão é do começo da década de 1980 e fazia parte de uma
campanha intitulada Eu Amo Fusca. Há dois interessantes
elementos nesse filme que são dignos de nota. O primeiro foi a
utilização genial de outro elemento visual do carro: o capô
dianteiro, que se assemelha a um coração pelas dobras da chapa. Isso
quebra um pouco do excessivo emprego do perfil lateral, que lembra
um besouro, e reforça o quanto o formato do carro reforça sua
ligação com o mito. O outro elemento é a recorrência do discurso.
Mesmo com um apelo claramente emocional, a musiquinha incidental tem
um texto muito pouco emotivo. E, com todo o mérito, genialmente
escrita:
Ele
bate como um gigante (anda, anda, anda…)
E não deixa ninguém na mão (anda, anda, anda…)
Outros dizem que ele é uma fera (anda, anda, anda…)
Pras gatinhas é um gatão
Todo mundo tem razão pra ficar com ele (Eu amo Fusca!)
Todos têm uma razão para ter um Fusca
Claro que não têm comparação entre si, mas é possível ver uma
semelhança visual entre os filmes da
campanha de
lançamento do novo Uno e este, igualmente colorido e brincalhão,
filme do besouro. E há também uma clara tentativa por parte da Fiat
de criar um mito do Uno usando as mesmas técnicas, por meio da
fixação da forma quadrada como uma espécie de marca registrada do
carro. Só que com essa história de "quadrado arredondado" o mito
perde-se um pouco, pois o conceito elementar, o quadrado, é
reformado. Não dá para imaginar um Fusca "aquadradado", dá? |
O uso genial do
capô dianteiro, que se assemelha a um coração, quebra um pouco do
excessivo emprego do perfil lateral |