Data de publicação: 27/6/12

A aventura norte-americana

A vitória de Nelson Ângelo Piquet em Elkhart Lake mostra sua
evolução na Nascar: de que ele precisa para continuá-la?

por Marcio Kohara

No último sábado (23), Nelson Ângelo Piquet tornou-se o primeiro brasileiro a vencer uma etapa de qualquer categoria nacional da Nascar, o mais popular campeonato de automobilismo dos Estados Unidos. Ao receber a bandeira quadriculada na primeira posição da Nationwide Series na etapa de Road America, em Elkhart Lake (Wisconsin), Piquet se tornou o quarto piloto não norte-americano a vencer uma corrida na segunda classe em importância da Stock Car norte-americana.

Foi uma corrida que o piloto brasileiro dominou com tranquilidade. Correndo oficialmente pela primeira vez em um circuito misto com um carro da Nascar, Piquet sempre andou entre os primeiros colocados depois de marcar a pole em uma pista quase desconhecida para ele. Teve alguma sorte na última rodada de paradas de boxe, quando se valeu de uma ótima estratégia, mas nada que tirasse o brilho de sua vitória — pelo contrário. E, se valendo da experiência de um piloto que chegou ao pódio de uma etapa da Fórmula 1, mostrou autoridade no assunto e venceu a prova mesmo competindo contra adversários desconhecidos. 

Piquet comprovou que está acima da média dos adversários nesse tipo de corrida. O que não é uma surpresa, sabendo de seu retrospecto. Contudo, em Elkhart Lake, o campeão mundial da Fórmula 1 de 1997 Jacques Villeneuve era um dos pilotos convidados e até que andou bem, mas não esteve entre os postulantes à vitória. No fim, Jacques acabou se envolvendo em um acidente com Danica Patrick, outra que fez uma boa prova na pista do Wisconsin, e acabou apenas na quinta posição.

Claro que, na Nascar, ser superior aos outros em circuitos mistos não significa muita coisa — disputas nesse tipo de pista são a menor parte da temporada, a ponto de ser possível ser campeão na Nascar mesmo sem ir tão bem nas pistas com curvas para a direita. Por outro lado, isso mostra que Piquet pode reconstruir sua carreira tornando-se competitivo e vencendo na categoria norte-americana, o que seria ressurgir das cinzas depois dos episódios de Singapura e do crashgate, que lhe custaram a carreira na Fórmula 1.

Se é uma reconstrução a ponto de fazer o primeiro brasileiro campeão da Nascar e da Sprint Cup — como ele já chegou a afirmar ser seu norte na incursão nos Estados Unidos —, já é outro assunto. Mas que ele pode se tornar competitivo na América, se saindo bem nessa aventura, pode.

Assim, Piquet continua em seu projeto de longo prazo, seguindo os passos de pilotos como Marcus Ambrose e Juan Pablo Montoya, que fizeram uma transição gradual com incursões de sucesso pelas categorias menores da Nascar antes de tentar o acesso à categoria principal Sprint Cup. Ambos têm em comum com o brasileiro o fato de terem carreiras de sucesso em outras categorias antes de darem uma guinada e tentarem a sorte na América — Montoya na Fórmula 1 e Ambrose na V8 Supercars australiana. Depois disso, os dois competiram nas diversas categorias da Nascar antes de tentar a sorte na Sprint Cup. Hoje, estão estabelecidos e fazem sucesso na principal divisão.

Claro que, para conseguir se sair bem nessa aventura, Piquet ainda precisa evoluir. Em especial nas pistas ovais, onde ainda não tem resultados tão expressivos quanto o alcançado nesse final de semana, até por não conhecer tão bem os segredos desse tipo de pista. E até por isso o brasileiro faz bem em ter uma atitude mais humilde e realizar uma adaptação mais lenta para tais pistas, correndo em categorias de nível mais baixo como a Truck Series — disputada com picapes e considerada a terceira em importância na Nascar.

É uma boa estratégia para aprender com calma os meandros e os segredos das pistas ovais norte-americanas. O fato é que, com esse tipo de aprendizado — que é importante, mas que alguns pilotos ignoram em suas aventuras nos EUA —, Piquet pode mesmo viabilizar seu sonho de se tornar um piloto completo a ponto de disputar título nas pistas norte-americanas. Caso seja bem sucedido, Piquet abrirá mais uma fronteira para os pilotos brasileiros. Mas já marcou seu nome na história do automobilismo nacional graças ao feito desse fim de semana.

Piquet pode reconstruir sua carreira e ressurgir das cinzas, depois dos episódios de Singapura e do crashgate
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