Data de publicação: 14/2/12

Um brasileiro e o mundo cruel do cinema

Filme inglês sobre Ayrton Senna não consta da lista de
finalistas para o Oscar de melhor documentário: é justo?

por Marcio Kohara

Foi realizada na noite deste domingo (12), no Royal Opera House de Londres, a cerimônia de premiação da BAFTA, a Academia Britânica de Cinema e Televisão. A mais importante premiação do cinema britânico teve como grande vencedor da noite o filme francês O Artista,  que levou sete prêmios — melhor filme, diretor com Michel Hazanavicius, ator principal com Jean Dujardin, roteiro original, fotografia, trilha sonora e figurino. A premiação inglesa não costuma servir como parâmetro para a disputa dos Academy Awards — o Oscar —, mas o filme francês é considerado um dos favoritos também para a premiação norte-americana, cujos vencedores serão anunciados em cerimônia no próximo dia 26.

Pois bem, por que o tema cinema surge neste espaço? Smples. É que o documentário Senna,  dirigido por Asif Kapadia, sobre a vida e obra do tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna, foi premiado com a estatueta de melhor documentário. Por outro lado, não foi agraciado na disputa de melhor filme inglês, tendo sido preterido pela adaptação do filme Um Espião que Sabia Demais,  que tem Gary Oldman em seu papel principal.

Ainda assim, o destaque que recebeu o documentário sobre o piloto brasileiro foi relativamente grande, o que não seria uma surpresa, já que chegou a ter uma carreira bem-sucedida nos eventos de premiações cinematográficas e nas salas de exibição pelo mundo. O documentário, lançado nas salas de cinema brasileiras no fim de 2010, foi o sexto filme mais visto nos cinemas em duas semanas consecutivas, disputando público contra sucessos como Tropa de Elite 2  e a primeira metade da parte final da saga de Harry Potter  (Harry Potter e as Relíquias da Morte, parte 1). No cômputo geral, foi o 80º filme mais visto nas salas de cinema no Brasil em 2010.

Por todo esse barulho, muitos fãs esperavam que Senna  fosse um dos indicados para a disputa do próprio Oscar como um dos melhores documentários do ano corrente. Para estar entre os finalistas do prêmio norte-americano, o filme deve ser exibido nas salas de cinema no condado de Los Angeles no ano anterior ao da premiação (ou seja, na edição de 2012 do Oscar, concorrem filmes lançados por lá em 2011). No caso, sim, Senna  poderia concorrer ao prêmio.

Outro detalhe que chegou a causar alguma controvérsia é que o filme de Asif Kapadia não usa tomadas originais: é, basicamente, uma colagem de imagens dos arquivos de Bernie Ecclestone, da própria família Senna e da TV Globo. Mas esse detalhe também não seria um problema. Ou seja, o filme tinha todas as condições de estar lá, representando nosso Brasil na luta pela primeira estatueta brasileira — apesar de, claro, ser um filme inglês.

Por que não?
Contudo, o documentário sobre a vida e a obra de Ayrton Senna não foi eleito para estar entre os cinco finalistas do prêmio. E justamente por isso há uma indignação geral em redes sociais, fóruns e até mesmo em publicações especializadas. Afinal, mais uma vez o isolacionismo norte-americano se pronuncia, ao rejeitar um documentário sobre um esporte desconhecido naquele país.

Claro, existem sempre aqueles que dizem que somos um país de coitados perseguidos pelas grandes potências mundiais — a premiação do similar inglês prova que o filme deveria ser colocado na lista de melhores documentários e, até mesmo, ser laureado com o prêmio. E os ingleses não são nem um pouco provincianos por terem premiado um filme de diretor e roteirista ingleses, naquela que talvez seja uma das poucas modalidades em que ainda podem dizer que dominam o mundo. Afinal, com poucas exceções, a Fórmula 1 é um esporte britânico em sua grande maioria.

Imagino que todos esses críticos da lista tenham visto Hell and Back AgainIf a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation FrontParadise Lost 3: PurgatoryPina  e Undefeated (os indicados) para ter a certeza de que Senna não é melhor que qualquer um deles (não posso comentar sobre os finalistas do Oscar porque não tive a oportunidade de vê-los). Asif Kapadia reclamou sobre os critérios de escolha dos documentários finalistas para o Oscar, mas para chamar a atenção pela falta de The Interrupters,  que foi o vencedor do Festival de Sundance na categoria documentário, a mesma em que Senna  foi finalista.

Por outro lado, não entendo a propaganda a favor do filme, a não ser por razões sentimentais, mesmo entre pessoas que entendem de cinema. Não que eu seja um crítico especializado em cinema, mas achei a construção do argumento de Senna  bem criticável.

No fim, depois de ver o filme, quem não conhece a trajetória do piloto sai com a impressão de que a carreira de Ayrton durou apenas três anos e que Alain Prost (com o apoio do malvado Jean Marie Balestre, então presidente da FIA) foi o único rival que viveu a prejudicar nosso herói, sem causa aparente. Ora, quem sabe um pouco mais da história sabe que não existem mocinhos nem bandidos na Fórmula 1 — e que o brasileiro, apesar da imagem de mocinho que construiu, de mocinho e coitado tinha bem pouco. Por isso, Senna  não é um filme para o fã que gostaria de uma analise mais documental e fria sobre a carreira de Ayrton.

Claro, existem as imagens do farto e inexplorado arquivo de Bernie Ecclestone para dar vida ao documentário. Só que faltou sensibilidade na hora de escolher os momentos certos para encaixá-los no roteiro. Existem alguns pecados graves para quem tem mais de 90 minutos de filme à disposição para contar a história da carreira de Senna.

Um dos mais sérios é reduzir a seis segundos aquela que é considerada por muitos "a volta perfeita": a largada do GP da Europa em Donnington Park, em 1993, quando Senna caiu para a quinta posição depois de uma má largada e, ainda na primeira volta, assumiu a liderança depois de ultrapassar todos os adversários. Não citar a história da bandeira, que transforma o brasileiro em um herói desportivo nacional após a desclassificação da seleção brasileira pela França, nas quartas de final da Copa do Mundo do México de 1986, é quase imperdoável.

E, para fechar, simplesmente ignora-se a carreira pré-Fórmula 1, passada em boa parte na própria Inglaterra de Kapadia. Claro, o torcedor menos interessado não vai ligar — e os mais fanáticos, até pela falta de opções no mercado, acaba não ligando tanto também. Mas são falhas graves na construção de um personagem do qual o filme pretende contar a história. Reduzir toda a carreira do piloto a um longo Senna-contra-Prost, com imagens inacabáveis de bastidor, é de alguma forma reduzir a carreira do piloto.

No fim das contas, a impressão que tive quando saí do cinema nem foi tanto de satisfação por ter visto imagens que não tinha visto antes — como a primeira aparição relevante de Senna na Fórmula 1, o Grande Prêmio de Mônaco de 1984, quando o brasileiro foi o segundo colocado numa decisão polêmica. Mas até um pouco de indignação por Bernie Ecclestone ter todo esse material nas mãos e, simplesmente, sentar em cima esperando a melhor oferta.

Talvez o fã da categoria mereça documentários melhores do que Senna,  que é bom, mas não é excepcional — e, até por isso, não vejo como um deslize dos velhinhos de Hollywood não incluir o documentário na lista de finalistas do Oscar. Mas isso só será possível se Ecclestone franquear o acesso de seu banco de imagens a mais documentaristas. Não parece que vai ser esse o caso tão cedo...

Mais uma vez o isolacionismo norte-americano se pronuncia, ao rejeitar um documentário sobre um esporte desconhecido naquele país
   
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