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Foi realizada na noite deste domingo (12), no Royal Opera House de
Londres, a cerimônia de premiação da BAFTA, a Academia Britânica de
Cinema e Televisão. A mais importante premiação do cinema britânico
teve como grande vencedor da noite o filme francês O Artista,
que levou sete prêmios — melhor filme, diretor com Michel
Hazanavicius, ator principal com Jean Dujardin, roteiro original,
fotografia, trilha sonora e figurino. A premiação inglesa não
costuma servir como parâmetro para a disputa dos Academy Awards — o
Oscar —, mas o filme francês é considerado um dos favoritos também
para a premiação norte-americana, cujos vencedores serão anunciados
em cerimônia no próximo dia 26.
Pois bem, por que o tema cinema surge neste espaço? Smples. É que o
documentário Senna, dirigido por Asif Kapadia, sobre a
vida e obra do tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna, foi
premiado com a estatueta de melhor documentário. Por outro lado, não
foi agraciado na disputa de melhor filme inglês, tendo sido
preterido pela adaptação do filme Um Espião que Sabia Demais,
que tem Gary Oldman em seu papel principal.
Ainda assim, o destaque que recebeu o documentário sobre o piloto
brasileiro foi relativamente grande, o que não seria uma surpresa,
já que chegou a ter uma carreira bem-sucedida nos eventos de
premiações cinematográficas e nas salas de exibição pelo mundo. O
documentário, lançado nas salas de cinema brasileiras no fim de
2010, foi o sexto filme mais visto nos cinemas em duas semanas
consecutivas, disputando público contra sucessos como Tropa de
Elite 2 e a primeira metade da parte final da saga de
Harry Potter (Harry Potter e as Relíquias da Morte,
parte 1). No cômputo geral, foi o 80º filme mais visto nas salas de
cinema no Brasil em 2010.
Por todo esse barulho, muitos fãs esperavam que Senna
fosse um dos indicados para a disputa do próprio Oscar como um dos
melhores documentários do ano corrente. Para estar entre os
finalistas do prêmio norte-americano, o filme deve ser exibido nas
salas de cinema no condado de Los Angeles no ano anterior ao da
premiação (ou seja, na edição de 2012 do Oscar, concorrem filmes
lançados por lá em 2011). No caso, sim, Senna poderia
concorrer ao prêmio.
Outro detalhe que chegou a causar alguma controvérsia é que o filme
de Asif Kapadia não usa tomadas originais: é, basicamente, uma
colagem de imagens dos arquivos de Bernie Ecclestone, da própria
família Senna e da TV Globo. Mas esse detalhe também não seria um
problema. Ou seja, o filme tinha todas as condições de estar lá,
representando nosso Brasil na luta pela primeira estatueta
brasileira — apesar de, claro, ser um filme inglês. |
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Por que não?
Contudo, o documentário sobre a vida e a obra de Ayrton Senna
não foi eleito para estar entre os cinco finalistas do prêmio. E
justamente por isso há uma indignação geral em redes sociais, fóruns
e até mesmo em publicações especializadas. Afinal, mais uma vez o
isolacionismo norte-americano se pronuncia, ao rejeitar um
documentário sobre um esporte desconhecido naquele país.
Claro, existem sempre aqueles que dizem que somos um país de
coitados perseguidos pelas grandes potências mundiais — a premiação
do similar inglês prova que o filme deveria ser colocado na lista de
melhores documentários e, até mesmo, ser laureado com o prêmio. E os
ingleses não são nem um pouco provincianos por terem premiado um
filme de diretor e roteirista ingleses, naquela que talvez seja uma
das poucas modalidades em que ainda podem dizer que dominam o mundo.
Afinal, com poucas exceções, a Fórmula 1 é um esporte britânico em
sua grande maioria.
Imagino que todos esses críticos da lista tenham visto Hell and
Back Again, If a Tree Falls: A Story of the Earth
Liberation Front. Paradise Lost 3: Purgatory,
Pina e Undefeated (os indicados) para ter a
certeza de que Senna não é melhor que qualquer um deles (não
posso comentar sobre os finalistas do Oscar porque não tive a
oportunidade de vê-los). Asif Kapadia reclamou sobre os critérios de
escolha dos documentários finalistas para o Oscar, mas para chamar a
atenção pela falta de The Interrupters, que foi o
vencedor do Festival de Sundance na categoria documentário, a mesma
em que Senna foi finalista.
Por outro lado, não entendo a propaganda a favor do filme, a não ser
por razões sentimentais, mesmo entre pessoas que entendem de cinema.
Não que eu seja um crítico especializado em cinema, mas achei a
construção do argumento de Senna bem criticável.
No fim, depois de ver o filme, quem não conhece a trajetória do
piloto sai com a impressão de que a carreira de Ayrton durou apenas
três anos e que Alain Prost (com o apoio do malvado Jean Marie
Balestre, então presidente da FIA) foi o único rival que viveu a
prejudicar nosso herói, sem causa aparente. Ora, quem sabe um pouco
mais da história sabe que não existem mocinhos nem bandidos na
Fórmula 1 — e que o brasileiro, apesar da imagem de mocinho que
construiu, de mocinho e coitado tinha bem pouco. Por isso, Senna
não é um filme para o fã que gostaria de uma analise mais
documental e fria sobre a carreira de Ayrton.
Claro, existem as imagens do farto e inexplorado arquivo de Bernie
Ecclestone para dar vida ao documentário. Só que faltou
sensibilidade na hora de escolher os momentos certos para
encaixá-los no roteiro. Existem alguns pecados graves para quem tem
mais de 90 minutos de filme à disposição para contar a história da
carreira de Senna.
Um dos mais sérios é reduzir a seis segundos aquela que é
considerada por muitos "a volta perfeita": a largada do GP da Europa
em Donnington Park, em 1993, quando Senna caiu para a quinta posição
depois de uma má largada e, ainda na primeira volta, assumiu a
liderança depois de ultrapassar todos os adversários. Não citar a
história da bandeira, que transforma o brasileiro em um herói
desportivo nacional após a desclassificação da seleção brasileira
pela França, nas quartas de final da Copa do Mundo do México de
1986, é quase imperdoável.
E, para fechar, simplesmente ignora-se a carreira pré-Fórmula 1,
passada em boa parte na própria Inglaterra de Kapadia. Claro, o
torcedor menos interessado não vai ligar — e os mais fanáticos, até
pela falta de opções no mercado, acaba não ligando tanto também. Mas
são falhas graves na construção de um personagem do qual o filme
pretende contar a história. Reduzir toda a carreira do piloto a um
longo Senna-contra-Prost, com imagens inacabáveis de bastidor, é de
alguma forma reduzir a carreira do piloto.
No fim das contas, a impressão que tive quando saí do cinema nem foi
tanto de satisfação por ter visto imagens que não tinha visto antes
— como a primeira aparição relevante de Senna na Fórmula 1, o Grande
Prêmio de Mônaco de 1984, quando o brasileiro foi o segundo colocado
numa decisão polêmica. Mas até um pouco de indignação por Bernie
Ecclestone ter todo esse material nas mãos e, simplesmente, sentar
em cima esperando a melhor oferta.
Talvez o fã da categoria mereça documentários melhores do que
Senna, que é bom, mas não é excepcional — e, até por isso,
não vejo como um deslize dos velhinhos de Hollywood não incluir o
documentário na lista de finalistas do Oscar. Mas isso só será
possível se Ecclestone franquear o acesso de seu banco de imagens a
mais documentaristas. Não parece que vai ser esse o caso tão cedo... |
Mais uma vez o
isolacionismo norte-americano se pronuncia, ao rejeitar um documentário
sobre um esporte desconhecido naquele país |