Paulo Amaral

Um grande amigo se vai: Paulo Amaral, meu tio

por Bob Sharp

Espero que os leitores me perdoem por escrever mais uma vez — a terceira, só este ano — sobre pessoas que nos deixaram. Mas colunista é isso, com o tempo ele acaba se sentindo amigo dos leitores e a recíproca em muitos casos (muitos mesmo) é verdadeira. Por isso, sempre há uma vontade incontida do colunista em compartilhar sentimentos.

Desta vez, todavia, é diferente. Ao contrário de Paul Frère (1/3) e Eduardo Martins (19/4), a perda agora foi de alguém muito próximo, que teve uma participação direta e intensa na minha vida: meu tio Paulo Amaral, irmão de minha mãe.

Já citei algumas vezes o tio Paulo nestes sete anos de coluna, uma delas o fato de ter sido quem me ensinou a dirigir. Inclusive, ele era meu padrinho de batismo. Talvez por isso, mas não só, tivéssemos tanta afinidade. Pudemos conviver bastante até 1962, até meus 20 anos, quando então ele iniciou sua longa e exitosa carreira como preparador físico — formou-se em educação física, um dos primeiros do Brasil — ou técnico de futebol, sempre morando fora de sua cidade natal, o Rio de Janeiro, tanto em outros estados brasileiros quanto no exterior.

Quando nasci ele já tinha 21 anos. Jogou futebol no Flamengo e depois no Botafogo, ao mesmo tempo em que cursava a Faculdade de Educação Física.

Pouco depois foi convidado a ingressar na Polícia Especial, a força policial dedicada à segurança do ditador Getúlio Vargas, onde dividia seu trabalho entre o grupo de motociclistas batedores e a preparação física dos policiais. O uniforme da PE era calça e camisa cáqui e quepe vermelho, mas havia o uniforme de gala (foto) para ocasiões especiais, como escoltar o presidente.

Sua atração pela motocicleta era de tal ordem que, sem ninguém mandar, começou a realizar acrobacias com elas, todas Harley-Davidson. Andar de pé sobre o banco era o que mais gostava de fazer, como uma vez em que foi desse jeito (foto) do Leblon, na zona sul do Rio, ao centro da cidade onde ficava o quartel da PE — claro, quando era preciso, como ao se aproximar de um sinal, ele se agachava para acionar a sirene.

Vieram então as pirâmides de mais de 15 policiais amontoados na Harley, como até hoje se vê nos desfiles militares no Dia da Independência, ou os saltos de rampa, com homens deitados sob o percurso da moto no ar. As demonstrações de habilidade do grupo de motociclistas realizavam-se no Rio, como no Estádio do Maracanã nos dias de jogos, e também nas cidades mais próximas. Aquilo já era mais do que suficiente para que meu tio fosse um ídolo para mim.

Simultaneamente, ele trabalhava nos clubes de futebol, mais no Botafogo, até que foi designado para ser o preparador físico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Era a primeira vez que, na seleção, a função ficava a cargo de alguém formado na profissão, e naquele ano conquistamos nosso primeiro título mundial. O mesmo ocorreria na copa seguinte, quatro anos depois, no Chile, quando o Brasil se tornou bicampeão.

Já conhecido no meio, foi convidado para dirigir o time do Juventus, na Itália, que é mantido pela Fiat. Ele tinha 39 anos (foto). Foi quando começou a melhor fase de sua carreira, pela qual correu o mundo dirigindo times de futebol. Até na Arábia Saudita trabalhou, onde teve a honra de ser o primeiro técnico brasileiro no Oriente Médio. Esteve em vários estados brasileiros depois, dirigindo times conhecidos como o Corinthians e o Esporte Clube Bahia, entre outros.

Sua carreira encerrou-se em 1984, aos 61 anos, passando a gozar sua merecida aposentadoria no Rio, em meio a amigos e exercendo sua atividade predileta: ir à praia, onde se sempre havia uma quadra de vôlei de praia aguardando-o (foto abaixo, aos 73 anos). Infelizmente nessa época eu já morava em São Paulo e só podia vê-lo nas ocasiões em que ia ao Rio, para os eventos de família, embora sempre nos falássemos por telefone. Sua grave doença descoberta há dois anos, um câncer de próstata, não pôde ser controlada e a evolução acabou tirando-lhe a vida no dia 1º de maio. Tinha 84 anos.

Instrutor de direção
Em 1952, o tio comprou um Citroën 11 L ano 1947. Deu em troca uma motocicleta BMW R-50 1938 e raspou o fundo do tacho para poder ter seu primeiro automóvel. Lembro-me muito dessa moto, com seus dois cilindros horizontais opostos e a transmissão por cardã, um dos meus primeiros contatos com um produto de alta tecnologia. Mais para o fim do ano, depois que fiz dez anos, ele começou a me ensinar e ao meu irmão dois anos mais velho a dirigir. Era preciso sentar sobre uma almofada para poder enxergar minimamente sobre o grande volante...

A paciência que esse tio teve comigo e com meu irmão para nos ensinar foi ímpar. Nunca perdeu o controle quando fazíamos alguma burrada ou demorávamos a aprender alguma coisa. Entretanto, era enérgico e fazia tudo com total seriedade. Desde aqueles anos aprendi que dirigir é coisa séria e que automóvel não é lugar para brincadeiras. Ele também nos incutiu a postura de defesa ao volante, de se estar sempre preparado para o caso de algo errado acontecer. Entre elas, ficar atento às rodas dianteiras dos veículos, que "anunciam" quando o carro vai mudar de direção: sempre há um tempo entre a roda esterçar e o carro obedecer, devido à inércia.

Um dos seus ensinamentos que guardarei para o resto da vida é que automóveis têm de ser dirigidos com suavidade, não importa se estamos devagar ou rápido. Aprendi com ele a soltar o pé da embreagem nas trocas de marcha sem produzir o tranco que força a transmissão e incomoda os passageiros. Ele ensinou até a engatar a primeira, que não era sincronizada, com o carro em movimento. Não no começo, claro, mas cerca de um ano depois.

Muitas vezes policiais em radiopatrulhas viam aquele pingo de gente dirigindo e se preparavam para nos parar, mas quando viam quem estava comigo, seu colega, tudo ficava num cordial cumprimento. Quanto a mim, morria de medo sempre. Por falar nisso, numa época em que eu, ainda menino, andava aprontando muito, minha mãe comentou o fato com o irmão, que ficou de fazer alguma coisa. Um belo dia estava em casa e ouvi sirene na nossa pacata rua, na Gávea, o que nunca havia acontecido. Só que escutei um carro parar na porta de casa e a sirene ser desligada.

A campainha tocou, fui ao portão e, para quê... Dois gigantes com aquela farda de PE perguntaram se eu era o Bob, afirmei com movimento de cabeça e começaram a me dar uma bronca daquelas, que eu precisava me comportar, senão da próxima vez me levariam preso... Foi a maneira do tio querido fazer o sobrinho se comportar bem, mandar dois colegas lá em casa. O fato é que, segundo minha mãe, a estratégia funcionou, pelo menos por algum tempo...

Foi mesmo um tio e tanto. Ele e a mulher sempre nos levavam, eu e meu irmão, ao parque de diversões, ficavam lá com toda paciência até a hora de fechar. Ele nos ensinou a nadar em vários estilos, a mergulhar das pedras na praia do Arpoador e até nos deu noções de defesa pessoal.

Ele tinha um temperamento explosivo, brigão como só ele. Quando era técnico do Flamengo, nos levou a um jogo no estádio do Maracanã, eu e meu irmão ficamos na boca do túnel. De repente ele sai em disparada, pula o profundo fosso de três metros de largura e profundidade que separa a geral do campo e parte para cima de um torcedor que o havia xingado. Ficamos apavorados, mas ele foi lá, fez o "serviço" e pulou de volta para o campo, camisa e botões intactos. Em compensação, as crianças o adoravam e vice-versa, era uma coisa linda de ver.

Tudo isso, todos esses filmes, passaram dentro de mim naquela tarde de quinta-feira 1º de maio, nos instantes finais antes de seu sepultamento, uma bandeira do Botafogo, o time do coração, sobre o caixão. Mesmo sabendo que a fila está andando, que não tem jeito, fui tomado por uma profunda tristeza. Que tio tive a ventura de ter. Quisera tê-lo aproveitado mais.

Descanse em meio a muita paz, tio Paulo Amaral. Você merece.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 10/5/08

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