Prazer desmanchado

Quem andou muito de moto até 20 anos atrás
só pode concluir: não há mais por que ter uma hoje

por Bob Sharp

Como ocorreu há quatro edições, hoje a coluna novamente deixa de ser Do Banco do Motorista para se tornar "do banco" de outra coisa, e desta vez é Do Banco do Motociclista. Como disse na semana passada, estive rodando com uma moto Honda CBX 250 Twister, cedida pela Honda. Nestes sete dias vi e senti muitas coisas que acho valer a pena serem compartilhadas com o leitor.

Não é de hoje que ando de duas rodas motorizadas. Comecei com 11 anos de idade, uma bicicleta Cyclemaster com motor de 32 cm³, seguida de outra com um motor Victoria de 38 cm³. Depois foram os scooters Lambretta e Vespa, até chegar às motocicletas. Tive algumas até vender a última em 1984. Vivi intensamente a onda da moto iniciada em 1970. No começo até fiz algumas viagens, mas logo passei a encarar a motocicleta como eficiente meio de transporte pessoal para trabalho e lazer, na cidade. Utilizava-as diariamente, enquanto o carro ficava com minha mulher. Tive Yamaha RD 250 e RD 350, Honda 500 Four e CB 400. Usei muito uma BMW R-60 de um amigo, que quase comprei.

Durante todos esses anos, só um tombo, em baixa velocidade: ao chegar à primeira fila num semáforo, havia óleo diesel derramado em grande quantidade. Mas nunca achei perigoso andar de moto, como geralmente se apregoa. Jamais senti qualquer perigo.

Aos 64 anos e 22 depois de ter andado de moto pela última vez — salvo rápidas avaliações em eventos para o Best Cars —, peguei a Twister na sede da Honda, em São Paulo, e passei a usá-la no dia-a-dia. Foi como se tivesse parado de pilotar ontem. Mas isso do ponto de vista de operação apenas, porque o cenário mudou por inteiro. Claro, para pior.

Hoje
O prazer de andar de motocicleta, a sensação de liberdade, o chegar rápido aos lugares, sentir-se mais inserido no mundo à volta do que num automóvel, acabou. Isso falando de São Paulo. Não há mais o espaço de antes, nem mesmo para motos. Isso porque a autoridade de trânsito resolveu acomodar artificialmente mais carros na rua aumentando o número de faixas de rolamento, o que as tornou mais estreitas. O espaço entre os carros diminuiu muito. Em grande parte das vezes não se consegue mais passar entre as filas de carros, o que nunca acontecia antes.

Era possível ultrapassar veículos lado a lado que estivessem rodando abaixo do limite de velocidade, o que é muito comum (é como se as pessoas se esquecessem de acelerar). Ficou realmente estressante andar de moto aqui. Inclui-se aí o buzinaço adotado como norma pelos motomensageiros em sua maneira kamikaze de pilotar (morre um por dia em São Paulo, um quadro inconcebível).

O estreitamento das faixas, é importante lembrar, não prejudicou apenas as motos. Ambulâncias, carros de polícia e de bombeiros têm agora grande dificuldade para se deslocar nas emergências quando o trânsito está congestionado. Vidas já podem ter sido perdidas por isso. Um desserviço da municipalidade à vida dos paulistanos.

A visibilidade para trás piora quando se usa capacete e agora é obrigatório usá-lo — infração gravíssima deixar de fazê-lo, segundo o código de trânsito. Antes, era uma pequena e rápida virada de cabeça, e a visão periférica cuidava do resto. Agora, é preciso virar a cabeça bem mais ou então caçar a visão da retaguarda pelos retrovisores, o que não tem a mesma rapidez. Tudo porque alguém em Brasília, que tem o mórbido prazer de patrulhar, resolveu que quem está montado numa moto tem de usar capacete. Outra conseqüência do uso da "proteção" é deixar de escutar o tráfego à volta tão bem quanto ao se estar sem ela, o que acho péssimo. Numa moto, em meio ao trânsito, as informações auditivas são muito importantes.

Os ferrenhos defensores do uso do capacete em qualquer situação costumam argumentar que andar de moto é perigoso — um conceito tão falso quando uma nota de 30 reais. Perigoso é andar mal de moto, trafegar rápido demais para as condições do momento e acima do limite de velocidade na cidade e desrespeitar as regras de trânsito. Afirmo isso baseado em minha experiência pessoal, não é algo que eu tenha lido em algum lugar.

Em vários estados dos Estados Unidos, como Illinois e Michigan, capacete não é obrigatório. É evidente que quando se vai trafegar mais rapidamente, até mesmo numa via expressa de cidade, o bom senso diz para usá-lo. Ou seja, o que os motociclistas americanos fazem em 2006, fiz durante anos, desde a adolescência, sem nenhum problema. Não faz sentido, por exemplo, dar uma volta calma depois do jantar ou num domingo de manhã e usar capacete. Ou ir à praia, como eu fazia habitualmente quando morava no Rio. Obrigar a usar capacete é exagero e um desrespeito à liberdade individual. E contribui decisivamente para tirar o prazer de andar de moto.

Em relação ao que eu disse na semana passada, além do desconforto causado pela pavimentação desastrosa de São Paulo, há o inerente aumento do risco, pois a frenagem em reta e a estabilidade em curva ficam comprometidas, como lembrou o leitor Alexandre Cândido, de São Paulo, que escreveu para a coluna. À noite, especialmente, tudo se complica ainda mais quando o piso é ruim.

Buracos também afetam os pneus, que podem sofrer danos na banda de rodagem e carcaça. Recentemente foram instalados olhos-de-gato em várias avenidas — idiotice completa e paga com nosso dinheiro, pois são vias iluminadas e nevoeiro na cidade pertence ao passado. Esses objetos têm o dom de abalar bastante a motocicleta. Imagine-se o que as bicicletas enfrentam com seus pneus bem finos e ausência de suspensão.

Não vamos esquecer desse autêntico dejeto viário chamado lombada, na quase totalidade dos casos fora das medidas regulamentares e sem sinalização (leia coluna de meu colega Gino Brasil), um incômodo e ao mesmo tempo um perigo para o motociclista. Eventual passageiro pode até ser "ejetado" se o piloto for apanhado de surpresa. Até eu deixar de ter moto, em 1984, lombadas simplesmente não existiam em São Paulo. Estranhei-as muito nesses dias em que usei a Twister. Foi como se, de repente, eu estivesse num mundo diferente.

Há ainda o risco das pipas, em que a linha impregnada de vidro triturado, o cerol que meninos (e marmanjos) usam para cortar as linhas dos "rivais", tem ocasionado as mortes mais estúpidas de que se tem notícia. A linha geralmente corta uma artéria carótida, de alta vazão, localizada no pescoço e que irriga toda a cabeça. Quando é seccionada, o motociclista morre quase instantaneamente. Para se proteger desse risco, muitos têm instalado antenas como as de rádio no guidão da moto.

Apesar de minha experiência em motocicletas, de conhecer bem sua técnica e apreciá-las, hoje não voltaria a ter uma; em São Paulo, certamente que não. Um prazer foi desmanchado pela ineficiência administrativa e pelo descaso que marcam os dias atuais no Brasil. Pena, porque a Twister me agradou em cheio.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 18/11/06

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