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Quando comecei a dirigir, intrigava-me o modo como a maioria se comportava ao volante quando chovia. A velocidade com que dirigiam era baixa demais e em seus rostos era perceptível a tensão. Hoje, passados vários decênios, com automóveis incomparavelmente melhores em segurança ativa (a que contribui para evitar acidentes), o quadro está longe de mudar. E chuva tornou-se justificativa para tráfego lento e congestionado.
Acredito que a explicação esteja no binômio má formação dos motoristas e informações equivocadas pelos meios de comunicação.
Já comentei em outra ocasião, na matéria intitulada Lento demais não é
legal nesta coluna, que o currículo das auto-escolas precisa de revisão. Há alguns anos vi o Coronel França Filho, então comandante da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo, dizer numa entrevista ao programa
Tribuna Independente da Rede Vida que "A pessoa faz um exame de baliza, de arrancar em rampa, obtém a carteira e depois pega a estrada, totalmente despreparada". A visão da autoridade estava mais do que certa.
Cheguei a fazer um paralelo entre os cursos de direção e de pilotagem de avião. Neste o formando sai totalmente habilitado para pilotar sem restrições a classe e o modelo de aeronave em que aprendeu a pilotar. Uma vez habilitado, o piloto de avião tem plena condição de operar a aeronave.
Pergunto: quem, numa auto-escola, foi ensinado a dirigir em auto-estrada sob chuva, à noite, a 100-120 km/h? Aposto que ninguém. Imagine-se uma pessoa de 18 anos receber a carteira provisória e partir para uma viagem noturna com chuva.
Essa questão de formação de motoristas é tão complexa que, certa vez, li num jornal de Los Angeles que o Departamento de Veículos a Motor (o Detran de lá) passaria a exigir dos candidatos à habilitação prova de saberem entrar e sair de uma via expressa,
freeway. Fiquei perplexo, pois aquela região dos Estados Unidos é um emaranhado de vias expressas com seus acessos e saídas. O ano era 1996, pouco mais de cinco anos atrás.
Os meios de comunicação, especialmente as informações pelo rádio sobre condições das estradas e trânsito de maneira geral, pecam quando dizem, por exemplo, "Chove no sistema Anchieta-Imigrantes e as pistas estão escorregadias". Muitos ficam apreensivos com a informação -- com razão -- e redobram a cautela, dirigindo em velocidade inferior à necessária. E ficam tensos. Nada mais desnecessário e mesmo redundante, pois todo mundo sabe que água numa superfície faz diminuir o coeficiente de atrito de tudo que se movimente sobre ela, até sapatos.
A explicação desta besteira inominável é, muito provavelmente, má tradução de informações similares nos países de temperaturas baixas. Lá, quando chove e a temperatura desce para
5°C, há perigo iminente de formação de gelo. É fácil deduzir que, para preencher a parte do texto que fala de gelo, fenômeno inexistente aqui, alguém tenha tido a brilhante idéia de dizer que "as pistas estão escorregadias".
Ficam escorregadias, mas não a ponto de se precisar andar trinta ou mais quilômetros por hora abaixo do limite da via. Claro que não estou preconizando manter o mesmo ritmo de viagem quando está chovendo forte. Isso é para motoristas muito experientes. Mas, para qualquer um, reduzir o
ritmo de 120 para 100 km/h, por exemplo, é mais do que suficiente para trafegar com segurança nessas condições. Já se vêem nas estradas brasileiras placas de sinalização indicando tal redução de velocidade sob chuva, como na SP-70 Ayrton Senna/Carvalho Pinto.
Como sempre ocorre ao dirigir, alguns cuidados devem ser tomados para se enfrentar uma chuva sem surpresas ou sobressaltos:
> Os pneus devem estar desgastados até no máximo meia-vida, para que a água entre eles e o solo possa ser expulsa, evitando o perigoso fenômeno da aquaplanagem. Quando isso ocorre, o pneu deixa literalmente o solo e as forças lateral, tração e frenagem ficam momentaneamente anuladas. Ou seja, o carro fica sem controle.
Em geral a profundidade dos sulcos dos pneus novos é de 8 milímetros. Quando chega a 4 mm, o pneu deve ser substituído, em nome da segurança. A rigor, o limite legal é 1,6 mm, como assinalado pelo indicador de desgaste da banda de rodagem existente em qualquer pneu, porém com essa pequena profundidade o surgimento de aquaplanagem fica muito provável.
Na Alemanha, as companhias seguradoras exigem a regra da meia-vida e não pagam sinistros se a recomendação não for seguida pelo proprietário. São justamente os pneus trocados com meia-vida que chegavam, até algum tempo atrás, ao mercado brasileiro e enchem os olhos (e o bolso) de muitos.
> Derrapagens não ocorrem tão facilmente quanto se pensa, desde que se trafegue em velocidades normais e se observe a sinalização, principalmente a de curvas.
> De dia, choveu, farol baixo aceso; mas faróis principais, não os auxiliares de neblina.
> Se houver, a luz traseira de nevoeiro deve ser acesa mesmo de dia, para o carro ficar ainda mais visível atrás do borrifo d'água; jamais deve-se usar o
pisca-alerta com o veículo em movimento, uma sinalização própria de veículo parado.
> Aumentar a distância para o carro da frente. A regra dos "Dois Segundos" deve passar a três segundos de separação.
> Jamais parar no acostamento para esperar que a chuva melhore, pois é um local dos mais perigosos. Se não se achar lugar seguro, bem longe da pista, é preferível continuar rodando.
> Mais do que nunca, só usar a faixa mais à esquerda para ultrapassagem. Muitos motoristas ficam nervosos quando há alguém atrás pedindo passagem. Ninguém pede para passar se há espaço livre à esquerda.
> Manter os limpadores de pára-brisa em perfeitas condições e o reservatório do lavador abastecido com água e detergente adequado.
> O vidro do pára-brisa livre de embaçamento é fundamental para dirigir com segurança, com ou sem chuva. O ar-condicionado, por produzir ar bastante seco, elimina rapidamente o embaçamento, não importando se frio ou quente.
> Usar os comandos de direção e de freios com suavidade e evitar acelerações bruscas, principalmente em carros de maior potência.
Tomando esses cuidados, qualquer um pode dirigir com segurança e tranqüilidade com piso molhado -- cantando de despreocupação na chuva.
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