Na
coluna da semana passada abordei uma questão que
gerou um elevado número de reclamações de leitores, embora eu tenha
recebido mensagens de aprovação também. Foi a questão da eliminação de
cinzeiros no Celta e Corsa e a não-instalação no Fit, Frontier e Fox.
Numa das reclamações o leitor Diego Ferreira argumentou que o cigarro é
um elemento de distração e que por isso não se deve fumar ao dirigir.
Ocorreu-me então falar sobre esse mal chamado distração (e disse-lhe que
ia fazê-lo).
O vocábulo distração vem do latim distractione, que é o inverso
de attractione, atração. No caso de dirigir, é justamente quando
nossa vista e/ou nosso pensamento deixa de ser atraído pelo objeto à
frente, que é a via, desligando-nos do meio no qual estamos nos movendo,
até mesmo ao caminhar. E isso pode ter vários motivos.
No caso da coluna da semana passada, o ato de fumar — buscar o maço,
abrir a tampa ou puxar um cigarro, ir atrás de fósforos, isqueiro ou o
próprio acendedor que acompanha o veículo, fazer o fogo, olhar para a
ponta do cigarro e iniciar a queima do fumo e do papel — pode mesmo
distrair. É a habilidade do motorista (até em manipular esses objetos
mesmo que não dirija) que vai determinar a periculosidade da breve mas
inevitável distração. Esta, infelizmente, não é associada apenas ao ato
de fumar dirigindo.
Nós nos distraímos ao consultar os retrovisores, ao dar uma varrida de
olhos nos instrumentos, ao olhar para o eventual interlocutor (todo
mundo faz isso), ao operar o equipamento de áudio. Em países de
vanguarda, até o sistema de navegação, que pretende eliminar um fator de
distração — a consulta a placas para se encontrar uma via ou endereço —,
pode vir a ser um deles.
Já que a distração é inevitável, cabe ao motorista mensurá-la
adequadamente. E o mais fácil e conveniente nesse caso é considerar o
fator velocidade-distância percorrida em função do tempo.
Como todos nós temos noção do que é 1 segundo (falar mil-e-um sem
pressa), é preciso ajustar o tempo de distração à velocidade. A 40 km/h
o carro percorre 11,1 metros por segundo; a 120 km/h, 33,3 metros por
segundo. Fica evidente que o tempo de distração tem de ser inversamente
proporcional à velocidade. Sem matemática, quando mais rápido, menos
tempo de distração.
Quem assistiu ao filme 24 Horas de Le Mans, de 1969, com o
saudoso Steve McQueen (1930-1980), deve se lembrar do acidente que o
personagem principal sofreu com o Porsche 917 devido a uma distração.
Vinha pela reta de Mulsanne a cerca de 380 km/h e foi olhar um acidente,
aquela desviada rápida de olhos — andando a 100 metros por segundo.
Se virou a cabeça por dois segundos foi muito, e o Porsche percorreu
200 metros. Quando voltou os olhos para a pista havia um carro de
classe de cilindrada inferior, bem mais lento. Tentou desviar e o carro
fugiu-lhe do controle, rodando e batendo violentamente nas barreiras de
proteção (uma das tomadas mais perfeitas já vistas em filmes do gênero).
Para evitar a “distração do cigarro” é que no Alfa Romeo dos anos 1960,
FNM 2000 JK inclusive, havia um
acendedor de cigarros idealizado justamente para reduzir parte do
processo de acender o cigarro: ele era simplesmente introduzido no
acendedor e, sem interferência do motorista, acendia-se. Depois era só
pegá-lo. Era perfeito.
Essa distração, consciente, precisa ser combatida pelo motorista e
depende só dele. Não que precise ser um chato a bordo, gritando com a
família para que ela não o distraia, mas um certo empenho em se
concentrar faz-se necessário. O motorista precisa se convencer disso.
Dentro do carro o ambiente deve ser de paz e harmonia sempre, e muitas
vezes filhos pequenos brigando (quem é pai ou mãe conhece bem isso)
chegam a perturbar quem está dirigindo, a ponto de levar a uma
distração.
Devaneio
Há, porém, uma distração igualmente perigosa, que é o devaneio, o pensar
nas coisas da vida enquanto se dirige. A palavra também vem do latim,
de + vanus, do vão, do vazio. Se o motorista não for muito
bem treinado, não possuir habilidade acima da média, não tiver adquirido
hábitos corretos de dirigir em sua formação e — ainda por cima — for do
tipo que desrespeita habitualmente as regras de trânsito, esse tipo de
distração pode ser fatal.
Por exemplo, ele ou ela pode não “ver” uma placa de sinalização de faixa
interrompida, de aviso de linha férrea (muito comum) ou um carro a ponto
de cruzar a estrada. Pode nem se dar conta que está chovendo e deixar de
ouvir uma sirene de ambulância.
Ou, no caso de quem se habitua a "furar" sinais vermelhos, pode passar
por um deles sem verificar antes se há tráfego na via transversal. É por
isso que nunca se deve passar diretamente por um semáforo fechado, mesmo
que seja à noite, com ampla visibilidade e em lugar ermo: procure se
condicionar a parar ou quase, para evitar que a distração leve à
repetição do ato nos momentos de maior tráfego.
Um devaneio típico é estar-se dirigindo numa viagem e, num dado momento,
se dar conta que já passou por determinada cidade. A sensação é das mais
estranhas. Acho que o leitor já experimentou isso pelo menos uma vez.
Ficou famosa a distração de Ayrton Senna no Grande Prêmio de Mônaco de
1988, quando estava 50 segundos à frente do segundo colocado Alain
Prost, perdeu a concentração e deu uma batida boba antes do túnel,
ficando fora da prova.
O estado de devaneio pode aparecer devido ao inimigo número 1 do
motorista: o sono. Mesmo que consiga permanecer acordado, dirigir com
sono também leva ao devaneio. Isso ocorre mesmo quando estamos na
poltrona de casa.
Sobre sono, aprendi no filme O resgate do soldado Ryan (de Steven
Spielberg, 1998) algo muito útil, independente de comprovação
científica, mas que tem funcionado. O “comando do sono” seria cruzado,
ou seja, se não quisermos dormir — caso do filme, permanecer em
sentinela e vencer o sono para não morrer — temos de nos dar a ordem
“quero dormir”, e não dormimos. Ao contrário, se desejarmos pegar no
sono, devemos dizer a nós mesmos, “não quero dormir”, e o sono logo vem
(para quem tem insônia é um santo remédio).
Mas, esteja certo ou não o roteiro do filme, ninguém deve dirigir com
sono — ou privado de sua plena capacidade mental e física pelo uso de
drogas, mesmo que jure estar-se sentindo bem. Os efeitos são
aproximadamente iguais. A vida saudável compensa essa auto-disciplina.
Minimizar a distração para maximizar a vida é o caminho.
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