Calço hidráulico: muito improvável com carro rodando

É possível um carro dar calço hidráulico em movimento, trafegando normalmente em uma estrada?

Ricardo Caproni da Silva – Cáceres, MT

 

O calço hidráulico acontece quando um líquido (como água ou combustível) preenche as câmaras de combustão, formando uma massa que, ao contrário da “névoa” de ar e combustível, não pode ser comprimida. Quando os pistões sobem, encontram grande resistência e podem ser avariados componentes como pistões, bielas ou mesmo virabrequim.

Rolls-Royce Ghost em alagamento na Indonésia: risco improvável para o motor em movimento
Rolls-Royce Ghost em alagamento na Indonésia: risco improvável para o motor em movimento

Para responder sua dúvida, vamos a algumas contas rápidas. Digamos que seja um veículo com motor de 2,0 litros e quatro cilindros, ou seja, cada cilindro tem volume total de 500 cm³ ou 500 ml. Se esse motor tiver taxa de compressão de 10:1, significa que o volume da câmara de combustão será reduzido a até 50 ml quando o pistão atingir o ponto-morto superior (PMS). Portanto, para que haja calço hidráulico, é necessário termos naquele instante mais de 50 ml de algum líquido — como água proveniente da admissão, no caso de o veículo passar por uma região alagada.

Não parece difícil chegar a esse volume, o mesmo de um copinho de plástico de café. Contudo, pense que tal motor a 3.000 rpm realiza 100 ciclos de admissão por segundo: com isso teríamos de “derramar” 5.000 ml (5 litros) de água na admissão por segundo para que os cilindros pudessem ser totalmente preenchidos com água, a ponto de causar o calço hidráulico, considerando distribuição de água homogênea por todos os cilindros.

 

 

É por isso que muitas vezes vemos jipes e picapes com sistema de captação de ar elevado, perto do teto (o chamado snorkel) e voltado para frente, sem que ocorra calço hidráulico mesmo ao rodar com chuva forte. No máximo o sistema admite um pouco de água em cada ciclo de combustão, o que reduz a temperatura e a qualidade da chama (embora haja motores de alto desempenho e de corrida nos quais se injeta um pouco de água na admissão, como a BMW lançou no M4 GTS). Essa pequena quantidade de água pode até ser benéfica: ao ajudar a reduzir a temperatura que esteja muito alta, permite trabalhar com maior avanço de ignição e em consequência produzir maior potência, além de proteger o motor de altas temperaturas.

Além disso, dificilmente o calço hidráulico ocorre por excesso de combustível, uma vez que a vazão dos bicos injetores não chega nem perto dos valores citados acima. O máximo que pode acontecer é que o excesso de combustível atinja o limite da relação ar-combustível para que haja queima e faça apagar o motor, encharcando as velas.

Texto: Felipe Hoffmann – Foto: reprodução