OSCA: as boas técnicas de um trabalho em família

 

Após vender sua empresa os irmãos Maserati criaram,
sob outra marca, carros que sobressaíam pelo desempenho

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: Bonhams, RM Auctions e divulgação

 

Uma das mais tradicionais marcas italianas de carros esporte — a Maserati — nasceu da união de esforços de quatro irmãos. Alfieri, Bindo, Ettore e Ernesto Maserati começaram a construir e preparar carros para competição em 1914 e, após 12 anos, adotaram seu sobrenome como a marca dos modelos que brilhariam nas pistas.

Projetar e acertar automóveis era um grande talento dos irmãos; administrar a empresa, não. Com a morte do mais velho — Alfieri — em 1932, Ernesto assumia o comando, mas após cinco anos a Maserati estava em crise, tendo perdido muita competitividade com os investimentos da Mercedes-Benz e da Auto Union em suas “Flechas de Prata” para corridas de Grande Prêmio. Em dificuldades financeiras, os três irmãos vendiam a empresa naquele 1937 ao industrial Adolfo Orsi, de Modena, permanecendo por 10 anos na supervisão dos projetos que viriam.

 

 
A OSCA nas pistas: da esquerda para a direita, a largada de um 1100 na Mille Miglia de
1950, o Maserati com motor V12 de 4,5 litros do príncipe Bira e um roadster 1,5-litro

 

Encerrado o prazo, Bindo, Ettore e Ernesto estavam de volta ao setor de competições com uma nova empresa, sediada numa modesta parte das antigas instalações da Maserati em Bolonha. Impedidos pelo contrato de usar o próprio sobrenome, eles a chamaram de Officine Specializzate Costruzioni Automobili, ou OSCA. Bindo gerenciava a pequena fábrica, Ernesto era o engenheiro de desenvolvimento e Ettore cuidava do ferramental.

 

Em 1958 a linha OSCA compreendia versões de 750 cm³ a 1,5 litro, todas com recursos como duplo comando de válvulas no cabeçote e câmaras de combustão hemisféricas

 

O primeiro OSCA surgia em 1948: o MT4 (sigla para Maserati Tipo 4), um carro de corridas de dois lugares com motor de quatro cilindros e 1,1 litro, dois carburadores e potência de 80 cv e um chassi tubular em forma de escada. Modelos com a mesma arquitetura seriam feitos nos anos seguintes, com motores de 750 cm³ a 1,5 litro, mas o sonho dos irmãos era voltar às provas de Grande Prêmio. Em 1951, o príncipe do Sião (hoje Tailândia) Birabongse Bhanudej Bhanubandh, ou Bira, encomendava a eles um motor V12 de 4,5 litros para instalar em seu Maserati 4CLT/48, com o qual disputou algumas provas de Fórmula 1.

Os sucessos nas pistas se seguiriam. Louis Chiron venceu a prova Aix-les-Bains com um monoposto OSCA de seis cilindros, 2,0 litros e 160 cv. Alguns brilharam em provas italianas bastante severas, como a Mille Miglia (que a marca venceu todas as vezes que correu, de 1950 a 1957, na classe de 1.100 cm³) e a Targa Florio. Com um OSCA de 1,5 litro, Stirling Moss e Bill Lloyd venceram a 12 Horas de Sebring, na Flórida, em 1954; outros carros da marca vieram em 4º. e 5º. lugares — êxito que levou a numerosas encomendas dos Estados Unidos e justificou abrir novas instalações em San Lazzaro di Savena, a seis quilômetros de Bolonha.

 

 
Um belo cupê de 1955 que exemplifica os OSCAs de rua daquela década: o
MT4-2AD,
 com motor de 1,5 litro e 115 cv e carroceria de alumínio Vignale

 

 
A Fiat passava a usar o motor de 1,5 litro projetado pela OSCA em 1959 no modelo
1500; este cupê com carroceria Viotti é uma unidade de pré-produção de 1957 

 

O MT4-2AD preto das fotos, de 1955, é um bom exemplo dos OSCAs de competição. O motor de 1,5 litro e duplo comando com dois carburadores produzia 115 cv a 6.500 rpm, enviados às rodas traseiras. Usava câmbio manual de quatro marchas, suspensão dianteira independente e traseira com eixo rígido. A carroceria foi construída pela Vignale em alumínio sobre o chassi tubular de aço com distância entre eixos de 2,20 metros. Leiloado em 2005 pela casa Christie’s, alcançou € 396.250.

 

 

Em 1958 a linha OSCA compreendia versões de 750 cm³ e 70 cv, 1,1 litro e 95 cv e 1,5 litro com 135 cv, todas com técnicas como duplo comando de válvulas no cabeçote e câmaras de combustão hemisféricas. Até um acionamento desmodrômico das válvulas foi testado em motores de 1,5 litro, mas não se constatou grande vantagem em relação ao método tradicional de molas — mais barato e simples para manutenção — e o projeto foi abandonado.

A marca participou também da Fórmula Júnior, inaugurada em 1959 com monopostos que usavam motores de produção de 1,0 e 1,1 litro. A partir de sua unidade derivada do Fiat 1100, a empresa obteve 78 cv a 7.500 rpm e conseguiu vitórias, mas a opção pelo motor dianteiro logo se mostraria obsoleta diante dos adversários ingleses de motor traseiro. Um carro esporte de 2,0 litros e 175 cv chegou a ser desenvolvido. Contudo, o projeto parou por falta de verba, assim como não saiu do papel um V8 com comando desmodrômico para a Fórmula 1.

 

 
Vidro bipartido, motor 1,6 de duplo comando e interior luxuoso: o 1600 S Fissore de
1963 é um dos carros com mecânica OSCA/Fiat e carroceria de empresas especializadas

 

 
Dentro do mesmo programa, a Zagato elaborou um desenho esportivo com sua
característica “bolha dupla” no teto para o 1600 GT, que usava motor de 105 cv

 

Os grandes resultados dos carros da OSCA nas corridas levaram seu motor de duplo comando a ser adotado pela Fiat, que o colocou em produção em série pelas mãos de Aurelio Lampredi, ex-projetista da Ferrari. O primeiro modelo com ele equipado foi o 1500 em versões cupê e conversível, em 1959. Mesmo com a potência reduzida dos 125 cv originais para 80 cv, o 1,5-litro permitia bom desempenho, com aceleração de 0 a 100 km/h em menos de 11 segundos. O cupê vermelho nas fotos, um modelo de pré-produção, tem carroceria Viotti e foi fabricado em 1957; em 2012 foi à leilão pela Bonhams. Já o modelo 1200 desenhado por Pininfarina recebeu o motor OSCA de 1,6 litro e 100 cv.

A própria OSCA acabou comprando motores da Fiat, em versões mais potentes, para aplicar em automóveis com carrocerias de empresas especializadas como Boneschi, Fissore, Touring e Zagato. O cupê 1600 S Fissore das fotos, de 1963, trazia motor 1,6 de duplo comando, carroceria de aço e alumínio com vidro traseiro bipartido, freios a disco nas quatro rodas e um interior sofisticado. Do mesmo ano é o 1600 GT de carroceria Zagato, com a “bolha dupla” no teto característica dessa empresa, motor de 105 cv com dois carburadores, freios a disco e suspensão independente à frente e atrás, que foi leiloado pela RM Auctions.

Ainda em 1963 a OSCA era adquirida pela MV Agusta, fabricante de helicópteros e motocicletas, que manteve os irmãos Maserati trabalhando em seus projetos. Quatro anos mais tarde passava à história.