Mazda 626, longeva família com direito a ousadia

Mazda 626 Coupe 1988

 

Nascido tímido, o japonês abriu o leque de opções e ofereceu
recursos como turbo, tração integral e direção nas quatro rodas

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

A indústria japonesa tem como hábito manter por décadas a denominação de um automóvel, como atestam exemplos como Honda Civic (desde 1972), Mitsubishi Colt (desde 1962), Nissan Bluebird e Skyline (ambos de 1957) e Toyota Crown (1955) e Corolla (1966). Isso valeu também para outra nipônica, a Mazda, que por 24 anos e cinco gerações usou a numeração 626 em seu sedã de porte médio.

O 626 foi lançado em outubro de 1978 como sucessor dos modelos 616 (com motor de 1,6 litro) e 618 (de 1,8 litro), produzidos desde 1970. Os números eram usados em mercados de exportação, pois os japoneses conheceram ambas as gerações como Capella. Com motor longitudinal e tração traseira, o 626 oferecia carrocerias de duas e quatro portas, seguia linhas retas — um abandono das curvas do antecessor — e media 4,26 metros de comprimento com entre-eixos de 2,51 m. O coeficiente aerodinâmico (Cx) 0,38 era bom para seu tempo.

Dois motores estavam disponíveis: de 1,6 litro com potência de 75 cv e de 2,0 litros com 90 cv (nos Estados Unidos eram 80 cv por causa de restrições de emissões poluentes), ambos com comando de válvulas no cabeçote e carburador, associados a câmbio manual de cinco marchas ou automático de três. A suspensão dianteira era independente McPherson, mas na traseira vinha um eixo rígido. Uma reforma visual na frente e nos para-choques aparecia em 1980.

 

Mazda 626 1978

 

Mazda 626 Coupe 1980
Mazda 626 Coupe 1978
Mazda 626 1980
 
Sedã e cupê mostram a primeira geração do 626, que no Japão era chamado
de Capella; embaixo à direita, o modelo retocado na frente em 1980

 

Em comparativo da revista Car and Driver, nos EUA, o 626 cupê não entusiasmou: “Estilo inócuo e painel de instrumentos desinteressante que não combinam com o desempenho do carro”. Qualidade e conforto foram elogiados, mas não o nível de ruído do motor. Sua aceleração de 0 a 96 km/h em 11,8 segundos superou a do Honda Prelude, empatou com a do Dodge Omni 024 e ficou atrás das de Mercury Capri e Volkswagen Scirocco, este o mais rápido do teste.

 

A terceira geração do 626 ofereceu esterçamento
das rodas traseiras com controle eletrônico,
na mesma direção das dianteiras ou na oposta

 

A segunda geração aparecia em setembro de 1982 com outra arquitetura: agora o motor era transversal com tração dianteira, tendências em sua época. Com o mesmo entre-eixos, o 626 passava a medir 4,52 m e ganhava linhas mais modernas, ainda retilíneas, com grande área envidraçada. Além do cupê e do sedã quatro-portas, havia um hatchback de cinco portas. Os motores estavam mais potentes, com 81 cv no 1,6-litro e 102 cv no 2,0-litros (mas só 83 cv nos EUA), e havia uma opção a diesel de 2,0 litros e 66 cv para a Europa. Foi eleito Carro do Ano no Japão.

A reformulação surtiu efeito. O 626 entrou em 1984 para a galeria de 10 melhores carros da Car and Driver, que assim o descreveu: “Ele combina as virtudes tradicionais do Honda Accord de excelente uso do espaço, acomodações agradáveis e grande seleção de equipamentos com algumas qualidades que nem o Honda iguala, como o estilo de formas orgânicas, fluidas. A influência europeia continua na dirigibilidade: motor e câmbio estão prontos para as velocidades ilegais nas quais o chassi brilha. É a escolha definitiva do entusiasta entre os sedãs acessíveis”.

 

Mazda 626 1983

 

Mazda 626 1982
Mazda 626 1982
Mazda 626 1982
 
Grandes novidades na segunda geração, como motor transversal, versão
hatch e painel digital; o esportivo GT teve motor com turbo e 145 cv

 

No mesmo ano o 626 cupê de 2,0 litros era comparado pela inglesa What Car? ao Prelude e ao Scirocco, ambos 1,8. Saiu-se bem em desempenho e foi o melhor em conforto interno, mas ficou para trás em comportamento e conforto de rodagem. A revista recomendou o VW: “O Mazda tem estilo, boa relação custo-benefício, equipamentos de luxo e o maior espaço entre eles, mas achamos cansativos demais seu rodar duro e o motor ruidoso. Seus maiores inimigos talvez sejam o motor e a versão de cinco portas, com o mesmo conteúdo e mais barata”.

O modelo 1985 ganhava retoques visuais, com frente mais longa, e a opção de painel digital de cristal líquido. No ano seguinte apareciam o esportivo 626 GT, com motor turbo de 2,0 litros com injeção que fornecia 120 cv nos EUA e 145 em outros mercados, e um câmbio automático de quatro marchas. A Motor Trend aprovou: “Ficamos impressionados com a suavidade da entrega de potência, a curva plana de torque (com boa parte disponível de imediato) e o motor que gira livre”. De 0 a 96 ele precisou de apenas 7,8 segundos.

A parceria da Mazda com a Ford rendeu uma derivação do sedã 626 para a marca do oval em mercados da Ásia-Pacífico, o Telstar, com estilo diferenciado por fora e por dentro, que substituía o Sierra antes importado da Inglaterra. Essa geração teve uma sobrevida até 1993 na África do Sul, mas os demais mercados recebiam já em maio de 1987 o terceiro 626, com maior entre-eixos (2,57 m, exceto no cupê, que mantinha os 2,51 m), comprimento entre 4,51 e 4,61 m e opções de tração integral e freios com sistema antitravamento (ABS). O cupê era renomeado MX-6 para os EUA, onde daria origem ao Ford Probe.

 

Mazda 626 Coupe 1988

 

Mazda 626 4WD 1988
Mazda 626 Wagon 1990
Mazda Capella 1988
 
Estilo equilibrado no 626 de terceira geração, que oferecia as carrocerias
hatch, sedã, cupê e perua e opções de tração e direção nas quatro rodas

 

Os motores eram de 1,6 (81 cv), 1,8 (90 cv), 2,0 (102 cv) e 2,2 litros (115 cv), além do 2,0 com duplo comando, 16 válvulas e 148 cv do GT. O 2,2 usava três válvulas por cilindro, solução que teve certo espaço na indústria japonesa. Na linha a diesel, ao lado do aspirado, foi oferecido o 2,0 RFT de 82 cv com compressor Comprex, solução incomum que vinha do utilitário Bongo. Novidades em 1988 eram a perua e o sistema de esterçamento das rodas traseiras com controle eletrônico (AWS, all-wheel steering), recurso que outras marcas (Honda, Nissan) também lançaram no Japão nesse período, em alguns casos com controle mecânico. Podia equipar apenas o hatch e o cupê. Retoques de estilo vinham em 1990.

 

 

A revista inglesa Autocar testou em 1988 o 626 GT hatch AWS: “A direção nas quatro rodas torna a direção mais fácil e segura. Acima de 35 km/h as rodas traseiras viram na mesma direção das dianteiras, com ângulo máximo de 5 graus. A estabilidade e a segurança tornam-se evidentes: a rápida direção deixa o 626 agradavelmente estável. Manobras rápidas de evasão podem ser feitas com grande margem de segurança. Em menor velocidade, o esterçamento em ângulo oposto faz de estacionar uma brincadeira de criança”. O desempenho do GT — que acelerou de 0 a 96 km/h em 9,4 segundos — foi bom, mas o nível de ruído mereceu críticas.

O 626 aderia à tendência das formas “orgânicas” — fluidas e arredondadas — dos carros japoneses na geração de novembro de 1991, que substituía o nome Capella no mercado local por Cronos para o sedã e Efini MS-6 para o hatch, estas as únicas carrocerias disponíveis em qualquer país. Quem quisesse a perua teria à disposição até 1999 o modelo de geração anterior. O carro continuava a crescer, com 4,67 m a 4,69 m de comprimento e 2,61 m entre eixos, e continuava a ter sua versão Telstar para a Ford. Carros desse período foram vendidos no Brasil por importação oficial.

 

Mazda 626 1992

 

Mazda 626 1992
Mazda 626 1992
Mazda 626 1992
 
No quarto modelo a Mazda seguia linhas arredondadas e inaugurava
sua produção nos EUA; apenas hatch e sedã estavam disponíveis

 

Pela primeira vez um Mazda era fabricado também nos EUA — o 626 que saía de Flat Rock, no Michigan. Os motores aumentavam para acompanhar os maiores tamanho e peso: 1,8 de 104 cv, 2,0-litros de 118 cv e um inédito V6 de 2,5 litros e 164 cv, além do diesel com compressor e 82 cv para a Europa. Nos EUA, a Car and Driver opinou: “O fluido V6 leva sua massa até 96 km/h em meros 7,3 segundos, o que supera completamente qualquer Accord e perde apenas para o Ford Taurus SHO. Sua velocidade máxima e a aceleração lateral impressionam. O 626 também é fácil e natural de dirigir suavemente”.

Apenas no Japão, um sedã com carroceria mais estreita foi fabricado entre 1994 e 1997 para enquadrar o 626 em faixa mais leve de tributação, que naquele país considera a largura como importante fator. Essa versão tinha motores de 1,8 e 2,0 litros e podia receber tração integral.

Na quinta e última geração, de 1997, o 626 teve três carrocerias diferentes — para os EUA, o Japão e os demais mercados —, sendo o modelo nipônico o mais estreito deles, e o norte-americano, o mais longo. A versão internacional media 4,57 m (a dos EUA, 4,74 m) e todas seguiam o entre-eixos de 2,67 m. Voltavam a existir sedã, hatch e perua com o mesmo desenho de frente e a tração integral permanecia entre as opções. A linha de motores passava pelos 1,8 (90 cv) e 2,0-litros (115 ou 136 cv) a gasolina, o V6 de 2,5 litros (170 cv) e um 2,0 turbodiesel (101 cv) para os europeus. Apenas o 2,0 (com 130 cv) e o V6 estavam disponíveis nos EUA.

 

Mazda 626 1997

 

Mazda 626 1997
Mazda 626 Wagon 1998
Mazda 626 1999
 
Na última geração houve carrocerias distintas para EUA (abaixo à direita),
Japão e Europa (outras fotos) e a perua voltou a seguir o estilo da linha

 

Uma versão esportiva com motor 2,5 biturbo de 280 cv — a maior potência permitida pelo governo japonês na época —, o 626 MPS ou Mazda Performance Series, foi apresentada no Salão de Genebra de 2000, mas nunca chegou ao mercado. Nesse ano o 626 norte-americano ganhava bolsas infláveis laterais dianteiras; no Japão já estava disponível câmbio automático com seleção manual.

Em comparativo ao Honda Accord e ao Toyota Camry na Motor Trend, o 626 destacou-se em direção e foi bem avaliado em conforto interno e estabilidade, mas ficou para trás em desempenho: “Em conforto de marcha o melhor é o Camry, o Accord é mais firme e preciso e o 626 fica no meio termo, mantendo-se mais composto que o Toyota em uso severo. O Mazda enfrenta um grande desafio neste segmento tão competitivo: apesar de bons detalhes como controle de tração e travas a distância em um preço básico muito atraente, ele é bastante pressionado contra esses dois gigantes”.

O 626 foi produzido até 2002 tanto nos EUA quanto no Japão, embora tenha seguido por mais três anos na Colômbia. Em seu lugar a empresa lançou o Mazda 6, denominação que está em uso até hoje: seria o caso de mais um logotipo de longa vida?

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