Nissan March tem mais história do que você pensa

Com cinco gerações, tradição do pequeno japonês vem desde os anos 80 e inclui esportivos e conversível

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

A maioria dos brasileiros só foi conhecer o Nissan March em 2011, quando ele chegou ao país mediante importação do México. A história desse hatch, porém, vem de longe: foi lançado no Japão em 1982 com o nome Micra, ainda usado em muitos mercados.

A primeira geração (código K10) estreou como sucessora do Cherry para os japoneses. O hatch de apenas 3,79 metros de comprimento e 2,30 m de distância entre eixos tinha estilo simples e retilíneo, grande área envidraçada e motor transversal, como a maioria dos carros pequenos da época. Bem leve (a partir de 635 kg), ele oferecia versões de três e cinco portas. Estavam disponíveis motores de alumínio de 1,0 litro (com potência de 50, 55 ou 60 cv) e 1,25 litro (60 cv) e transmissões manual de quatro ou cinco marchas e automática de três marchas, sempre com tração dianteira.

 

Com três ou cinco portas, chamado de March ou de Micra, era um Nissan prático e econômico; a versão Turbo (em preto e branco) tinha 85 cv em 1,0 litro

 

A Nissan não demorou a vendê-lo na Europa, onde foi fabricado na Espanha para enfrentar grande leque de concorrentes conhecidos nossos, como Fiat Uno, Ford Fiesta, Opel Corsa e Peugeot 205. Alguns países o receberam de início como Datsun-Nissan Micra na transição da empresa para abandonar a marca Datsun, antes usada para exportação. Um motor turbo de 1,0 litro e 85 cv, apto a 160 km/h de máxima, era adotado no Japão em 1985. Apimentado mesmo era o Super Turbo de 1988, com turbo e compressor associados para 110 cv em apenas 930 cm³, diferencial autobloqueante e faróis auxiliares integrados à grade. Feito para homologação para corridas, era muito rápido, mas um tanto complexo. Os europeus tiveram ainda um 1,3 com injeção e 75 cv.

 

 

O teste do Micra 1,0 pela revista inglesa What Car? apontou bom desempenho (“sua potência é excepcional para a cilindrada”) e estabilidade melhorável. “Boa economia fará dele um carro barato de usar. Ele não é o mais espaçoso ou confortável, mas é um passo na direção certa. Dentro de alguns anos será difícil ver os japoneses atrás dos europeus: provavelmente eles estarão liderando”, previu.

 

Arredondada, a geração de 1992 ganhava ABS, bolsa inflável e transmissão CVT; o motor de 1,3 litro era o mais potente; em verde, a grade dos últimos anos

 

O March ou Micra adotava estilo arredondado no segundo modelo, o K11 de 1992. Com 3,75 m e entre-eixos de 2,36 m, ele oferecia motores com quatro válvulas por cilindro e injeção de 1,0 litro/55 cv e 1,3 litro/75 cv. Avanços em segurança passavam por bolsa inflável, barras de proteção nas portas e freios antitravamento (ABS). Na Europa, atendida agora pela fabricação inglesa, ele foi equipado com motor 1,5 a diesel de 58 cv da PSA. Houve ainda opção de transmissão automática de variação contínua (CVT) e as versões esportivas Super S e SR. Um conversível aparecia em 1997, mesmo ano de retoques visuais.

 

Apimentado mesmo era o March Super Turbo de 1988, com turbo e  compressor para 110 cv em apenas 930 cm³: feito para homologação para corridas, era muito rápido

 

Comparado em 1992 pela inglesa Car ao Peugeot 106 e ao Rover Metro, o Micra 1,0 ficou em segundo lugar: “A Nissan merece elogios pelo estilo do Micra. O carro tem o melhor rodar, agradável para longas distâncias. Seu painel é muito bem feito, o espaço traseiro muito generoso, e a suspensão traseira amplia o espaço para bagagem”. Ele foi econômico em cidade e ficou entre os mais rápidos, mas o comportamento dinâmico deixou a desejar. Essa geração manteve-se em linha até 2007 em Taiwan, onde um sedã também foi feito.

 

As curvas tomaram conta do terceiro March, de 2002, que ganhou formas controversas e motor de 1,6 litro; o conversível C+C tinha teto rígido envidraçado

 

Foi na terceira geração (K12, de 2002) que o March mais ousou em estilo, com certo ar nostálgico e um conjunto que causou controvérsia. Com plataforma comum ao Renault Clio — as marcas se haviam associado em 1999 —, ele estava com 3,72 m e crescia entre eixos para 2,43 m. O banco traseiro corrediço trazia espaço adicional quando não se levasse muita bagagem. A linha de motores tinha os 1,25 de 65 e 80 cv, o 1,4 de 88 cv e o 1,6-litro de 110 cv a gasolina, além do 1,5 a diesel com 65 ou 86 cv; uma caixa automática de quatro marchas substituía a CVT. Havia opção por tração integral (comum em carros japoneses) e o esportivo 160 SR de 1,6 litro. O conversível C+C, com teto rígido envidraçado e retrátil da alemã Karmann, era lançado em 2005.

“O motor de 80 cv fornece potência de forma suave e sem esforço. Seu interior coloca o Fiesta na sombra em originalidade e houve melhora considerável em espaço para os passageiros”, observou a revista inglesa Auto Express. “O acabamento é básico, mas feito de forma que não se nota onde foi feita economia. Bom de dirigir, ótimo de olhar e com muita personalidade, este é de longe o melhor Micra até hoje”.

 

A quarta geração ficava menos polêmica e chegava ao Brasil, de início pelo México e depois feita aqui (foto no centro); a versão Nismo tinha visual esportivo

 

O March K13 (2010) foi o primeiro a chegar aqui — vinha do México, local de produção inédito para o modelo. Bastante arredondado, ele já não provocava tanta polêmica quanto o antecessor. Agora usava plataforma específica da Nissan e media 3,78 m com entre-eixos de 2,45 m. Inédito também era o motor de três cilindros e 1,2 litro com 80 cv (aspirado) ou 98 cv (com injeção direta e compressor), mantendo-se os quatro-cilindros a gasolina 1,5/99 cv e 1,6/108 cv e o 1,5 turbodiesel. Para o Brasil recebeu o 1,0-litro de 74 cv da Renault.

 

 

A caixa automática podia ser de quatro marchas ou CVT, conforme o mercado. O Japão recebia em 2013 o March Nismo, com visual esportivo e motores 1,2 e 1,5, e a frente era remodelada em todos os mercados. Recursos disponíveis passavam por seis bolsas infláveis, controle de estabilidade, teto envidraçado, chave presencial e assistente para estacionamento. Essa geração deu origem a outros modelos: o Renault Pulse para a Índia, pouco alterado em estilo, e o Venucia R30 para a China, mais diferenciado em aparência. No Brasil é fabricada desde 2014.

 

Mais Renault, menos Nissan: o novo Micra é fabricado na França com plataforma de Clio e motores de três cilindros; o desenho inspirou-se no do Sway

 

A Autocar inglesa aprovou a versão com compressor: “Produz 23% mais potência e 31% mais torque que o básico, mas com menor emissão de CO2. O compressor é quase inaudível, salvo em alta rotação, e o desempenho adequado. Você não tem que girar o motor para obter um ritmo respeitável. O Micra não vem desafiar o Fiesta em envolvimento do motorista ou o Fiat 500 em estilo, mas pode oferecer uma proposta decente em custo-benefício”.

O March chegava à quinta geração (K14) para 2017, com estilo ousado e plataforma do atual Clio francês.  Inspirado no conceito Sway, trocava as linhas arredondadas por angulosas e alcançava o muito bom o Cx 0,29. Os motores a gasolina iniciais eram só de três cilindros: 900 cm³ com turbo e 90 cv, 1,0-litro com 73 cv e 1,5 turbodiesel com 90 cv. Recursos atuais eram frenagem automática em caso de risco de colisão, monitor de faixa da via, faróis com comutação automática e leitura de placas de sinalização. O sistema de áudio Bose usava alto-falante no encosto de cabeça do motorista. Por enquanto é fabricado apenas na França em unidade da Renault.

Mais Carros do Passado