Volkswagen Kombi foi utilitário de 1.001 utilidades

Polícia, ambulância, transporte de companhia aérea: no trabalho ou no lazer, a Kombi comprovava a eficiência de um projeto simples e genial

 

Por dentro o volante de três raios ficava quase horizontal, como num ônibus: com o motorista bem à frente, a visibilidade próxima era incomparável. Abaixo dele vinha o velocímetro, pois marcador de combustível só era oferecido na ambulância: nas demais havia uma parte do tanque de reserva (cinco litros), acionada por botão de puxar. Quando acabava o tanque principal podia-se rodar cerca de 50 quilômetros. A bateria de seis volts ficava junto ao motor.

A caixa de transmissão de quatro marchas não sincronizada, na qual apenas terceira e quarta eram silenciosas (dentes helicoidais), era a mesma do Volkswagen Sedã. Mas a transmissão às rodas foi complementada por caixas de redução em cada cubo de roda traseira, como no Kubelwagen. Além da maior redução final com a relação de 1,4:1 (mais tarde 1,26:1, ao ser adotada primeira marcha sincronizada), havia um ganho de distância do solo, um dos destaques da Kombi.

 

Interior simples e para-brisa dividido; a produção mal atendia à grande demanda; na comparação, a melhor relação entre volume útil e espaço ocupado

 

As suspensões seguiam as do Sedã, mas a traseira do tipo semieixo oscilante estava longe de ser a ideal: a cambagem das rodas variava muito com o trabalho da suspensão, deixando os pneus com menor contato com o solo em curvas mais fortes. Havia duas barras de torção transversais na frente e uma de cada lado na traseira.

 

A versão Samba ou Bus De Luxe, com até 23 janelas e teto corrediço, foi empregada em locais turísticos e parques nacionais para apreciar belas paisagens e animais selvagens

 

A arquitetura da Kombi revelou-se um de seus trunfos. Um material da própria Pon demonstrava seu aproveitamento de espaço: comportava cerca de 3,5 metros cúbicos em superfície de sete metros quadrados ocupada no solo, relação de 50%. Em um furgão convencional, com motor dianteiro e tração traseira, eram 6,1 m² ocupados para levar apenas 1,75 m³, relação de 0,29. Além disso, quando carregado tal furgão ficava com 67% do peso na traseira, ante 52% da perua VW.

A revista alemã Auto Bild relembrou em 2009 a Transporter dos anos 50 em paralelo a DKW Schnellaster, Ford Taunus Transit, Goliath Express e Tempo Rapid: “Bem-vindo ao utilitário mais bem-sucedido do mundo. O T1 deixou toda a concorrência para trás. Qual era o segredo de seu sucesso? A marca? A proximidade ao Fusca? A rede de concessionárias? A T1 foi desenhada desde o início para ser robusta e de baixa manutenção. O motor traseiro trazia conforto e nível de ruído sem similares”. A revista resumiu a Kombi na expressão “geniosa simplicidade”.

 

Na picape, lançada em 1952, as tampas laterais também podiam ser abertas e havia um compartimento sob a caçamba

 

O sucesso foi tal que a produção de 60 veículos por dia se tornou insuficiente para abastecer o mercado. A VW chegou a produzir 90 diferentes arranjos de carroceria nos cinco primeiros anos, incluindo miniônibus, picapes, carros do corpo de bombeiros, ambulâncias, transportadores de cerveja, furgões refrigerados para sorvetes, carros de leiteiro e padeiro, açougues volantes, carros-mercearia, de entrega e para acampamento.

 

 

Samba, a Kombi descontraída

A picape de cabine simples (Pritschenwagen para os alemães) chegava em agosto de 1952. Além de ótima área de carga, tinha um compartimento para volumes menores sob a caçamba. Um ano depois, vidro e para-choque traseiros passavam a ser de série no furgão: com melhor visibilidade, o veículo de 4,28 metros de comprimento e 1.060 kg ficava mais fácil de dirigir e de estacionar.

Chegava também uma versão que faria muito sucesso: a de 23 janelas, incluindo oito pequenos vigias de plástico nas laterais do teto, e com um teto retrátil de lona de 1,5 metro de comprimento. Embora descrita como Achtsitzer-Sonderausführung (oito lugares, versão especial) na tabela de preços, era chamada de Samba nos mercados europeus e Bus De Luxe no norte-americano. Foi empregada em locais turísticos e parques nacionais para apreciar belas paisagens e animais selvagens. De acordo com a configuração dos bancos, podia carregar sete, oito ou nove ocupantes com relativo conforto.

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A publicidade

Difícil um automóvel com tantos argumentos para a publicidade quanto a Kombi. Na década de 1960, em que dividia espaço apenas com o Fusca na marca, era frequente ver seus anúncios na TV e nas revistas.

O detalhado anúncio de 1961 demonstrava atributos como a capacidade de levar quase o próprio peso em carga, “proporção considerada inatingível até poucos anos atrás pelos fabricantes”; a distribuição de peso, a manutenção por “metade do custo de uma camioneta do tipo pick-up”; a facilidade de manobra e carregamento e os 25 metros quadrados de espaço para propaganda, que faziam dela “um cartaz ambulante”.

“A sua atual camioneta passa por estes testes?”, desafiava a VW em 1962. As provas incluíam passar sobre uma bola de futebol oficial sem tocá-la, pelo vão livre de 24 cm; transportar oito bezerros sem necessidade de carrocerias especiais; carregar o veículo estacionado entre outros dois, aproveitando a porta lateral; e teste de economia de combustível e na manutenção.

 

Nos primeiros anos a propaganda destacava sua praticidade, robustez e economia: “Na gíria dir-se-ia que a Kombi dá muito menos oficina do que outros veículos de transporte médio. O seu motor vence brincando as subidas mais íngremes”. Com o tempo, o bom-humor tornou-se marca registrada, como em “carro esporte”. Como assim? “A Kombi Luxo transporta gente esportiva. Só que, além disso, pode levar todo o equipamento de gente esportiva”, como barco, esquis, coletes e tubos de oxigênio.

 

Na de 1964, alusão a espaço e versatilidade: “Como carregar o barco… e o pessoal que carrega o barco”. O conforto foi destaque na peça “O grande Volkswagen de luxo”, que definia o carro como “cinemascópico” pela ampla visibilidade das 15 janelas. “Dificilmente você encontrará outro carro com acabamento interno tão esmerado”, dizia.

A de 1965 sugeria “tamanho luxo” e “tamanho econômico” no mesmo carro. “Você é capaz de citar algum outro carro de luxo que transporte nove ou mais pessoas? A Kombi faz 10,5 km com um litro e nós achamos que isso é o certo”.

Na TV, um dos melhores anúncios foi o de 1997 com dois garotos conversando sobre o carro de seus sonhos. Um quer um conversível com uma bela loira ao lado; o outro, uma Kombi. Uma Kombi? Sim, com várias loiras, morenas, etc. Consta que o comercial teve de ser retirado do ar, porém, por pressões de quem via riscos em exibir uma criança dirigindo…

Nos Estados Unidos, a publicidade precisava convencer o público de suas qualidades ainda desconhecidas. “Por que entregar 1.600 libras [727 kg] que ninguém encomendou?”, questionava o anúncio de 1962. Chassi, capô, para-lama dianteiro, radiador e cardã, comuns em picapes e peruas norte-americanas, eram dispensados pela Kombi, que assim rendia até o dobro por litro de combustível. Em outra peça da época, o VW ficava atrás de uma frente típica de outros utilitários: “Ainda empurrando isso por aí?”.

 

Apesar do amplo espaço interno, a Kombi era pouco mais longa que um Fusca, fato bem explorado na campanha com o “besouro” pintado em sua lateral. Em outro anúncio, “a VW é a grande” ao lado de uma perua norte-americana bem maior. O texto explicava que ela era maior porque transportava mais carga. E havia a longevidade: “Velhas VW Station Wagons nunca morrem”, dizia sobre a Kombi-lanchonete. Apesar do espaço para fogão, geladeira e pia, sugeria: “Se você pretende abrir um restaurante, não compre uma nova — vai levar tempo demais para ela ficar ruim o suficiente”.

 

Para marcar os 60 anos da Kombi, em 2009, a agência DDB Paris produziu anúncios bem-humorados. “Ela pertenceu a um trotskista, um maoísta, um democrata e um republicano sem nunca mudar de dono”: afinal, todos mudam de opinião, de hábitos ou de religião, mas a Kombi nunca acaba.

Para outra peça, o utilitário “carregou todos os ideais do mundo”, como a liberação sexual, os fins do capitalismo e da opressão, o cheiro da queima de incenso e o movimento “energia nuclear, não, obrigado”. “Quando se percebe tudo que a VW Van perdeu pelo caminho, é de se perguntar como sua reputação ficou intacta”.

“Ela já estava lá quando nós vivíamos nus em cabanas. Em 1969”, diz outra. “Um grande ano para dançar nu na lama em Woodstock [festival de música] e recolocar a roupa para andar pelas ruas e protestar contra a guerra do Vietnã”… e a Kombi já tinha 22 anos”.

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