Peugeot 406 conquistou pela harmonia de estilo

Sedã e perua abriram caminho ao belo cupê de Pininfarina, todos eles vendidos também no Brasil

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

Para algumas pessoas, o desenho simples e elegante de certos carros da década de 1990 será lembrado por décadas. Foi um tempo em que os estilistas conseguiam cativar nossos olhos sem recorrer a excessos, o que não se restringia a carros de alto preço. Confirmam essa tese sedãs médios como o BMW Série 3 de 1990, o Citroën Xantia e o Renault Laguna de 1993, o Opel/Chevrolet Vectra de 1996 e, sem dúvida, o Peugeot 406.

Para desenhar o sucessor do 405, no Salão de Frankfurt em setembro de 1995, a marca de Sochaux não precisou reinventar seus conceitos de estilo: apenas evoluiu o tema, aproveitando soluções do também atraente hatch 306 de dois anos antes. Mas o resultado foi feliz para o sedã de 4,56 metros de comprimento e ampla distância entre eixos, 2,70 m. Inéditos na Europa eram os faróis com lente de policarbonato sobre os refletores duplos. O coeficiente aerodinâmico (Cx) 0,30 das versões mais favoráveis indicava pouca resistência ao ar. Para o motorista, o limpador de para-brisa automático era uma conveniência até então restrita a carros mais luxuosos.

 

Agradável de ver e de dirigir, o 406 oferecia motor V6 e tinha suspensão traseira multibraço; a perua, mais longa na traseira, era muito espaçosa

 

Os motores iniciais tinham 1,6 litro (potência de 88 cv e torque de 13,2 m.kgf), 1,8 litro e 16 válvulas (110 cv e 15,8 m.kgf) e 2,0 litros e 16 válvulas (135 cv e 18,3 m.kgf), todos a gasolina, além dos turbodiesels de 1,9 litro (92 cv e 20 m.kgf) e 2,1 litros (109 cv e 25,5 m.kgf). No ano seguinte aparecia o 2,0-litros com turbo de baixa pressão (147 cv e 24 m.kgf), voltado ao desempenho em médias rotações, seguido pelo V6 de 3,0 litros e 24 válvulas (190 cv e 27,2 m.kgf) desenvolvido em parceria entre o grupo PSA e a Renault.

 

 

Havia transmissão automática de quatro marchas em opção à manual de cinco em parte das versões. A suspensão dianteira McPherson combinava-se à traseira independente multibraço, uma evolução sobre a de braços arrastados do 405. Amortecedores com controle eletrônico podiam equipar o V6. O peso das versões variava entre 1.240 e 1.415 kg. A perua 406 Break era apresentada em outubro de 1996 com aumento expressivo no comprimento (4,74 m), sem alterar o entre-eixos. Oferecia grande compartimento de bagagem, mas não conseguia a harmonia de estilo do sedã. Como este, ela concorria com variados modelos europeus como Ford Mondeo, Volkswagen Passat e os citados Xantia, Vectra e Laguna.

A revista Autoesporte colheu boas impressões com o sedã no lançamento europeu: “O interior é aconchegante e confortável e o rodar, bem silencioso. A suspensão traseira confere ao automóvel um novo padrão. O resultado é um carro ágil e seguro, em que se pode abusar sem receio de surpresas. O motor produz 135 cv e a curva de torque proporciona potência desse baixos regimes de rotação”.

 

O Coupé esbanjava estilo com a assinatura de Pininfarina, que também o produzia, e podia ter bancos Recaro com ajuste elétrico e amortecedores reguláveis

 

O ápice de elegância da linha era atingido no Salão de Paris de 1996. O estúdio Pininfarina, famoso por belos Ferraris, foi responsável tanto pelo desenho quanto pela produção completa do 406 Coupé na fábrica de Grugliasco. Embora seus trabalhos de estilo para a Peugeot remetessem ao sedã 403 dos anos 50, até então a empresa se limitara a construir as carrocerias para que recebessem a mecânica nas instalações do grupo francês.

 

Embora fizesse trabalhos de estilo para a Peugeot desde os anos 50, o estúdio famoso pelos Ferraris foi responsável também por produzir o 406 Coupé

 

Herdeiro da tradição de cupês da marca, como 404 e 504, o 406 Coupé era harmonioso como poucos — o tipo de carro que atravessa décadas sem envelhecer. O três-volumes de duas portas não aproveitava qualquer painel de carroceria do sedã, tampouco elementos como faróis (com refletor elipsoidal), lanternas e vidros. Não era difícil ver semelhanças ao Ferrari 550 Maranello, outra obra do estúdio. Fiat Coupé, Ford Probe (depois o Cougar), Honda Prelude, Opel Calibra e logo mais Volvo C70 estavam entre os adversários.

Mesmo no interior de quatro lugares havia itens diferenciados, como os bancos dianteiros Recaro (com opções de ajuste elétrico e revestimento em couro) e a alavanca da caixa manual feita de alumínio. Os motores de 2,0 e 3,0 litros a gasolina e o entre-eixos eram os mesmos do sedã, mas o comprimento crescia 6 cm. Apesar da mesma plataforma básica, o cupê trazia direção e freios (Brembo) aprimorados, bitolas mais largas e suspensão com braços forjados de alumínio.

 

Sedã e perua mudavam pouco em 1999, como grade, faróis e materiais internos; dois anos depois vinham injeção direta de gasolina e novos motores a diesel

 

A revista inglesa Autocar avaliou o Coupé: “A Peugeot resistiu à tentação de aplicar a nova carroceria às bases do sedã para economizar tempo e dinheiro. O que o diferencia na classe é parecer um animal muito diferente do quatro-portas ao dirigir. O desempenho é mais refinado que de corridas, mas impressiona. Aderência e controle de carroceria foram bastante melhorados em relação ao sedã, de estabilidade já muito boa. Até que a Ford venha com convicção [com o Cougar em 1998], o belo 406 Coupé é imbatível por certa margem”.

 

 

Sedã e perua passavam por leves alterações de estilo em março de 1999, com faróis alongados e grade maior. Em paralelo vinham melhores materiais de acabamento interno e acessórios como ar-condicionado, faróis automáticos e rebatimento elétrico dos retrovisores. A versão Executive trazia sistema de áudio JBL, navegador e bancos de couro com ajuste elétrico.

Sob o capô havia mais potência para o V6 (207 cv e 29 m.kgf), um 2,0-litros de nova geração (136 cv e 19,4 m.kgf) e um quatro-cilindros de 2,2 litros a gasolina (160 cv e 22,1 m.kgf). O 2,0 turbo não estava mais disponível. Dois anos mais tarde a Peugeot adicionava o 2,0 a gasolina com injeção direta (140 cv e 19,6 m.kgf) e a série HDI turbodiesel de 2,0 litros (107 cv e 25,5 m.kgf) e 2,2 litros (133 cv e 32 m.kgf) com filtro de material particulado. O HDI 2,2 podia equipar também o Coupé, que em 2003 ganhava novos para-choques com uma grande tomada de ar no dianteiro.

 

Com ampla tomada de ar dianteira, o 406 Coupé seguia o padrão de estilo da marca em 2003

 

No Brasil foram vendidas as versões sedã e perua, com motores de 2,0 e 3,0 litros, e o Coupé de 3,0 litros. O 406 participou com sucesso de competições. O sedã foi campeão francês na classe Supertourisme por quatro anos (1999, 2000, 2002 e 2004) e o Coupé correu em campeonatos como o STW alemão, o BTCC inglês e o Procar belga. Usavam motor de 2,0 litros com mais de 300 cv, caixa sequencial de seis marchas e peso aliviado para menos de 1.000 kg.

A produção na França era encerrada em 2004, quando cedia espaço a sedã, perua e cupê 407 (o 406 Coupé havia parado no ano anterior), mas o sedã continuou em linha até 2008 em Cairo, no Egito. Como seus sucessores não reprisaram sua harmonia de linhas, seria preciso aguardar mais 14 anos até que o novo 508 viesse cativar nossos olhos outra vez — infelizmente sem um cupê, ao menos por enquanto.

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